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Dr. Ruy Palhano: “O desaparecimento silencioso das virtudes humanas ”

Dr. Ruy Palhano é convidado da Plataforma Nacional do Facetubes

26/10/2025 11h48 Atualizada há 10 meses atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Dr. Ruy Palhano
Dr. Ruy Palhano é convidado da Plataforma Nacional do Facetubes
Dr. Ruy Palhano é convidado da Plataforma Nacional do Facetubes

DR. RUY PALHANO

 

Há palavras que, durante séculos, sustentaram a civilização humana: honra, decência, piedade, gratidão, respeito, solidariedade, compaixão, ética, moral, amor, humanismo. Eram mais que vocábulos — eram faróis de sentido, coordenadas que orientavam a convivência social e o modo de ser do homem no mundo. Hoje, perderam o brilho, chega-se a ter certa vergonha em pronunciá-las. Tornaram-se, peças de museu do vocabulário moral, muito embora ainda carreguem um peso no processo civilizatório.

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O filósofo francês Edgar Morin advertia que “o progresso técnico não pode ser considerado progresso humano” e que, ao se deslumbrar com a eficiência, a civilização moderna esqueceu-se da solidariedade, da fraternidade e da compaixão. Em nome da velocidade, do lucro e da competição, sacrificamos os valores que garantiam coesão e sentido à vida coletiva. A solidariedade, antes laço invisível que unia as pessoas em torno de causas comuns, foi substituída pela indiferença programada e pela lógica do “cada um por si”.

A moral e a ética, que um dia foram pilares da vida pública e privada, hoje se relativizam diante da conveniência. Tudo se tornou negociável e tem um preço— inclusive a consciência. Nietzsche, em Além do Bem e do Mal, já percebia esse fenômeno e o chamou de “transvaloração dos valores”: o processo pelo qual o homem moderno abandona os antigos ideais de bondade, fraternidade e verdade, substituindo-os por novos ídolos — poder, dinheiro e notoriedade. Vivemos, assim, uma época em que a moral deixou de ser bússola para tornar-se moeda.

A compaixão, virtude que Arthur Schopenhauer considerava “o fundamento da moralidade”, é agora vista como fraqueza pessoal. A empatia foi banalizada, o altruísmo perdeu espaço para o narcisismo, e o amor ao próximo se converteu em mera performance social nas redes. O sujeito contemporâneo vive cercado de conexões digitais, mas carece de vínculos reais. Vive exposto, mas é profundamente invisível. A dor do outro deixou de comover, porque a compaixão exige tempo, e o tempo tornou-se o bem mais escasso da contemporaneidade.

O humanismo, que floresceu no Renascimento como celebração da dignidade e da decência humana, encontra-se em ruínas. Giovanni Pico della Mirandola (1463–1494) filósofo e humanista italiano do Renascimento, considerado uma das figuras mais brilhantes e precoces de sua época, em seu Discurso sobre a Dignidade do Homem, afirmava que “nada é mais admirável do que o homem”, criatura capaz de moldar a si mesma.

O homem de hoje, porém, já não se reconhece como centro da criação, mas tampouco aprendeu a se integrar à totalidade da vida. Vive entre o delírio de onipotência — de quem acredita controlar tudo — e a mais absoluta solidão ontológica — de quem não sabe mais quem é. Como dizia Erich Fromm em O Medo à Liberdade, “o homem moderno transformou-se em coisa entre coisas”.

A ética, que antes orientava o comportamento pelo dever e pela responsabilidade, tornou-se um adereço discursivo, usada conforme o interesse. A sociedade digital é o palco da aparência ética — onde todos fingem virtude, mas poucos a praticam. Emmanuel Lévinas, em Totalidade e Infinito, lembrava que “a ética nasce do rosto do outro”, ou seja, da responsabilidade que sentimos diante da alteridade. No entanto, vivemos tempos em que o outro é percebido não como próximo, mas como obstáculo.

