
Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes.
(Abaixo, as fontes de pesquisa). Ilustração: Ginai/MHL
Na última crônica escrita pela imortal APB/MA Linda Barros para a Plataforma Nacional do Facetubes, uma discussão extracampo começou a rolar nos grupos literários com muita intensidade. A pauta: quais as influências negativas da “Literatura Agressiva”?
Logo a equipe da Plataforma caiu em campo e, juntamente com a Editoria de Pesquisa e Extensão começou a descobrir detalhes que acabaram por se transformar neste texto, numa clara alusão de que, quando a ficção mira o abismo, o leitor, sobretudo o vulnerável, pode dar um passo além. (Ou para o além....).
Um leitor, nos comentários à matéria da professora e atriz Linda Barros, levantou o clássico “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, de Goethe (1774), que acendeu o fogo do debate sobre o contágio comportamental. Esse foi o mote para iniciar esta análise; mesmo porque, a expressão “efeito Werther” nasceu daí.
Então, relatos históricos e análises contemporâneas associaram a recepção desse romance de Goethe às ondas de suicídio por imitação, ainda que a dimensão estatística do fenômeno não tenha sido totalmente aceita. Mas, o consenso atual em saúde pública é que narrativas romantizadas negativas podem atuar como gatilho em públicos suscetíveis, reforçando a obrigação ética do tratamento responsável do tema.
Aliás, que fique bem claro que, quando se fala em “literatura agressiva”, não se está falando de censura, mas de contextos e efeitos. Livros são máquinas de linguagem: movem ideias, paixões, identidades. Isso inclui obras que foram vistas como socialmente destrutivas. “Mein Kampf”, de Adolf Hitler, difundiu o programa ideológico do nazismo; o antissemitismo de Estado, racismo biopolítico e expansionismo; e vendeu milhões de exemplares, tornando-se um eixo de propaganda que tentou "normalizar" (jamais!) a perseguição e o genocídio. A cadeia causal envolve política, economia e mídia, mas o livro funcionou, para alguns, como manual de crenças e justificativas.
Outro caso emblemático de repercussão negativa (contra o autor, cuja liberdade de escrever era visível) é “The Satanic Verses”, de Salman Rushdie (1988). A obra detonou protestos, por aprte dos contrários, queima de livros, proibições e, sobretudo, uma fatia de morte emitida por Khomeini, com atentados e assassinatos de tradutores e um ataque violento ao autor. Uma visão meio deturpada de uma narrativa de ficção que, na visdão de alguns, atravessou linhas de fé, nacionalidade e política ao ponto de produzir violência real, sem que isso desabilite a importância da obra literária, nem autorize a barbárie da censura.
Por outro lado, acompanhando o termo “maldito” está a linhagem francesa dos ‘poètes maudits’. Paul Verlaine cunhou e cristalizou a categoria em 1884 ao escrever “Les Poètes Maudits”, celebrando escritores cuja vida e obra colidiram com normas morais e estéticas. A noção passou a identificar destinos “acursados”, ou seja, um lado marginal de experimentação extrema e choque deliberado com a moral vigente.
Com base nisso, quem não conhece e ‘ama’ Charles Baudelaire, o “maldito” mais canônico? “As Flores do Mal”, (1857), levou o poeta ao banco dos réus por “ofensa à moral pública”, com seis poemas proibidos por décadas.
Sua lírica de erotismo, spleen. Aqui, um parêntese para explicar mais ou menos qual a relação entre essa palavra (spleen), e Charles Baudeleire:
"(...) Tédio existencial: Um profundo sentimento de aborrecimento e falta de sentido na vida.
Angústia e desespero: O medo de uma felicidade inexistente e a sensação de desamparo.
Isolamento: Um sentimento de desconexão e solidão no mundo.
Conflito moderno: O spleen é uma resposta à modernidade, à industrialização e à rápida transformação das cidades, que tornam o homem um "escombro humano" diante do avanço do progresso, segundo o poeta. (...)". Wikipedia.
Pois bem. A beleza envenenada de Charles Baudelaire reconfigurou o imaginário moderno, com o processo judicial sendo a prova histórica do ônus de como a literatura pode ser tratada como crime quando fere sensibilidades dominantes.
Já Arthur Rimbaud, o enfant terrible, levou a agressividade estética ao limite em “Uma Estação no Inferno”: corrosão do eu, profanação de símbolos, iluminação pelo excesso. A violência é simbólica, mas sua recepção inaugurou linhagens inteiras (do simbolismo ao surrealismo) e consolidou a imagem do poeta que atravessa o proibido como método.
Mais radical, o Comte de Lautréamont (Isidore Ducasse) escreveu “Os Cantos de Maldoror” (1868–69), um bestiário de blasfêmia, erotismo violento e misantropia que escandalizou o século XIX e virou escritura sagrada dos surrealistas no XX. A sua “obra maldita” encena a fascinação pelo mal como matéria estética, e o culto posterior comprova como o impacto perturbador pode se converter em capital literário.
Destarte, esses “malditos” não incentivaram crimes; afrontaram convenções. Ainda assim, a história mostra que textos podem catalisar condutas: do Werther ‘efeitos’ das leituras paranoicas que alimentam violência religiosa ou racista. Para o editor da Plataforma Nacional do Facetubes, ouvido sobre o tema, disse: “... a diferença entre arte de choque e a literatura letal, não está no volume do escândalo, mas na intenção, no conteúdo e no imbróglio que a obra mobiliza”. E continuou:
“Como editor sênior da Plataforma Nacional do Facetubes, defendo uma linha clara: proteger a liberdade de criação e, ao mesmo tempo, reconhecer evidências de contágio nocivo. Diretrizes de cobertura responsável (evitar glamourização, informar portas de ajuda, contextualizar riscos) reduzem danos, ou seja, o chamado “efeito Papageno”, que mostra que narrativas de superação podem funcionar como antídoto a impulsos autodestrutivos”, complementa.
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Fontes:
A matéria de LINDA BARROS que gerou a pauta está in:
https://www.facetubes.com.br/noticia/6887/linda-barros-qqual-o-real-sentido-da-literatura-hoje-q
The Lancet Psychiatry (Werther effect) The Lancet; PubMed/University of Vienna (evidências históricas e limites do “surto” Werther) PubMed+1; David Phillips, 1974 (contágio após notícias de suicídio) jstor.org; Britannica (conceito de poète maudit) Encyclopedia Britannica; Verlaine, “Les Poètes Maudits” (obras e escopo) poetryintranslation.com; Yale Modernism Lab e PEN America (censura a Baudelaire) Yale University+1; Poetry Foundation e EBSCO (Rimbaud e “Uma Estação no Inferno”) The Poetry Foundation+1; “Les Chants de Maldoror” e recepção surrealista (biografias e estudos) Wikipedia+1; US Holocaust Memorial Museum (impacto de “Mein Kampf”) Enciclopédia do Holocausto; Wilson Center e The Guardian (fatwa e violência em torno de “The Satanic Verses”) Wilson Center+2The Guardian+2.
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