
Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes
Carlos Cunha pertence àquela linhagem rara de escritores que não cabem numa só função. Foi poeta, jornalista, cronista, editor, professor, historiador, declamador, fundador de escola, animador de jovens e militante cultural num Maranhão que, muitas vezes, preferiu o risco da palavra viva. Nasceu em São Luís, em 18 de maio de 1933, e morreu em 22 de outubro de 1990.
Mesmo com algumas restrições acerca do fato em si, acabou ocupando a cadeira 33 da Academia Maranhense de Letras, eleito que foi (merecidamente) em 1967 e empossado no mesmo ano. Era membro do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão e da Associação Brasileira de Imprensa. Na biografia oficial da AML o registro de formação em Geografia e História, pela Universidade Federal do Maranhão e sua ligação direta com a Academia Maranhense dos Novos e a Academia Maranhense de Trovas.
Esse é um verbete facilmente encontrados nas pesquisas. Porém reduzi-lo a isso é cometer um crime literário de alta soma; uma injustiça. Especialmente porque ele, em verso, prosa e atitudes humanas, combatia exatamente injustiças político-sociais e existenciais; “um homem de combate”, como diria depois Jorge Nascimento. Entrou cedo no jornalismo, aos 17 anos, no Jornal Pequeno, e depois escreveu em veículos como Jornal O Dia, O Imparcial e O Estado do Maranhão.
Também redigiu editoriais para a Rádio Timbira e criou o Jornal Posição, com o slogan “o jornal que não suja as mãos, nem a consciência”. A frase ajuda a entender sua temperatura moral. Carlos Cunha não aceitava a neutralidade confortável quando a cidade apodrecia em silêncio. Sua crônica tinha o nervo da denúncia, mas sua denúncia nunca perdia a mão do poeta.
Esse ponto é decisivo. Tanto que, no estudo de Wanda Cristina da Cunha, publicado em Encontros Literários – 2024, Carlos Cunha jornalista e literato não aparecem como duas virtudes separadas, como uma costura firme e forte. A crônica jornalística (especialmente) servia à denúncia pública; e a poesia servia ao desnudamento interior. O professor ensinava, o jornalista cobrava, o poeta sofria, e todos esses homens conviviam dentro do mesmo Carlos Cunha.
Sua origem social também precisa ser lembrada, porque explica parte da dureza e da ternura de sua obra. Antes do reconhecimento intelectual, Carlos Cunha foi ajudante de pedreiro, vendedor de café, vendedor de perfume, lavador de carro e servente de loja. Depois, fundou o Instituto Lourenço de Moraes, mantenedor do Colégio Nina Rodrigues, no Monte Castelo. Ali, a educação não era ornamento. Era travessia. Era uma forma de retirar meninos pobres do escuro e colocá-los diante de uma possibilidade.
Na literatura, estreou com Poesia de ontem, em 1967. Depois vieram, entre outros títulos, Eu e a Academia Maranhense de Trovas, Cancioneiro do menino grande, Poemas em prosa, O lado visível, Rosa de alumínio, As lâmpadas do sol, Moinhos da memória, No porão da eternidade, Aspectos da literatura maranhense, Ballet de santos e demônios e O caçador da estrela verde. A Academia Maranhense de Letras registra essa bibliografia como uma das marcas de sua atuação intelectual, entre poesia, crítica, memória, ensaio e história cultural.
Cancioneiro do menino grande, por sua vez, publicado pela Mirante em São Luís, em 1972, talvez seja uma das portas mais diretas para o núcleo sensível de Carlos Cunha. Ali está o poeta ferido pela infância, pela casa antiga, pela morte, pelo pai, pelos irmãos, pelas ruas que mudam de nome, pelas auroras que iluminam e também cortam. Clóvis Ramos percebeu esse eixo quando escreveu que Carlos Cunha nos mostra o “tempo das auroras” e “um cais de esperança”. O professor via no livro uma poesia que transforma tristeza em sorriso e solidão em canto.
Essa leitura é justa porque Carlos Cunha não fazia sentimentalismo fácil. Ele convertia sofrimento em estrutura lírica. Sua dor tinha imagem, cadência, símbolo. Não era lamento disperso. Era construção. Em Punhal da aurora, a fala do pai ilumina o silêncio de da casa antiga. A infância surge como território perdido, mas não morto. A aurora, que em tantos poetas seria apenas sinal de começo, nele se torna lâmina. A memória corta porque ainda vive. O passado não repousa. Ele volta com cheiro de casa velha, com olhos de Maria, com irmãos transformados em “anjos de porcelana”, com castelos já virados em vento.
Em tempo: em Punhal da aurora uma amostra das marcas centrais de Cunha, a fusão entre memória íntima e linguagem simbolista. As imagens de orvalho, porcelana, nuvens, papoulas, gerânio e saudade ancestral criam uma atmosfera em que tudo parece delicado, mas nada é leve. A infância corre “na terra grávida do tempo”, e o poeta descobre que os castelos não ruíram apenas fora dele. Ruíram dentro. Essa é a grande força do texto. Carlos Cunha não escreve sobre o que passou. Escreve sobre aquilo que, por ter passado, continua doendo e dentro dele.
