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“Ser literário ou não: eis a questão”, de Renata Barcellos (BarcellArtes)

Renata Barcellos é convidada da Plataforma Nacional do Facetubes.

09/09/2025 às 19h20
Por: Mhario Lincoln Fonte: Renata Barcellos
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Renata Barcellos
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A última semana foi de polêmicas no cenário cutural e político. Estou acompanhando nas redes sociais as diversas posicões e argumentos utilizados. Quanto ao último, sou avessa a discussões desta natureza. Já, no que se refere a primeira, enquanto professora, pesquisadora e escritora, sinto-me no dever de tecer algumas considerações.  Antes disso, ao me reportar a alguns pesquisadores sobre o fato, parte deles declararam não ter conhecimento da “frase do momento”: “ITAMAR, ERNAUX E FERRANTE SÃO INTERESSANTES, MAS NÃO LITERATURA” (Aurora Bernardini). Como?  Diversas considerações foram e estão sendo tecidas nas redes sociais....                                                                                                                                             

De acordo com Claudio Daniel (poeta, romancista, crítico literário e professor), Aurora Bernardini (professora aposentada da USP e tradutora renomada de italiano, inglês e russo) é uma “das mais respeitáveis vozes da crítica literária, traduçāo, ensino e pesquisa da literatura em nosso país, com imensa contribuição no ensino universitário, na traduçāo de autores russos e italianos, como Khlébnikov e Ungaretti, além de sua importante lista de publicações -- artigos, livros, ensaios. É possível concordar ou nāo com as suas recentes opiniões publicadas em um jornal de Sāo Paulo (eu concordo em gênero, número e grau), mas destratá-la com ironias mesquinhas nas redes sociais é desprezível e revela apenas a ausência de argumentos de quem nāo está habilitado a participar de um debate de ideias sério.

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No fundo, revela a fragilidade daqueles / daquelas que se sentiram atingidos, por saberem que os seus escritos têm pouca qualidade estética, ainda que sejam indicados em listas de semifinalistas de concursos viciados, que há muito tempo nāo se preocupam com a qualidade da escrita. Embora desnecessária, deixo registrada aqui a minha solidariedade a Aurora Fornoni Bernardini”.  Entrevista com o crítico literário disponível em: https://www.youtube.com/live/Ie0yIErAWSA?si=C_AkzeJEgXZV-QNn                                                                                                                 

A partir de todo minha formação acadêmica e prática pedagógica da Educação Básica à Superior, destaco algumas questões: ao privilegiar o conteúdo em detrimento da forma, a literatura contemporânea seria de “qualidade inferior”? Será o problema COMO se escreve ou FORMA que se lê. Esta ratificada por pesquisas quanto ao mau desempenho de competência leitora e escrita. Assim, fica o questionamento: o texto foi mal redigido ou o leitor não tem “maturidade” para lê-lo? Sendo isso ou não, o fato é, segundo Teresa Silvestre: a literatura é “sempre guerra. Guerra com as palavras, que nunca se deixam domar; com as ideias, que resistem ao contorno; com as estruturas, que se fecham e se abrem ao mesmo tempo. E mesmo quando julgamos  ter terminado uma frase, um período, um texto, o combate apenas se suspende — para logo recomeçar”.  Outra questão a ser refletida: urgência da discussão teórica das fronteiras: literário e não literário, crônica jornalística e literária, artes plásticas e poesia visual...                                                                                   

Ao longo da historiografia literária, vale ressaltar quantos autores foram cancelados, apagados... e, na contemporaneidade, como ainda o são. Conforme Ezra Pound: Literatura é “novidade que permanece novidade". Dessa forma, cabe dizer que o “Mercado” é o principal balizador. O escritor precisa “entrar no circuito” para ser visto... Para isso, precisa ser editado por uma grande editora, a fim de colocá-lo em destaque na imprensa, nas vitrines das livrarias, nas festas e concursos literários. Tudo isso compõe o Sistema Literário.  Quem são e qual a formação dos “profissionais” que selecionam quem será editado por uma grande editora? Ao eleger um grupo de autores e obras como mais conhecidos, outros serão excluídos do circuito. Dessa forma, a visibilidade de determinadas obras (e seus autores) está relacionada à invisibilidade de outras. Ao longo dos séculos e das escolas literárias, quantas obras e autores foram e ou estão “cobertos pelo manto” da invisibilidade? Cada vez mais, isso me faz refletir sobre o papel da crítica literária, dos jornais literários cujo espaço era destinado a diversas questões literárias: jornalismo x ficção, prazer e reflexão, resenha...                                                                 

Para concluir esta reflexão, considerações de Luiz Eduardo de Carvalho (escritor, professor, teatrólogo, publicitário, jornalista e gestor cultural) acerca da polêmica: “Creio tratar-se de uma delicada questão dialética que, neste mundo polarizado em que tudo se opõe em tensões entre certo e errado, bem e mal, direita e esquerda etc. precisa de uma análise mais detida para que resulte numa discussão que ultrapasse as raias da polêmica sensacionalista de que se alimentam as redes sociais a fim de que traga alguma reflexão acerca do tema posto em debate.