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A moralidade, por sua vez, perdeu a base comunitária que a sustentava. Zygmunt Bauman, ao descrever a modernidade líquida, observou que “nada é feito para durar” e que os vínculos humanos se tornaram tão frágeis quanto as conexões de internet. Nessa fluidez, a fidelidade, a honestidade e o respeito se tornaram virtudes exóticas, quase subversivas. Numa era em que tudo é efêmero, inclusive os princípios, a integridade passa a ser um ato de resistência silenciosa.

Em vez de humanismo, proliferam discursos de auto engrandecimento. Em vez de compaixão, um pragmatismo frio. Em vez de solidariedade, uma indiferença anestésica. O “eu” hipertrofiado substituiu o “nós”. Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço, observa que o sujeito contemporâneo se tornou “um projeto de desempenho de si mesmo”, um ser esgotado e incapaz de doar-se, porque o outro desapareceu do horizonte da experiência. “O excesso de positividade”, diz ele, “aniquila o outro”.

Esse desaparecimento das virtudes não se dá de modo abrupto, mas silencioso. Elas se apagam não porque foram proibidas, mas porque deixaram de ser praticadas. O cotidiano frenético, o consumo incessante e a lógica da competição corroem as pequenas delicadezas que antes formavam o tecido ético da vida. Deixar o outro passar, escutar sem interesse, preocupar-se sem ganho — são gestos que perderam valor no mercado das relações. Emmanuel Mounier dizia que “a pessoa só existe através da generosidade”.

Paradoxalmente, quanto mais a sociedade se conecta, mais se isola. A tecnologia, que prometia unir, fragmenta. O tempo, que deveria libertar, escraviza. E os valores, que deveriam iluminar, se tornam sombras longínquas. Martin Heidegger advertia, em A Questão da Técnica, que o perigo maior não é a técnica em si, mas a perda do sentido do ser que ela provoca. O homem, reduzido a engrenagem, esquece-se de ser sujeito e se converte em instrumento.

Recolocar o ser humano no centro das decisões políticas, econômicas e culturais. Resgatar a pedagogia da empatia, a ética do cuidado, a estética da generosidade. Recuperar o sentimento de pertencimento à comunidade humana, lembrando, como afirmou Albert Camus, que “a verdadeira generosidade para com o futuro consiste em dar tudo ao presente”.

É necessário que voltemos a pronunciar — e viver — palavras como solidariedade, ética, compaixão e amor, solidariedade, compaixão. Não como slogans, mas como compromissos de existência. Pois, como dizia Albert Schweitzer, “a ética é a reverência pela vida”, e sem essa reverência, a civilização torna-se apenas uma maquinaria eficiente de desumanização.

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alcina maria silva azevedoHá 10 meses atrásCampinas -SPÉ muito triste estar vendo os reais valores desaparecerem e, sendo trocados por falsos e horríveis valores. Mudanças que só vieram trazer tristeza e solidão. A humanidade de hoje, vive um EU SOZINHO.
Raimunda Pinheiro de Souza FrazãoHá 10 meses atrásSão José de Ribamar Parabéns Dr. Ruy Palhano pelo excelente artigo!
Cel. Carlos Furtado Há 10 meses atrásSão Luís Como é bom sorver da capacidade intelectual deste fantástico escritor. O texto de Dr. Ruy Palhano é uma lúcida reflexão sobre a crise moral que permeia nossa sociedade hodierna, escrito em linguagem elegante e assentado sobre uma sólida base filosófica. Como seria maravilhoso se as pessoas pudessem restaurar o verdadeiro sentido da civilização, reencontrando nas virtudes humanas o caminho da empatia, da ética e da compaixão.
Renata Barcellos Há 10 meses atrásRio de Janeiro Infelizmente, realidade Quem está em sala de aula, vai ao comércio... está percebendo a falta de tudo das pessoas Lamentável
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