PALAVRA DO EDITOR - A ascensão da poesia negra no Brasil acompanhada de muita luta, não é apenas um fenômeno literário, mas um movimento histórico que reposiciona vozes antes silenciadas no centro do debate cultural.
O país assiste a um desfile vigoroso de poetas afrodescendentes que transformam suas vivências, dores e conquistas em linguagem estética de alta potência. Cada poema nasce como testemunho e como resistência, como gesto político e como afirmação de humanidade. Nesse cenário, o Paraná se destaca ao revelar autores (nascidos ou migrados) cuja escrita emerge da luta cotidiana, da memória ancestral e da urgência por justiça, consolidando um capítulo essencial da literatura contemporânea.
Essa presença crescente dialoga com uma linhagem que remonta aos primeiros poetas negros que ousaram enfrentar o racismo por meio da palavra. Entre eles, destacam-se Luiz Gama, cuja obra e atuação jurídica desmantelaram estruturas escravistas, e Maria Firmina dos Reis, pioneira ao denunciar a violência racial e afirmar a subjetividade negra em pleno século XIX.
Esses dois nomes abriram caminhos que hoje se multiplicam em centenas de vozes, cada qual trazendo sua própria forma de insurgência poética. A nova geração não apenas herda esse legado, mas o reinventa, ampliando o alcance da poesia negra para além das fronteiras regionais e nacionais.
Nesse contexto, a curadoria desta página poética de hoje foi conduzida por Marcio Gleide — poeta nascido baiano e tornado-se curitibano (PR) por opção, membro da Academia Poética Brasileira — ganha relevância especial. Ao reunir e celebrar autores que transformam suas vivências em arte, ele contribui para fortalecer um movimento que é, ao mesmo tempo, literário e civilizatório.
Assim, a homenagem publicada pela SEGUNDA POÉTICA reconhece esses baluartes da palavra, que fazem da poesia um instrumento de afirmação identitária e de enfrentamento às desigualdades. Cada texto selecionado é uma prova de que a literatura negra brasileira vive um momento de expansão e maturidade, sustentado pela força pessoal e coletiva de seus criadores.
Dentro desse panorama, é impossível ignorar a contundência de Strange Fruit, poema de Abel Meeropol que inspirou a versão apresentada. Trata-se de uma das obras mais dolorosas e simbólicas da luta contra o racismo: uma denúncia poética dos linchamentos de pessoas negras no sul dos Estados Unidos, transformando corpos violentados em “frutas estranhas” pendendo das árvores. (Mhario Lincoln).
ESTRANHAS FRUTAS (Strange Fruit)
Versão: Mhario Lincoln
Árvores do Sul produzem uma estranha fruta,
Sangue nas folhas e nas raízes
Corpos negros balançam sob a brisa do Sul
Estranhafruta pendurada nos álamos.
Cena bucólica do valente Sul:
olhos inchados e a boca torcida.
Perfume de magnólias; doce e fresco.
Repentinamente, vem o cheiro de carne queimada.
Eis a fruta para os corvos arrancarem,
para a chuva lavar, para o vento sugar,
para o sol apodrecer e para as árvores deixarem cair
A imagem é brutal, mas necessária, pois expõe a lógica desumanizadora que atravessou séculos e ainda reverbera. Ao ser retomado no Brasil, o poema ecoa nossas próprias feridas históricas e dialoga com a experiência afro-brasileira, lembrando que a poesia negra não nasce do conforto, mas da coragem de olhar o horror e convertê-lo em memória, denúncia e, sobretudo, resistência.
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MARCIO GLEIDE
A poesia de Marcio Gleide, fala sobre atravessar a própria escuridão, e nela, descobrir que a ferocidade que o move. Mas não é ódio; e sim, consciência — a percepção de que cada ferida, cada passo descalço sobre barro e pedra foi, na verdade, um rito de passagem. Marcio se percebe como um ser que nasceu entre fragilidades, mas que a vida temperou até que a dor deixasse de ser lágrima e virasse fibra. Assim, o “leão” não é apenas força: é lucidez diante do mundo que tenta apagá-lo, é a dignidade que resiste mesmo quando o corpo negro é alvo, é a chama da favela que não se apaga. No fim, o poema é uma meditação sobre tornar-se — sobre como a existência, ao invés de quebrar, molda; ao invés de calar, faz rugir. Abaixo:
ME TORNEI LEÃO
Márcio Gleide
Pensei ontem em um canto do meu ser.
Nessa raiva que vem vivendo quando poderia não estar neste mundo.
Tento regar amizades mas nascem entre elas os inimigos.
Meus olhos não me enganam ainda enquanto vivo, mas a mente facilita.
Acho que estou veloz mas perco por milésimos de vacilo.
Já olhei nos olhos de alguns outros Lampiões sem vacilar.
Mantive sempre o respeito e a favela dentro do peito é chama.
Tendo o respirar passando por quarenta e cinco luas e dez meses.
Passei por cima das vaidades daqueles olhos de um corpo branco.
Ouvindo piadas e falas que queriam diminuir meu corpo negro.
Mas desde menino ou moleque daquela quebrada cabulosa.
Descalço por algum tempo, caminhando sobre barros e pedras.