A poesia de Carlos Cunha, assim, tem essa força porque trabalha o tempo como matéria instável. Em Poema sem nódoa do tempo liquefeito, o poeta procura “acender o lume das auroras”, mas encontra manhãs desidratadas. O céu deixa gosto de azul na boca (simbologia de força extrema e de difícil decifração). Mas será mesmo que a infância do poeta sempre aparece sufocada em sua lírica? O sujeito cresce num “sufrágio de porquês”. Essa pode ser a resposta? Não há confirmação exata. Contudo, essa imagem é filosófica. Como se Cunha não estivesse diante do tempo porque ele está dentro dele. Isso é incrível. A imagem: ele está dentro do tempo sendo dissolvido, lembrado, cobrado por ele. Isto é, o tempo liquefeito não passa apenas. Ele infiltra. Aí está a riqueza de Carlos Cunha quando assina um poema existencial.
Ainda sobre Punhal da aurora, Cunha parece dizer que viver é tentar salvar algum brilho antes que tudo se torne ruína. Por isso rouba “o brilho de um peixe” e faz sua canção. Essa imagem contém uma história poética inteira, pois tira permanência do movimento. Tira luz daquilo que não se deixa prender. O poeta Marconi Caldas (um dos cofundadores da Academia Maranhense dos Novos), portanto parceiro de Cunha nessa empreitada, costumava dizer: “(...) a poesia de Carlos não pede explicação. Pede escuta (...)”.
Assim, quando Jorge Nascimento publicou, em 1983, a reportagem poética “Carlos Cunha: um homem dominado por forças estranhas”, tocou num ponto central. A expressão não deve ser lida como extravagância. As forças estranhas eram a memória, a fé, a morte, a cidade, o ressentimento dos medíocres, a vocação para dizer o que muitos preferiam calar. No texto de 83, Carlos Cunha se definiu como espiritualista e afirmou respeitar profundamente a vida e a morte. Essa declaração ajuda a entender seu simbolismo. Nele, o símbolo não é enfeite. É passagem para o invisível.
Também por isso sua poesia podia parecer, em certos momentos, reacionária na superfície. Mas o centro não era a reacionaridade. Era a fratura. O poeta reagia contra o empobrecimento da sensibilidade, contra a vaidade de grupos fechados, contra o desaparecimento da grandeza interior. Já em Pesadelos da Ilha, segundo entrevista citada no estudo de Wanda Cunha, ele investigava aspectos da sociedade maranhense e apontava a falta de estímulo aos novos talentos, além da mistificação de poucas figuras em prejuízo de vozes anônimas.
Nestes casos, há dentro do próprio Cunha, um outro Carlos Cunha mais necessário. E ele nunca escondeu isso! Não foi apenas um poeta de gabinete. Foi um homem em atrito com São Luís. Amava a Ilha, mas não a bajulava. Via nela mistério, beleza, vício, manha, teimosia e vaidade. Sua São Luís era feita de auroras e buracos, de azulejos e ressentimentos, de sal e bastidores. O jornalista denunciava o desleixo. O poeta recolhia os cacos. O professor tentava salvar os meninos. O cronista convertia a cidade em personagem.
Assim, essa ligação quase orgânica, da denúncia, do contraditório, do acolhimento, da criação de personagens, sempre parecia ser “insuflada por um impulso forte, dominante da própria vontade que exigia ser saciada com intensidade até mesmo de forma avassaladora (...)”, como escreveu certa vez o poeta Raimundo Fontenele, um dos fundadores do movimento literário “Antroponáutica”, ao lado de Viriato Gaspar, Chagas Val, Valdelino Cécio e Luís Augusto Cassas.
Talvez por isso, Cunha tenha se envolvido tanto com os movimentos culturais, ratificada por sua presença sempre ativa. A Academia Maranhense dos Novos, por exemplo, (junto com Marconi Caldas, Fernando Belfort, Murilo Sarney), aparece em sua vida como espaço de renovação e enfrentamento às estruturas literárias já consagradas. A Academia Maranhense de Trovas, fundada em 7 de dezembro de 1968, nasceu com um Carlos Cunha com seus espírito reformador e ampliador. Mas mesmo com essa memória forte, a AMT só foi realmente revitalizada décadas depois, em 2021, mantendo sua memória como patrono e fundador.
Carlos Cunha foi, assim, um dos últimos moicanos da efetividade poética maranhense. Não no sentido nostálgico de quem apenas olha para trás, mas no sentido de quem ainda acreditava que a poesia podia mudar a temperatura moral de uma cidade. Ele escrevia como quem procura a si mesmo no meio de uma São Luís misteriosa, manhosa, teimosa e muitas vezes sucumbida pela vaidade humana de seus pares. Não fazia literatura para agradar salões. Fazia literatura para responder ao chamado interno de uma alma que não sabia ficar quieta.
Por isso sua obra permanece, porque não se limita ao documento. Ela registra um homem inteiro. O menino pobre, o declamador, o professor, o jornalista incômodo, o crítico, o trovador, o fundador de instituições, o pai ferido, o poeta espiritualista, o cidadão que via a cidade como campo de luta.
Carlos Cunha continua porque sua poesia ainda sangra. Continua porque a aurora, nele, não amanhece sem punhal. Continua porque a infância, quando verdadeira, nunca passa totalmente. Continua porque São Luís ainda precisa de vozes que não peçam licença à vaidade para dizer a verdade. Continua porque, no fundo, o “menino grande” nunca deixou de procurar um cais. E esse cais, como viu Clóvis Ramos, era o amanhã.
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