
Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes c/Mhario Lincoln
Vinte anos depois de sua morte, ocorrida em 15 de março de 2006, Josué Montello continua ocupando um lugar de primeira grandeza na memória literária brasileira. Nascido em São Luís em 21 de agosto de 1917, ele deixou uma obra vasta, feita de romances, novelas, ensaios, crônicas e diários. Montelle sempre foi muito atento ao Brasil em formação e, de modo especial, à matéria histórica e humana do Maranhão.
Antes de se firmar como romancista de projeção nacional, Montello foi homem de jornal, de biblioteca, de magistério e de serviço público. Ainda muito jovem, colaborou em jornais maranhenses, integrou o "Cenáculo Graça Aranha", transferiu-se primeiro para Belém e, depois, para o Rio de Janeiro, onde ampliou sua atuação intelectual e construiu uma carreira rara pela extensão e pela disciplina. A sua biografia mostra um escritor que não nasceu pronto: formou-se no estudo, no trabalho e no convívio com a vida pública e cultural do país.
A chegada à Academia Brasileira de Letras deu a esse percurso um sentido simbólico muito forte. Josué Montello foi eleito para a cadeira 29 em 4 de novembro de 1954, tomou posse em 4 de junho de 1955 e mais tarde presidiu a instituição em 1994 e 1995. Em seu discurso de posse, deixou claro que vinha de uma São Luís educada no respeito às letras clássicas e que via a Academia como a culminação desse ideal, o que ajuda a entender por que, nele, erudição e devoção literária caminharam sempre juntas.
Já ma obra Confissões de um Romancista - atenção especial da exposição do mesmo nome, aberta em São Luís do Maranhão, na "Casa de Cultura Josué Montello", tão bem administrada pela curadora, professora Joseane Souza, o grande Josué (1986) se mostra por dentro. Nele, o memorialista se cruza com o artesão da ficção.
O livro revê cenas da juventude, o aprendizado da leitura, o peso da memória e o modo como a vida real se transforma em matéria romanesca. Não é um texto de vaidade autoral. É antes uma conversa madura sobre ofício, tempo e observação humana. E ganha força porque o próprio Montello sustenta, nesse horizonte, que todo romance traz consigo um contexto histórico, social, cultural e político.
Mas é em Os Tambores de São Luís, publicado em 1975, que sua ficção alcança o ponto mais alto. Parte importante da crítica o reconhece como o ponto culminante de sua produção, e não por acaso. O romance começa com o encontro de um negro assassinado numa noite de 1915 e, a partir daí, abre um vasto mural da escravidão, da cidade e da formação social maranhense. No centro de tudo está Damião, figura que concentra destino individual e experiência coletiva.
A grandeza desse romance está em não tratar a escravidão como pano de fundo ornamental. Montello a encara como estrutura de poder, humilhação e violência, mas também como campo de resistência, memória e ascensão moral. A obra foi lida por estudiosos das relações raciais como uma saga do negro brasileiro, e o próprio autor pensou sua narrativa histórica como conciliação entre forma plástica e espírito crítico. Por isso, o livro não fala só do passado. Fala da longa duração das desigualdades e da dificuldade brasileira de olhar de frente para sua própria origem.
Há ainda, em Os Tambores de São Luís, um valor poético que escapa ao mero resumo. São Luís não aparece apenas como cenário. Surge como corpo vivo, feito de ruas, sobrados, ruelas, tensões sociais, marcas portuguesas e africanas, religiosidade, paisagem e memória. Os tambores do título soam como sobrevivência de uma voz que a ordem escravocrata tentou calar e não conseguiu. Nesse sentido, Montello faz algo raro: transforma a cidade em personagem histórica e a história em pulsação sensível.
Damião, por sua vez, é uma das figuras mais fortes do romance brasileiro. Nasce escravo, atravessa perdas, humilhações e interditos, torna-se homem culto, enfrenta abusos, aproxima-se da causa abolicionista e carrega, no corpo e na consciência, as marcas de uma sociedade que o queria inferior. Sua trajetória vale como drama humano e como alegoria social. É por isso que o romance permanece atual: porque nos obriga a perguntar quanto de atraso moral ainda sobrevive onde o preconceito tenta se mascarar de costume.
Nesta lembrança dos vinte anos de ausência de Josué Montello, é justo registrar também o trabalho da professora Joseane Souza à frente da Casa de Cultura Josué Montello, em São Luís. Vale lembrar que em estudo apresentado por ela, a exposição itinerante da Casa já havia alcançado 29 municípios maranhenses e 88 exposições entre 2008 e 2024, o que revela um trabalho persistente de interiorização da memória literária. Em outra frente, seu nome aparece ligado à preparação de novas tiragens e à circulação renovada da obra montelliana. Guardar um autor assim não é só administrar acervo. É manter viva uma herança de linguagem, história e formação de leitores.
Lembrar Josué Montello, portanto, não deve ser apenas cumprir calendário. Deve ser reler um escritor que entendeu o Maranhão como matéria universal e que viu na literatura um instrumento de consciência histórica. Vinte anos depois, ele ainda nos chama a uma tarefa exigente: ler o Brasil sem disfarces, ouvir o que a cidade antiga ainda sussurra e reconhecer que uma grande obra não envelhece quando continua explicando o que fomos e o que ainda somos.
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