Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes c/ Mhario Lincoln, poeta e jornalista.
A festa de lançamento do novo livro de Bioque Mesito, um dos poetas maiores deste país, foi muito importante para reativar o calendário da Literatura na cidade. Aliás, Bioque Mesito lançou (10.04.2026) A montanha diária, na Livraria AMEI, em São Luís, num evento que recolocou não só em pauta eventos literários na cidade, junto com a AMEI, como também foi recolocada sua poesia no centro do debate literário brasileiro, com um livro que chega marcado pela tensão entre experiência íntima, linguagem direta e leitura sem amarras do cotidiano, reafirmando a força de uma escrita que não contorna o real, mas o enfrenta com voz própria.
Aliás, vale confessar que os poemas de Bioque Mesito têm sido alvo de estudos da Editoria de Pesquisa e Extensão da PNFT ao longo desses últimos 100 dias. Agora, neste caso específico do livro A montanha diária, acrescenta-se algumas opiniões e críticas que vão muito além (só) desse universo lírico. Mas tenta ‘abarcar-se’ a obra como um todo. Isso porque há explícitas evidências (lógicas e ilógicas) de que Mesito não trabalha a poesia apenas em sua forma figurativa, nem como catarse higienizada.
O livro parte de uma decisão mais dura e mais rara. A base sólida disso tudo é fazer o real de forma inteira inteiro, explicitamente como matéria verbal. Por isso, o volume mistura doença, desejo, fé, família, rua, trabalho, política, miséria, memória e desgaste sem pedir licença a nenhuma convenção de bom gosto.
A imagem que abre e fecha esse conjunto de sensações poéticas é a de um céu já não procurado “em busca de Deus”, mas das luzes da Starlink, como medida asséptica desse projeto. Contudo que se nota é que o transcendental continua presente, mas agora atravessado pelo satélite, pela rede, pelo hospital, pela cidade e pela carne. É uma poesia que não separa o sagrado do esgoto do mundo.
Por outro lado, ou fator tem sensibilizado a editoria. O fato de a força do livro residir em uma recusa invisível de cortar experiências em pedacinhos poéticos. Não! Tanto que, nos poemas iniciais, o corpo adoecido, a pancreatite, a morfina, a esposa exausta na cadeira, a mãe, os filhos, o pai morto, os exames, o medo da morte e o retorno à persistência entram no poema sem filtro ornamental.
Depois, o mesmo livro se desloca para o ônibus lotado, o delivery boy na Paulista, o centro degradado de São Luís, o mercado, a praia, o fast-food, o quarto, o sexo, o cansaço do trabalho e o mal-estar histórico do país. É nisso que a obra afirma a poesia – é de se repetir - como um todo real. Não há assunto menor. Há apenas matéria humana, às vezes em ruína, às vezes em desejo, às vezes em oração.
Nesse quadro, “A corte” é um dos poemas centrais: Bioque radicaliza sua visão do homem sem maquiagem. Assim, esse poema põe na mesma corrente verbal mestres religiosos, autoridades eclesiásticas, ateus, muçulmanos, satanistas, políticos, golpistas do oito de janeiro, conservadores, traficantes, pais de família, doadores de sangue, bêbados, engraxates, poetas, influenciadores, moradores de rua, filósofos e suicidas. O efeito não é o do escândalo gratuito, aqui, feito de forma expressiva de uma cadência criativa invulgar.
Mesmo sendo de uma antropologia amarga porque, nesse poema, todos cabem na mesma engrenagem de contradição, culpa, impulso, máscara e falência moral. E isso se expande também no momento em que Bioque usa linguagem sexual direta em poemas como “Cancela”, “Cashback” ou “Basbaque”, ele não tenta abusar do leitor. Ele retira da poesia a censura hipócrita que por muito tempo fingiu que certas palavras não pertenciam à língua, embora pertençam ao corpo, ao desejo e ao dicionário.
"Não faça de tua vida a única distração tocar o órgão sexual do teu marido seria melhor provocar sua insatisfação frequentando sex shops aos fins de semana praticar pompoarismos com as amigas da faculdade ou ainda se entrosar em lives animadas de swing"(Cashback).
Ora, esses poemas acima musculosos acima citados, lidos fora da chave literal e do moralismo tristonho (por também querer fazer e não poder, pelos seus insípidos), não se sustentam como provocação sexual, mas como crítica à vida reduzida a automatismos, carências e compensações rasas. Nesse ponto, a aproximação com Hilda Hilst é pertinente. Em boa parte de sua obra, Hilst mostrou que a poesia não precisa fugir das palavras do corpo nem das zonas consideradas impróprias para alcançar altura literária.
Ao contrário, foi justamente ao tocar o que parecia bruto, banal ou incômodo que ela deu a esses termos outra espessura, fazendo do desejo, da carne e da linguagem um campo de investigação humana, metafísica e emocional. O que parecia apenas expressão direta se converte em construção lírica quando a palavra comum deixa de ser consumo verbal e passa a carregar pensamento, falta, desconforto e busca.
Por isso e outras artimanhas que Bioque Mesito se deixa classificar, com razoável precisão, num território entre o verso livre expansivo, o poema em prosa, a lírica existencial e a poesia urbana de extração metafísica. Há momentos de condensação aforística, como em “Falso-positivo” ou “Miragem”, e há momentos de fluxo quase torrencial, como em “A corte”, “Conversa com uma senhora japonesa” e “O resultado óbvio de nossas imperfeições”.
Em todos eles, porém, a marca dominante é a fala direta, sem esconderijos, sustentada por enumeração, atrito imagético e uma respiração que aproxima o pensamento do jorro. Num sentido clássico, a seriedade deste livro não está na compostura verbal, mas na velha ambição da grande poesia de dizer o homem inteiro, inclusive onde ele se degrada.
Destarte, A montanha diária merece leitura séria porque sua liberdade não nasce da vontade de chocar, mas da recusa de mentir.
Editoria da Plataforma Nacional do Facetubes c/ Mhario Lincoln, poeta e jornalista.


















Teatro/BRECHT Jul Leardini transforma lançamento de livros em ato de resistência teatral e democratização da leitura
HONORIS-CAUSA UEMA concede título de Doutor 'Honoris Causa' a Antônio Lopes em solenidade histórica, na cidade de São Luís-MA
Dia do Escritor Sem “blá-blá-blá”, a realidade é essa: o Brasil publica muito, vende para poucos e ainda lê abaixo de seu potencial
Exclusivo De Carlos Nina, especial para a Plataforma Nacional do Facetubes: “A erosão do discernimento”.
Exclusivo SERGIO TAMER: “A importância do 28 de julho para o Brasil”.
SOAMAR MA Luiz Augusto Guterres: “SOAMAR, a Confraria Azul.” Mín. 11° Máx. 21°
Mín. 12° Máx. 23°
Tempo limpoMín. 13° Máx. 26°
Tempo limpo
Colunista Socorro Guterres Socorro Guterres: “O retorno de Ulisses”. exclusivo para o Facetubes
Academias Brasil/Exterior Coirmãs De Carlos Nina, especial para a Plataforma Nacional do Facetubes: “A erosão do discernimento”.
DINO DE ALCÂNTARA ANTONIO LOBO O DESCOBRIMENTO DO BRASIL
ACADEMIA POÉTICA BRASILEIRA Escritor maranhense inovador do século XIX ganha força entre amantes da literatura fantástica.