
Editoria-Geral da Plataforma Nacional do Facetubes
Há concertos que começam antes da primeira nota. Começam no silêncio da igreja, na respiração do público, na arquitetura que espera o som e na memória acumulada de um instrumento. É nesse ambiente que Curitiba recebe, no dia 29 de maio, às 19h30, o concerto Mater Dei, do Barroco ao Romantismo, na Paróquia Santo Antônio de Orleans, com entrada gratuita.
Sob a direção do maestro e organista Ricardo Herrmann, a noite reunirá canto lírico e órgão de tubos em um programa voltado à tradição sacra e ao repertório clássico europeu. Participam os cantores Andressa Marques, Maria Herrmann, Paulo Barato e Suzana Morita, (simplesmente maravilhosos), em uma formação que valoriza a voz humana diante de um instrumento de presença rara no cotidiano musical brasileiro.
O centro sonoro da apresentação será o Órgão de Tubos Walcker da Paróquia Santo Antônio de Orleans, identificado na divulgação do concerto como instrumento histórico de 1904. A Arquidiocese de Curitiba registrou que o órgão alemão Walcker passou por restauração no projeto RITO, Resgate dos Instrumentos de Teclado de Outrora, em parceria entre UFPR, Instituto Federal Catarinense e a própria paróquia, com participação de professores, voluntários e alunos do curso de Luteria.
Esse dado empresta ao concerto uma dimensão maior que a de uma apresentação musical normal. Quando um órgão de tubos volta a respirar em sua plenitude, não se recupera apenas um equipamento. Recupera-se uma tradição de escuta. O som nasce do ar que atravessa os tubos, cresce no espaço da nave e devolve à música sacra sua força física, quase arquitetônica. É uma arte que não apenas se ouve. Também se sente no corpo.
Por isso, o repertório terá destaque para árias da Paixão Segundo São Mateus, de Johann Sebastian Bach, uma das obras centrais da música sacra barroca. Vale lembrar que a primeira apresentação verificada da obra ocorreu em 1727, na Thomaskirche, em Leipzig, e a define como a mais longa e elaborada composição sacra de Bach, ponto alto da música religiosa barroca.
Desta forma, trazer Bach para uma igreja histórica de Curitiba é mais do que uma escolha estética. É uma forma de recolocar a música em seu ambiente natural de transcendência, disciplina e emoção contida. A Paixão Segundo São Mateus não se apoia no efeito fácil. Sua grandeza está na construção, na tensão espiritual, no diálogo entre dor, fé e humanidade. Nas árias, a voz não canta apenas uma melodia. Ela carrega uma consciência.
A Paróquia Santo Antônio de Orleans também acrescenta peso simbólico à noite. A Prefeitura de Curitiba trata a igreja como edificação histórica do bairro Orleans, construída em 1879 por famílias de imigrantes poloneses e descendentes, e destaca seu papel na memória local. A própria história do templo reúne elementos de tradição comunitária, religiosidade e patrimônio, incluindo a memória dos sinos associados à passagem de Dom Pedro II pelo Paraná.
Nesse contexto, Mater Dei não se apresenta apenas como agenda cultural. É uma noite de preservação. A presença de Ricardo Herrmann ao órgão, "(...) ao lado de quatro cantores líricos fabulosos, organiza o encontro entre técnica, fé, memória e repertório. O concerto propõe uma escuta menos apressada, em oposição ao ruído cotidiano", como assevera o jornalista e poeta Mhario Lincoln que já assistiu a vários concertos desse grupo artístico.
Imperdível porque a música barroca pede atenção ao detalhe. O romantismo pede entrega. O órgão, por sua vez, exige respeito ao tempo do som. Porque, ainda, Curitiba tem tradição de espaços culturais fortes, mas nem sempre a cidade percebe o valor de seus patrimônios sonoros. Um órgão de tubos restaurado dentro de uma igreja histórica é um desses bens que não se mede apenas pela raridade. Mede-se pela capacidade de continuar servindo à comunidade, formando ouvintes e aproximando novas gerações da música clássica.
Anote o endereço: Paróquia Santo Antônio de Orleans, na Rua Ladislau Biernaski, 1, bairro Orleans, em Curitiba. A entrada será franca. Para quem acompanha a música como arte, fé ou patrimônio, a noite promete um encontro direto com aquilo que a grande tradição clássica ainda sabe oferecer quando encontra o espaço certo: silêncio, beleza, memória e permanência.
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