
Mhario Lincoln
Em “CORES”, Augusto Pellegrini transforma a memória amorosa num ateliê de retrospecto moral: só depois do desgaste do tempo é que a vida afetiva ganha contorno e critério, como se a consciência, tardia e lúcida, finalmente pudesse assinar a própria curadoria. Quando a voz do poema afirma que a mulher “foi amada em diferentes matizes”, não está apenas enumerando tonalidades, mas propondo uma filosofia do afeto como experiência sensível e cumulativa, em que cada relação deixa um rastro que é, ao mesmo tempo, físico e existencial.
A metáfora dos “pintores” que eu achei originalíssima, desloca a ideia de amor do campo das promessas para o campo das marcas, e faz disso uma ética: “cabendo a ela identificar quem foram os pintores”, porque o sentido final do que foi vivido não pertence a quem pinta, e sim a quem carrega a pintura; é ela quem decide o que foi ternura, o que foi passagem, o que foi ferida e o que foi permanência. (Obs: simplesmente genial).
O poema cresce quando assume o corpo como prova e arquivo, ao dizer que certos amores “deixaram as marcas coloridas na sua pele”, e então empurra essa matéria para além do visível, em direção ao núcleo metafísico do vínculo. É aí que surge o centro emocional do texto, a escolha de um absoluto dentro do relativo: “mas também em um rubro vivo”, esse vermelho que não desbota, antes se intensifica, como se o tempo, em vez de apagar, soprasse a brasa acesa em um fogareiro de saudades.
E quando o verso crava que houve um pintor especial “que tingiu não só a sua pele, mas também toda a sua alma”, a metáfora deixa de ser ornamento e vira tese: alguns encontros não são capítulos; são pigmento entranhado, tornam-se parte daquilo que somos.
Por isso, mesmo com “amores alaranjados” e “brancos como a pureza do lírio”, a conclusão é implacável na sua tristeza madura: “nada jamais suplantará aquele rubro vivo”. O golpe final, porém, não recai apenas sobre ela; recai sobre quem amou: esse rubro pode não ter dominado a vida dela, mas “marcou a vida do pintor”, como se o destino do amor, às vezes, fosse a assimetria — um vive como lembrança soberana, outro vive como cicatriz de criação.
Ler o poema de Augusto Pellegrini é se "lambuzar das cores da vida, virar no verde, um "hulk" apaixonado, ou no branco puro do lírio dos campos, igual saudade imortal.
O POEMA
CORES
(Augusto Pellegrini)
Depois de passados muitos anos
Quando uma mulher fizer a revisão da sua vida
Ela pode dizer com certeza
Que foi amada em diferentes matizes
Cabendo a ela identificar quem foram os pintores
Que deixaram as marcas coloridas na sua pele
Ela foi amada em azul-claro e em cor-de-rosa
Em ouro, prata, lilás, turquesa
Mas também em um rubro vivo
Que ficou mais rubro e mais vivo com o passar do tempo
Cabendo também a ela identificar quem foi esse pintor especial
Que tingiu não só a sua pele, mas também toda a sua alma
Mesmo que com os anos apareçam amores alaranjados
Levemente avermelhados ou até brancos como a pureza do lírio
Nada jamais suplantará aquele rubro vivo
Que pode não ter marcado de rubro a sua vida
Mas que, com certeza, marcou a vida do pintor
2011
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