
RUY PALHANO.
A saudade é, antes de tudo, uma condição essencialmente humana. É um dos mais importantes e significativos dispositivos endógeno de neroadaptação, e não como muitos pensam apenas de um sentimento nostálgico ou melancólico ocasionado pela ausência de algo ou alguém. Este dispositivo nos auxilia a lidar com a separação — seja pela morte, pela distância, ou pelas rupturas afetivas que marcam a experiência humana.
A saudade, como um sentimento é imprescindível à nossa condição de seres humanos, é como um elo vivido de forma consistente e invisível entre o passado e o presente, conferindo a nossa existencialidade continuidade emocional e afetiva àquilo que nos foi caro, significativo e importante e que ainda amamos, mesmo na ausência.
Do ponto de vista antropológico, a saudade revela nossa significância e nossa incompletude. Somos seres lançados no tempo, como bem nos ensinou Heidegger, “e a consciência dessa transitoriedade faz emergir a saudade como forma de reter, simbolicamente, aquilo que escapa pela lógica inexorável do tempo”.
Nesse sentido, ela não é um sentimento de fraqueza ou fragilidade, mas um sentimento potente e vigoroso da alma: ela nos permite lembrar com afeto, reconstituir com ternura e, sobretudo, manter vivos dentro de nós aqueles que partiram deixando um vazio profundo nos momentos que já não voltam mais.
Lamentavelmente, percebe-se, que a modernidade vem progressivamente esvaziando esse dispositivo existencial. O modo como os vínculos humanos estão se estabelecendo na contemporaneidade — marcados pela instantaneidade, pela efemeridade e pela superficialidade — tem contribuído para a rarefação da experiência da saudade.
Em sociedades líquidas, como descreveu Zygmunt Bauman, os relacionamentos escorrem pelas mãos. Não há tempo para o enraizamento, para a aproximação, para a permanência e para o cultivo do afeto profundo. E onde não há profundidade, não pode haver saudade. Há, no máximo, uma lembrança nostálgica, apressada, descartável, e muitas vezes artificial que rapidamente se esvai.
A saudade genuína, por outro lado, é fruto da profundeza e da densidade das relações humanas. Ela brota do envolvimento, do apego significativo, da presença intensa que, uma vez interrompida, deixa marcas profundas e duradouras. O filósofo brasileiro Rubem Alves dizia que “a saudade é a nossa alma dizendo para onde ela quer voltar”.
Trata-se, pois, de um movimento de retorno simbólico ao que passou, uma tentativa de reconciliação com aquilo que nos fundou afetivamente. Perder a capacidade de sentir saudade é perder parte do que nos constitui como sujeitos capazes de amar, sofrer, recordar e elaborar perdas.
A psicanálise também oferece uma leitura importante desse fenômeno. Freud, ao discutir o luto, já apontava que a elaboração da perda envolve um trabalho psíquico de rememoração, identificação e deslocamento. A saudade, nesse processo, atua como caminho para a sublimação: ela permite dá um outro significado a ausência, transformando-a em memória viva, em herança afetiva.
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