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Dr. Ruy Palhano: “A traição, aspectos comportamentais e psicopatológicos”

Dr. Ruy Palhano: é convidado da Plataforma Nacional do Facetubes

28/02/2026 às 15h57 Atualizada em 06/03/2026 às 16h17
Por: Mhario Lincoln Fonte: Dr. Ruy Palhano
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Dr. Ruy Palhano
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DR. RUY PALHANO
A traição é universalmente percebida como um ato detestável, execrável e condenável. Nas relações humanas, quando ocorre, tende a ser prontamente rejeitada, pois atinge um dos pilares mais sensíveis da convivência, a confiança. Em condições normais, ninguém aceita ser traído, seja no campo afetivo, social, político ou profissional, porque a traição provoca dor psíquica intensa e repercussões profundas nas relações e nas vidas das pessoas.
Etimologicamente, a palavra traição deriva do latim traditio, oriundo de tradere, que significa entregar ou passar adiante. Desde sua origem, o termo carrega a ideia de entrega indevida ou ruptura de compromisso. De forma objetiva, a traição pode ser definida como a quebra de um vínculo de confiança previamente estabelecido entre duas ou mais partes. 
Na realidade, trata-se de um ato consciente de violação da lealdade esperada, por ação ou omissão, que produz dano emocional, moral ou simbólico profundos à pessoa traída. Seu núcleo estrutural, central é a ruptura da confiança, fundamento essencial das relações humanas.
Historicamente, as formas de traição acompanharam os valores centrais de cada época. Na Antiguidade, destacavam-se a traição política ou militar, como a de Brutus contra César ou a de Judas contra Cristo, a traição religiosa e a traição à pátria. Na contemporaneidade, embora esses modelos persistam, ganham destaque a traição amorosa, a traição de amizade, a traição ideológica ou institucional e a traição no ambiente profissional. Em todas elas, o que mais fere não é apenas o ato em si, mas a violação do pacto invisível que sustenta a convivência humana.
Do ponto de vista antropológico e fenomenológico, a traição atravessa múltiplos contextos culturais, sociais e psicológicos. É tema recorrente em mitologias, narrativas religiosas e histórias coletivas, frequentemente associada, como dissemos anteriormente, à ruptura de alianças consideradas sagradas. Em certas leituras simbólicas, a traição não apenas rompe a ordem estabelecida, mas também revela tensões profundas da condição humana.
A traição pode manifestar-se de diversas formas. A traição emocional envolve infidelidade afetiva ou deslealdade sentimental, pode ocorrer desde uma relação de amizade a um casamento. A traição física refere-se à infidelidade sexual. A traição profissional ocorre quando há quebra de confidencialidade ou deslealdade no trabalho. 
A traição política, comuns nos dias atuais, manifesta-se por meio de corrupção ou abandono de ideais. Já a traição pessoal corresponde à quebra de confiança entre amigos ou familiares. Apesar da diversidade, todas compartilham a mesma estrutura, a violação da confiança e da palavra empenhada.
Entre as características estruturais da traição, a quebra de confiança ocupa posição central, pois desencadeia sofrimento intenso e profundo na pessoa traída. A deslealdade, o engano, a decepção e a infidelidade são elementos frequentemente associados às atitudes traiçoeiras e produzem consequências importantes, como dor emocional profunda, abalo da autoestima, perda da autoconfiança e, em alguns casos, repercussões legais.
Sob a perspectiva da psicopatologia da traição, interessa compreender os fatores psicológicos e comportamentais que podem predispor indivíduos a condutas desleais. Essa análise deve considerar dimensões individuais e socioculturais. Entre os fatores individuais, destacam-se padrões persistentes de manipulação, ausência de empatia e desconsideração pelas consequências dos próprios atos. Fatos estes, frequentemente associados a traços de personalidade antissocial ou narcisista. Nessas condições, a traição pode ser instrumentalizada como estratégia de vantagem pessoal.
O egocentrismo e a busca de gratificação imediata também constituem fatores relevantes no cometimento das traições. Indivíduos com baixa tolerância à frustração e elevada impulsividade mostram maior vulnerabilidade a atitudes traiçoeiras. 
Outro aspecto importantíssimo é que a insegurança emocional representa outro elemento importante, pois algumas pessoas utilizam a traição como estratégia defensiva para manter múltiplas fontes de validação ou apoio além de outros interesses nestes atos. O egocentrismo, tão comuns atualmente também funcionam como elementos importantes no cometimento de traições.
Mecanismos psicológicos como negação e projeção, mecanismos de defesa psicológicos, largamente utilizadas nas relações humanas podem favorecer a racionalização da traição, permitindo ao indivíduo reinterpretar suas ações como moralmente aceitáveis. Em certos contextos, a busca por poder, controle ou ascensão também pode motivar atitudes de deslealdade, especialmente em ambientes altamente competitivos.
Os fatores socioculturais igualmente desempenham papel relevante. A cultura pode tanto estigmatizar quanto relativizar ou ainda incentivar a prática da traição. Ambientes marcados por elevada competitividade, pressão constantes por resultados ou normalização do oportunismo tendem a aumentar a probabilidade de comportamentos desleais. Assim, a traição não é apenas fenômeno individual, mas também produto de contextos que a favorecem ou inibem.
Quanto às consequências psicológicas para o traidor, estas variam. Em indivíduos com preservação empática, podem surgir culpa, remorso, arrependimento e sofrimento psíquico em razão de sua atitude. Em contrapartida, pessoas com empatia reduzida, frias ou insensíveis ou portadoras de mecanismos defensivos rígidos podem interpretar a traição como comportamento justificável ou estratégico, sem sofrimento emocional evidente, culpa, remorso ou arrependimentos.
 Na era contemporânea, a traição reflete a crescente complexidade das relações humanas em um mundo marcado por transformações culturais e comportamentais profundas. Ela pode ocorrer tanto no âmbito íntimo quanto no institucional, assumindo significados distintos conforme o contexto. Apesar dessas variações, permanece constante um elemento essencial, a traição representa sempre a ruptura do pacto de confiança que sustenta a convivência humana.
Compreendê-la exige uma abordagem integrada que articule dimensões psicológicas, comportamentais, sociais e culturais, permitindo apreender sua verdadeira profundidade e seus efeitos duradouros e deletérios sobre a experiência humana. 
Portanto, diante da permanente possibilidade da traição nas relações humanas, habitualmente manifestadas nas condições da sociedade atual, impõe-se cultivar vigilância ética, clareza nos pactos estabelecidos e maturidade emocional nas interações e em compromissos assumidos. Relações sólidas dependem de transparência, responsabilidade afetiva e coerência entre palavra e ação, especialmente, inspiradas no respeito absoluto entre uns com os outros. 

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Um dos mais aplaudidos médicos psiquiatras do Brasil, nascido no Maranhão.
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