Segunda, 27 de Julho de 2026 11:24
(xx) xxxxx-xxxx
Brasil Ruy Palhano

Mais um texto do Dr. Ruy Palhano: “Desculpe, foi sem querer, me perdoe”

Ruy Palhano é convidado da Plataforma Nacional do Facetubes

02/11/2025 19h56 Atualizada há 9 meses atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Ruy Palhano
Dr. Ruy Palhano.
Dr. Ruy Palhano.

Dr. Ruy Palhano

“Desculpe, foi sem querer, me perdoe”

 

Continua após a publicidade

Houve um tempo em que as frases acima tinham o poder de restabelecer laços humanos afetados ou mesmo rompidos. Bastava um pedido sincero, um olhar constrangido, uma palavra tímida e verdadeira, para que o outro percebesse a intenção de reparar o erro e suavizar o impacto do que fora dito ou feito. Hoje, porém, essas expressões parecem ter perdido o valor simbólico que sustentava a reconciliação. Tornaram-se relíquias de um tempo em que a linguagem ainda carregava humildade.

O ato de pedir desculpas, historicamente, está enraizado na própria noção de convivência humana. Em sociedades antigas, o pedido de perdão não era apenas um gesto moral, mas também um ritual de reintegração comunitária. Entre gregos e romanos, a reparação pública e a confissão possuíam valor social. Na tradição cristã medieval, o perdão era o caminho da purificação da alma. Já na modernidade, a ética laica herdou esse princípio e o traduziu em valores de civilidade e empatia.

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman, ao descrever o fenômeno da modernidade líquida, destacou que vivemos em um tempo de laços frágeis, identidades fluidas e vínculos descartáveis. Nesse contexto, o pedido de desculpas perdeu densidade, porque a própria ideia de compromisso se tornou efêmera. O indivíduo pós-moderno evita reconhecer falhas não por maldade, mas por medo de revelar vulnerabilidade. A sociedade do desempenho e da aparência exige perfeição e força — e, portanto, o arrependimento passou a soar como sinal de fraqueza ou imperfeição.

Nas redes sociais, esse quadro se acentua. O “me perdoe” se transforma em ato performático: um pedido feito não ao outro, mas ao público, esperando aprovação, curtidas e validação simbólica. O filósofo francês Gilles Lipovetsky, em A Era do Vazio, já apontava que o mundo contemporâneo vive sob o império do narcisismo, onde as emoções se tornaram superficiais e a sinceridade foi substituída pela aparência. Assim, até o arrependimento virou um espetáculo de autoimagem.

Há, portanto, um anacronismo moral em curso: palavras que pertencem a uma linguagem da alma — “desculpe”, “foi sem querer”, “me perdoe” — soam estranhas em uma sociedade dominada pela velocidade, pela pressa e pela insensibilidade. Como observa Edgar Morin em Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro, perdemos a capacidade de compreender o outro na sua complexidade, reduzindo a convivência à lógica da utilidade.

Essa erosão da empatia não é apenas uma consequência cultural, mas um sintoma civilizatório. O filósofo Charles Taylor, em As Fontes do Self, lembra que a modernidade redefiniu a identidade humana em torno do indivíduo autônomo e autorreferente, desligado de uma comunidade moral compartilhada.  Nesse novo paradigma, o erro do outro é visto como afronta pessoal, e o perdão como capitulação. A ética da convivência cedeu lugar à ética da autoafirmação.

Continua após a publicidade

A psicologia contemporânea, por sua vez, observa o preço emocional dessa transformação. Erich Fromm, em A Arte de Amar, já advertia que o amor e a empatia não sobrevivem em ambientes de competição e egocentrismo. Quando o sujeito vive voltado apenas para a própria imagem, perde a sensibilidade de perceber o sofrimento que causa. O “foi sem querer” já não toca o outro porque o outro, endurecido por desconfianças e ressentimentos, tornou-se incapaz de acreditar na boa-fé alheia.

Do ponto de vista antropológico, as expressões de perdão sempre cumpriram uma função ritual: eram pontes simbólicas para restabelecer a harmonia social afetada. Ao abolir essas pontes, a sociedade moderna mergulhou em um vazio relacional. Como lembra Sigmund Freud em O Mal-Estar na Civilização, a vida em comunidade exige o sacrifício de parte das pulsões individuais em nome da coexistência. Quando esse pacto simbólico se rompe, a agressividade se volta contra o outro e, por fim, contra si mesmo.

“Desculpe, foi sem querer, me perdoe”

A filósofa Hannah Arendt, em A Condição Humana, advertia que o perdão é o único gesto capaz de interromper o ciclo de ações e reações que aprisiona os homens em suas próprias faltas. Sem perdão, dizia ela, a história se torna uma repetição de ressentimentos e vinganças. Quando o “me perdoe” deixa de ecoar, o tempo ético se quebra: o passado não pode ser reparado, o presente se torna hostil e o futuro, uma sucessão de distâncias e suspeitas.

A cultura contemporânea, ao valorizar a culpa, a exposição e a autopromoção, esvaziou o campo da compreensão. O sujeito moderno é ensinado a justificar-se, não a reconhecer-se. O erro tornou-se crime; o arrependimento, um protocolo. Como resultado, a palavra perdeu seu poder de cura. Em um mundo de discursos inflamados e emoções aceleradas, o perdão deixou de ser gesto de reconciliação para se tornar expressão de fraqueza.

Historicamente, expressões de arrependimento acompanham a humanidade desde os primeiros textos religiosos e literários. Em narrativas bíblicas e clássicas, o pedido de perdão era parte fundamental da vida ética. No entanto, em menos de um século, desenvolvemos uma espécie de surdez moral. A palavra “desculpa” já não consola nem reconcilia: tornou-se ruído na pressa e no individualismo que dominam o século.

Vivemos, portanto, em uma era de anestesia ética. As pessoas pedem perdão sem sentir e ouvem pedidos de perdão sem escutar. Tudo se tornou automático, impessoal, digital. A civilização da velocidade feriu de morte o espaço simbólico da reconciliação. E o simples “foi sem querer” tornou-se peça de museu — um vestígio da linguagem de uma humanidade que sabia, ao menos, reconhecer a própria falha.

Continua após a publicidade

Talvez um dos maiores desafios contemporâneos não seja apenas resgatar essas expressões, mas restaurar o espírito que as sustentavam. Pedir desculpas exige coragem, respeito, sensibilidade e humildade — virtudes que a cultura da autopromoção e da performance rejeita sistematicamente. Reaprender a dizer tais expressões é, portanto, um ato de resistência e de humanidade. E, se um dia essas palavras voltarem a ressoar sinceramente nos ouvidos e nos corações, talvez isso signifique que a civilização reencontrou um de seus gestos mais nobres: a capacidade de se reconhecer no outro.

 

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Joizacawpy Há 9 meses atrásSão Luís "Quando o sujeito vive voltado apenas para a própria imagem, perde a sensibilidade de perceber o sofrimento que causa." Esse trecho do texto que aqui destaco mostra com clareza o que as palavras do doutor Rui Palhando transmitem sobre os tempos que vivemos, uma verdadeira legião de pessoas voltadas apenas pra si.
Mostrar mais comentários
Curitiba, PR
Atualizado às 09h01
19°
Tempo limpo

Mín. 12° Máx. 23°

20° Sensação
1.25 km/h Vento
98% Umidade do ar
0% (0mm) Chance de chuva
Amanhã (28/07)

Mín. 13° Máx. 26°

Tempo limpo
Quarta (29/07)

Mín. 16° Máx. 27°

Tempo limpo
Ele1 - Criar site de notícias