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“Enquanto houver sorriso”, por Maria do Rocio Vaz, convidada da Academia Poética Brasileira

“E a história da menina eternamente apaixonada? Talvez fosse mais uma novela de corações partidos como cacos de pedra branca.”

31/12/2025 às 21h38
Por: Mhario Lincoln Fonte: Maria do Rocio Vaz (autora do texto)
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Maria do Rocio Vaz.
Maria do Rocio Vaz.

Maria do Rocio Vaz

Em frente à Mansão das Rosas, do alto do terraço, no colo da avó, a menina deixava o olhar repousar sobre o Colégio. Sequer imaginava, mas o amor já estava lá.

Ela, cabelos cacheados nas pontas e olhos de mormaço, meio perdidos no rosto, fora batizada duas vezes na inocência que, um dia, ainda a condenaria.

Esperava a mãe, "que já estava no Passeio Público, quase chegando" - diziam para acalmá-la. Talvez o garoto da sala de aula ouvisse aquele choro sentido. O mundo dela era uma bola gigante e colorida. O dele, provavelmente, passava na rua dela.

O que ele registrava no caderno? Quando a pequena rabiscava as iniciais do próprio nome e desenhava casinhas onde seria absolutamente feliz, o menino já escrevia futuros que ela ainda não sabia decifrar. Enquanto a garotinha dava mamadeira às bonecas, talvez ele sentisse, à distância, o afeto que não conhece fronteiras, nem destinos impostos. Pequenas orações de um anjo, com fé do tamanho de um grão de mostarda, abençoavam, sem saber, o coração corajoso dele. 

Tão próximos... e tão distantes.
Ele não a esperou. Ou foi ela quem chegou tarde, quando o príncipe já era rei. Alguém lhes pregou uma peça. Mas afinal, não são os encontros sem hora marcada, que ensinam a amar?

Dias atrás, na mesma rua, vi funcionários da Prefeitura recolocando os petits pavés. Um trabalho manual e artístico. Parei para bisbilhotar. O calçamento devolveria estabilidade e a estética de um quebra-cabeça perfeito - como a vida não é. Manteve-se a paisagem urbana com as pedras originais. O chão por onde andei descalça permanece lá: novo e antigo ao mesmo tempo.

E a história da menina eternamente apaixonada? Talvez fosse mais uma novela de corações partidos como cacos de pedra branca. Ou, em algum lugar do passado, um caminho construído a dois, por onde andariam de mãos dadas, seguros e íntimos, sem medo do desencontro.

Por fim, se o amor é feito de encaixes imperfeitos, é no tempo e no espaço que se concretiza como fundamento da nossa passagem por aqui. E permanece, seja por cinco minutos, seja enquanto houver sorriso.



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JaimeHá 1 semana BSB/DFBelo texto e lembrar, nos faz reviver. Aplausos!!!
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