
Por Vitória Duarte
Uff! Por onde começar ?
Vou fazer desse texto uma espécie de respiração boca a boca porque nesse mergulho que eu dei em Tudo é rio da Carla Madeira eu engoli muita água (principalmente a que me saiu dos olhos).
O primeiro afogamento veio com a seguinte citação:
“O amor tem nome, mas não é nada que a gente possa reconhecer só de olhar. A dor a gente sabe o que é, tem lugar e intensidades que cabem na ciência. A raiva, o medo, o ódio entorta a cara com um jeito provável de se manifestar. Mas e o amor? O que é senão um monte de gostar? Gostar de falar, gostar de tocar, gostar de cheirar, gostar de ouvir, gostar de olhar, gostar de se abandonar no outro. O amor não passa de um gostar de muitos verbos ao mesmo tempo.”
Esse foi o meu ponto de partida para começar a entender por que tudo é rio, mas principalmente por que o Amor é rio. Seja porque ele não se reconhece à primeira vista, seja porque não possui uma forma clara e por isso buscamos nossas próprias definições. Talvez seja justamente na literatura onde tentamos encontrar essas definições: uma maneira de dar forma para tudo o que nos escapa.
Na literatura de Carla Madeira, o amor não se encontra mais no círculo da abstração, mas na soma dos pequenos gestos do cotidiano como no falar, no tocar, no cheirar, no ouvir, no olhar... todas as coisas que fazemos entre um batimento e outro, entre um suspiro e outro. Em outras palavras: se abandonar no outro é derramar o nosso tempo nele, sabendo que não tem volta. Amar é deixar a nossa vida correr dentro do outro mas sem pressa e ignorando as dimensões desse espaço-corpo que às vezes tenta deter nossas águas de romperem as pedras.
Se o cotidiano evidencia o amor em Tudo é Rio, esse cotidiano não é banal, ele é simples e o simples, como escreveu Clarice Lispector, exige muito esforço. O amor é abstrato na sua simplicidade, mas é justamente nessa simplicidade que ele alcança sua forma mais sublime, mais profunda.
“O que mais existe no mundo são pessoas que nunca vão se conhecer. Nasceram em um lugar distante, e o acaso não fará com que se cruzem. Um desperdício. Muitos desses encontros destinados a não acontecer poderiam ter sido arrebatadores. Por afinidade, por atração que não se explica, por força das circunstâncias, por químicas ocultas, quem pode saber? Quanto amor se perde nessa falta de sincronia. Não é preciso ir longe, alguém pode passar pela esquerda enquanto olhamos distraídos para a direita. Por um triz o paralelo nos obriga ao desencontro eterno. É preciso uma coincidência qualquer para que o amor se instale. Existe um certo milagre nos encontros. Não é tolo dizer que o amor é sagrado.”
O segundo afogamento vem quando se percebe que mais além da simplicidade onde se encontra o amor, a autora nos permite olhá-lo com certa reverência mas não como uma certeza e sim como uma possibilidade rara, e por isso preciosa.
Sim, o amor pode se manifestar em verbos simples: tocar, olhar, ouvir, cheirar. Mas nem todo gesto carrega amor dentro. Se fosse assim, se ele surgisse toda vez que um corpo encontrasse outro, o amor perderia sua natureza misteriosa. Seria fácil. Seria comum. Seria banal.
E o amor, não. O amor é exceção. Ele habita o improvável. Pode vir de onde menos esperamos, nascer de um "quase", se mover como um rio por entre verbos e mesmo assim não se deixar capturar. Talvez seja por isso que, quando acontece, a gente sinta como se fosse milagre. E em todos os tempos: sagrado.
Por fim, um ponto onde realmente afundei nessa narrativa foi quando tentei entender a lógica das correntezas do que se entende como perdão. Na história de Dalva, Venâncio e Lucy (banhada por traumas e quase tragédia) percebe-se algo óbvio, mas frequentemente ignorado: o perdão humano não é leve. Esse perdão arranha. Rasga a alma. E, mesmo assim, se dá porque ele não é compreendido como um ponto final, mas como um lugar onde o amor e a dor coexistem. Um lugar de onde a gente olha para as ruinas do que um dia foi belo, e, mesmo assim, diz: eu fico. Essa atitude pode ser entendida como falta de amor e respeito consigo mesmo, mas no rio desses personagens tão reais e extremamente humanos, isso é só a “guilhotina” da vida se mostrando para nos lembrar: não temos as rédeas do amor, nem das escolhas, nem da moral e no fim, tentar controlar tudo isso é como segurar água com as mãos.
“Algumas vezes as mudanças acontecem na marra. Uma guilhotina afiada corta as nossas mãos, e todas as rédeas escapam. É o que pensamos ter acontecido, até que a gente se dá conta de que nunca houve rédeas. Ninguém monta na vida. Brincamos de escolher, brincamos de poder conduzir o destino. Precisamos dessa ilusão para viver os dias de antes, dias em que podemos tudo só porque pensamos poder, e então a vontade do que está fora da gente joga sua sombra densa e pegajosa. Ficamos prisioneiros do que não queremos muito antes da morte.”
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