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SOCORRO GUTERRES, da APB-RGN. “Um Eu Soberano-Ser ou não ser)”

SOCORRO GUTERRES é da Academia Poética Brasileira.

13/05/2026 às 10h34 Atualizada em 13/05/2026 às 10h52
Por: Mhario Lincoln Fonte: SOCORRO GUTERRES (autora)
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Arte: mhl/ginaiFT
Arte: mhl/ginaiFT

SOCORRO GUTERRES, da APB-RGN.

 

      Hamlet, de William Shakespeare, é uma das obras mais importantes da literatura. Trata-se da tragédia do príncipe da Dinamarca que busca vingar a morte do seu pai, o rei de mesmo nome,  que foi assassinado pelo tio, Cláudio, o qual usurpa-lhe o trono e contrai rapidamente núpcias com a rainha Gertrudes, ainda em luto recente pelo marido. Assombrado pelo fantasma do pai que pede vingança, Hamlet finge loucura para investigar os fatos, o que gera uma rede de intrigas, hesitacões e mortes de quase todos os personagens. A hybris em Hamlet é um elemento trágico fundamental que paralisa a ação e revela o caos interno do protagonista e toda a melancolia que lhe assalta a alma, aliada à convicção em sua intelectualidade, levando-o a analisar excessivamente a situação (nos memoráveis solilóquios), impedindo-o de agir imediatamente, o que leva ao erro trágico (hamartia). Hamlet mostra-se como um homem solitário e paradoxal ao questionar a própria humanidade, e na suspeita da confiabilidade do fantasma  decide esperar o momento perfeito para agir, o que vai gerar consequências. 
    O Rei foi morto e a posse ilegítima de Cláudio leva às atitudes de vingança de Hamlet nessa peça clássica que expõe a dor da perda do pai e a corrupção moral no reino, como bem descreve a Cena IV do Primeiro Ato: "Há algo de podre no Estado da Dinamarca". Escrita entre 1599 e 1601, foi publicada pela primeira vez em 1603, constituindo-se como uma das maiores tragédias do período isabelino. Em Hamlet , Shakespeare  baseou-se em lendas antigas, como a história de Amleth, narrada por Saxos Grammaticus. 


    A obra é a mais longa do poeta e dramaturgo, destacando-se pela densidade psicológica e intensos diálogos ambientados no castelo de Elsinore, na Dinamarca. Hamlet estrutura-se na forma clássica da tragédia em cinco atos. O Primeiro Ato expõe o fantasma do pai de Hamlet, que narra ao filho que foi assassinado por Cláudio, o qual lhe rouba  o trono e a esposa, e que encerra na Cena V a  célebre fala de Hamlet ao amigo Horácio: "Há mais coisa entre o céu e a terra do que sonha a filosofia". O Segundo Ato mostra a indecisão de Hamlet, que reluta em acreditar na autenticidade do fantasma e passa a fingir loucura a fim de investigar o tio sem levantar suspeitas. No Terceiro Ato temos "a peça dentro da peça", na famosa cena "A Ratoeira", metadrama  que encena o assassinato do seu pai para observar o comportamento do rei Cláudio, o que leva Hamlet a confirmar a culpa do tio, confrontar a mãe e matar, por engano, o conselheiro real Polônio, pai de Ofélia e Laertes, personagens de destaque na tragédia. No Quarto Ato Cláudio envia Hamlet para o exílio na Inglaterra,  e Ofélia  (por quem Hamlet nutria sentimentos ambíguos, oscilando entre afeição genuína e desprezo dissimulado) enlouquece e morre afogada. Desse modo, Laertes, irmão de Ofélia, que estava distante, retorna, também querendo vingança. No Quinto Ato ocorre o desfecho trágico com o duelo entre Hamlet e Laertes e a morte de quase todos os personagens, consequência das paralelas vinganças destrutivas. Então, Fortinbrás, príncipe herdeiro da Noruega, assume o trono da Dinamarca. Na verdade, Fortinbrás serve como contraponto ativo ao hesitante Hamlet, pois ele age para recuperar as terras do seu pai (rei Fortinbrás) e vingar-lhe a morte. Ao contrário de Hamlet, que reflete e hesita, o príncipe norueguês é focado em ação, bem como em liderança militar.   

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Combinando versos poéticos e prosa, a peça é versátil, o que permite à linguagem acompanhar a complexidade dramática. Os solilóquios, ou seja, os famosos monólogos de Hamlet, espécie de espelho existencial do personagem, conferem à peça um tom meditativo e profundo. "Ser ou não ser -- eis a questão" , é o dilema existencial sobre a vida e a morte, exposto no Terceiro Ato, Cena I (na tradução de Millôr Fernandes):

 

      " Será mais nobre sofrer na alma 
 Pedradas e flechadas do destino feroz 
 Ou pegar em armas contra o mar de angústias ---
 E , combatendo-o , dar - lhe fim ? Morrer ; dormir ;
 Só isso . E com o sono -- dizem -- extinguir 
 Dores do coração - e as mil mazelas naturais 
 A que a carne é sujeita:eis uma consumação 
 Ardentemente desejável 
 _Morrer -- dormir --
 Dormir_ ! _Talvez sonhar ."
         (SHAKESPEARE, W. L&PM Editores, 2019)

 

      Harold Bloom,  renomado crítico literário americano, afirma que o centro do Cânone Literário (como uma lista de livros obrigatórios) é Shakespeare. Sem Shakespeare, não há cânone, "porque sem Shakespeare não há eus reconhecíveis em nós, quem quer que sejamos ". Diz ainda Bloom que Shakespeare ultrapassa todos os outros escritores no evidenciar uma psicologia de mutabilidade. De acordo com o crítico, "Shakespeare  é para a literatura mundial o que é Hamlet para o domínio imaginário da personagem literária: um espírito que tudo impregna, que não pode ser confinado" (BLOOM, H. Editora Objetiva, 1995). Desse modo, Hamlet parece ser assim o pico do cânone shakespeariano, tão expressamente dominado por seu herói,  o qual apesar de triste e melancólico é de brilho transcendente. A universalidade é aspecto primordial em Shakespeare, que é para Bloom "simultaneamente ninguém e todo mundo, nada e tudo",  ou seja, "Shakespeare é o Cânone Ocidental".

S.Guterres

Maria do Perpétuo Socorro Guterres de Souza

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Silvânia TamerHá 1 semana São LuísParabéns querida confreira Socorro pela interpretação desse clássico de Shakespeare.
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