Decerto há um ranço elitista sempre que se configura qualquer juízo que distingue alta cultura da cultura popular com ponderações de bom ou ruim, de melhor ou pior. Mesmo que totalmente embasado no cânone acadêmico, tais contrastes impõem sua postulação à subjetividade interpretativa dos leitores que acabam por recebê-la como diagnóstico concludente que os impele a assumir uma posição, esta ou aquela, de disputa na querela, incendiando-a com argumentos embasados, mas também com muitos achismos que ecoam a indignação de alguns que tomam a frente do debate. Além, é claro, de rebaixar os contingentes de grande público (e isso é tão raro) a um balaio de leitores despreparados e incapazes de distinguir o que lhes serve e o que deveria lhes agradar, numa perspectiva que reduz a diversidade de formações individuais e entendimentos pessoais a uma régua que só mede extremos de grandes amplitudes, arremessando todo o restante de gradientes a uma tábula rasa de ignóbeis incapazes de interpretar.

Por outro lado, há de se verificar que, em seu cerne, a provocação da professora Aurora Bernardini aponta para um momento da Literatura em que, mediante a proliferação de meios editoriais, dado o barateamento do processo e da inteligência necessária à confecção de um livro, torna-se um imenso atrativo para a concretização do sonho de realização pessoal, senão o de plantar uma árvore e ter um filho, ao menos o de escrever um livro, como se dizia antigamente. Com isso, decerto, há uma diluição da qualidade mediante o acréscimo exponencial da desproporcional quantidade de obras ofertadas e, no processo, sim, a verificação de muita gente encarregada de contar histórias ou emparelhar rimas sem que isso atenda a outros pressupostos da lida literária, sobremaneira o arranjo da linguagem no trato artístico. E sim, muitos ficam aquém até mesmo da linguagem robotizada das inteligências artificiais, produzindo obras rasas, além, é claro, do perigo dos vanguardistas desavisados que, ao desconhecerem a tradição, recriam a roda em enredos puídos e os apresentam em textos de articulação duvidosa.

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Ao escolher nomes como o do querido Itamar Vieira Júnior para concretizar seu argumento, talvez ela tenha acertado um pouco ao mirar a desproporção mercadológica que impulsiona milhões de vendas a uma só obra, seja qual for, sendo que há tantas outras de similar valor artístico que não alcançam a casa de uma centena de exemplares vendidos. É a velha questão do ícone escolhido e acolhido pelo gosto popular e, neste caso, popularidade não significa falta de capacidade literária. Erra, portanto, ao querer fazer de obras de expressão, como Torto Arado, por exemplo, ou outras de autoria de Annie Ernaux e Elena Ferrante, arremedos de clássicos que balizam o cânone acadêmico.

Ainda há que se considerar que diferente de outros que já passaram por isso, como talvez  Paulo Coelho, a produção deste três autores apresenta obras que permitem diversas leituras, diferentes entre si, com diferentes graus de entendimento, o que, em si, já é indício da boa Literatura e, no três casos citados, há sim elementos, alguns em sobejo, concernentes à forma concorrendo com o conteúdo para expressão artística como se espera segundo qualquer perspectiva, incluindo as mais elitistas. 

Há sim muita coisa sendo lançada que deveria passar por depurações, sobretudo formais, antes de desejar o laurel literário, mas, com certeza, não é o caso dos autores alvo. A munição poderia ter sido melhor gasta se a professora Aurora mirasse não estes ou outros autores, mas os processos mercadológicos que despejam a tal Literatura de baixa qualidade na lista dos lançamentos que acabam por diluir a expressão artística da produção literária contemporânea. Mesmo isso, no entanto, que compete também à crítica, deve ser depurado com as inequívocas razões do tempo que hão de elencar aquelas obras e autores que deverão estar nas ditas altas prateleiras figurando entre os clássicos destacados do que acabará destinado à reciclagem do papel empregado para imprimi-lo”.

De tudo que li e ouvi sobre as considerações da professora Aurora Bernardini, independente do posicionamento de cada um de nós, cabe reconhecermos a urgência de uma reformulação no “sistema literário”, nos juris dos concursos literários, nas programações das feiras literárias, na formação dos professores e críticos, na melhora das competências leitora e escrita, na abertura e no funcionamento de bibliotecas públicas, no acesso a livros, no retorno de jornais literários de qualidade, no domínio de gêneros literários diversos... Dessa forma, se formarmos um bom leitor, emanará um ESCRITOR. Seu texto terá CONTEÚDO E FORMA. E, assim, o nascer de textos literários e o reconhecimento de autores de boa qualidade. DIGA NÃO AO CANCELAMENTO CULTURAL!!!  

“O declínio da literatura indica o declínio de uma nação” - Johann Goethe

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JAIMEHá 6 meses BSB/DFParabéns pela rica explanação.
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