
Editoria de Literatura e Arte da Plataforma Nacional do Facetubes c/Mhario Lincoln
Curitiba-Paraná
A presença crescente de obras e espaços dedicados às matrizes africanas tem redesenhado parte importante da cena literária brasileira. O movimento não nasce do acaso: ele se apoia em pesquisas, tradições e práticas que atravessam séculos e que, apesar das tentativas de apagamento, seguem vivas no cotidiano de comunidades afrodescendentes. Entre as contribuições recentes que ajudam a iluminar esse percurso está "Filosofias Africanas", de Nei Lopes e Luiz Antonio Simas.
O livro propõe uma leitura direta e fundamentada sobre estruturas de pensamento que antecedem o colonialismo europeu e que continuam influenciando modos de viver, ensinar e interpretar o mundo no Brasil e nas Américas. Os autores desmontam a ideia de que a Europa seria a única referência possível para a produção intelectual e lembram que o epistemicídio — a desqualificação de saberes, tecnologias e cosmologias africanas — ainda repercute na forma como a sociedade valoriza ou ignora determinados bens simbólicos.
Os trechos analisados reforçam esse ponto. Eles mostram como o colonialismo atuou não apenas sobre corpos, mas também sobre práticas culturais, rituais, culinárias, danças e visões de mundo, classificando-as como inferiores ou atrasadas. A crítica a essa lógica não é feita em tom de confronto, mas como convite à revisão histórica: reconhecer que existe um pensamento africano estruturado, coerente e sofisticado é também reconhecer que parte da cultura brasileira se sustenta sobre essas bases, mesmo quando isso não é explicitado.
No Maranhão, por exemplo, quem ainda tratava poesia afro-brasileira como “tema” e não como espinha dorsal do país, deve ter mudado de opinião quando leu “Afrodescendência em Mim”, de Maura Luza Frazão. Isso porque a autora escreve sobre esse discutido e polêmico tema com muita nitidez. E não pede licença “pra seu ninga”.
Nas páginas de seu mais recente livro-mãe, lançado em São Luís-MA recentemente, fica explícita que a sua identidade pulsa por todos os poros, levando a crer na ideia do mesmo “pulsar” dos signos fortes, em rituais africanos, ainda vivos e atravessando séculos. Como disse o editor-sênior da PNFT, jornalista e crítico Mhario Lincoln, sobre o livro de Maura: "cada verso que li nessa obra, me traz a palavra imensurável, não, como ornamento. Mas, para virar presença, corpo, memória e gesto de ser negro e porque ser negro."
Aliás, esse movimento de retomada e valorização encontra ressonância em iniciativas contemporâneas que ampliam a circulação de vozes negras na literatura. O lançamento da coletânea Pretas com Poesia – Vol. 2 é um exemplo claro. Reunindo 40 autoras, o livro tem provocado debates sobre identidade, ancestralidade e escrevivência, além de estimular encontros, leituras públicas e ações formativas. A obra demonstra que há um público atento e interessado em narrativas que escapam dos modelos tradicionais e que refletem a pluralidade do país.
Na mesma direção, a Casa Poéticas Negras, instalada na Festa Literária Internacional de Paraty, tornou-se um dos espaços mais movimentados do evento. A programação reúne saraus, oficinas, conversas e lançamentos que destacam a produção literária negra e LGBTQIAPN+. O espaço funciona como ponto de encontro e de circulação de ideias, fortalecendo redes e ampliando o alcance de autoras e autores que, muitas vezes, encontram na coletividade um caminho para romper barreiras históricas.
A soma desses movimentos — o resgate das filosofias africanas, a publicação de coletâneas que reúnem novas vozes e a criação de espaços dedicados à diversidade literária — revela um cenário em transformação. Não se trata de tendência passageira, mas de um processo contínuo de reconhecimento e reconstrução. A literatura brasileira, ao abrir espaço para essas narrativas, amplia seu repertório e se aproxima mais da complexidade do país que retrata.
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