Lambendo as lágrimas que vinham até não ter mas lágrimas minhas.
Forjado com o ensino da vida a ferro e fogo, ficou foda para os lobos que correm na direção do leão.
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PAULO DE JESUS
A poesia de Paulo de Jesus (Feira do Poeta/Curitiba-PR), ergue um contraponto ao lamento de Pessoa, lembrando que o sal do mar não guarda apenas as lágrimas de um povo, mas o pranto de muitos mundos feridos: o negro arrancado da terra e lançado à nau, a viúva que vê o amor levado pelo império, o indígena tropical que chora a perda de sua própria casa. O poema transforma a pergunta de Pessoa em espelho mais vasto, onde a dor não é monopólio de uma nação, mas correnteza compartilhada; e, ao revisitar a história com olhar crítico, afirma que o mar — esse grande corpo que tudo recebe — é feito menos de saudade lusitana e mais do sofrimento universal daqueles que foram silenciados. É um convite a repensar a memória, a justiça e a própria ideia lírica, ampliando o horizonte ético do verso original.
Diálogo com Fernando Pessoa.
Paulo de Jesus
Pessoa li o teu versar
Da quantidade de sal
Que há nas águas do mar.
Um pouco era natural
Um pouco era lacrimejar.
Era dor, saudade e tal.
Mas quanto do sal que há no mar
São lágrimas de Portugal?
Porque é preciso lembrar
Do negro a chorar na nau.
Da viúva em pranto a fitar
Seu homem arrancado do local.
Podemos então concordar
Nesta questão crucial
Que nem todo o sal do mar
São lágrimas de Portugal.
Fernando é preciso falar
Do indígena Tropical
Que muito esteve a prantear
Por ser tratado tão mal.
Então se pode afirmar
De modo justo e imparcial
Muito pouco do sal do mar
São lágrimas de Portugal.
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JÔ MACÁRIO
A poesia abaixo, ergue a voz da mulher negra como um território de resistência e memória, mostrando que existir, para ela, é um ato diário de dificuldades, mas que lhe garante criação: enfrentar os rótulos que tentam reduzi-la e criar, com cada passo, é um quilombo vivo onde a dignidade floresce. A fala convoca a ancestralidade — das pensadoras que abriram caminhos às Terezas anônimas que sustentam lares e mundos — para afirmar que a negritude feminina não é fragilidade, mas herança de coragem, lucidez e luta. No fundo, o texto transforma a dor histórica em chama coletiva, lembrando que, ao olhar para o lado, sempre há uma mulher preta erguida, firme, guiada por um coração que carrega séculos de resistência.
Terezas e Benguelas
Jô Macário
E eu que sou negra todo dia
Negra na rua, no corre, na lida
Negra na noite e na luz da vida
Rotulada
Escrava ou a mulata
Objetificada e hipersexualidade
Não pode ser doutora
Ou pós-graduada.
Há Vozes de muitas trazendo o contrário
De Conceição Evaristo
A Megg Rayara existo
De Sueli Carneiro
A Iyagunã Dalzira resisto
Que grandes mulheres somos
Tão pequenas diz a sociedade
Somos ministras de coragem
Criando um quilombo em cada lugar
Tantas Terezas líderes de seus lares
Abandonadas pela desigualdade
Mas que regem a vida e lutam por igualdade
Olhe para o lado tem uma Benguela aí
Com olhos firmes e punho cerrado
Cabeça erguida e coração guiado
Olhe para o lado tem uma Tereza aí
A abrace e sinta a sua verdade
A abrace e sinta sua coragem
Mulher preta toda ancestralidade
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DANDARA SOUZA MARIA
O poema reflete aquele instante raro em que a vida, apesar de suas exigências e vigilâncias constantes, abre uma fresta de serenidade: um momento em que o eu se percebe livre das máscaras, das cautelas e das cobranças que moldam o cotidiano. Ele fala da maturidade que nasce do tempo — a compreensão de que certos erros custam mais dependendo de quem os comete — e, ao mesmo tempo, da delicadeza dos pequenos respiros que quase passam despercebidos: um riso solto, um silêncio que não pesa, um breve existir sem ajuste. É uma meditação sobre a possibilidade de ser inteiro por um segundo, como se a alma se lembrasse de si mesma antes de voltar ao mundo.
QUASE VOCÊ
Dandara Souza Maria
Com o tempo
você entende
o que pode deixar passar
e o que não
não porque te disseram
mas porque algumas falhas
custam mais caro
dependendo de quem comete
não dar espaço para o erro
e, ainda assim,
tem momentos bons
que passam quase despercebidos
um riso que não precisa medir
um silêncio que não precisa se explicar
um instante sem a necessidade de se preocupar
por uma fração
você em si
sem ajuste
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DANY TEIXEIRA
O poema de Dany Teixeira é um lamento que se expande para além do indivíduo, transformando o choro em gesto ético: um pranto que não nasce apenas da dor pessoal, mas da dor coletiva que atravessa corpos negros e pobres marcados pela violência e pela injustiça. Ele revela a consciência de que o sofrimento não é abstrato — tem nomes, rostos, histórias interrompidas — e que cada lágrima derramada hoje carrega séculos de desigualdade. Ao assumir esse choro como testemunho, o Dany transforma a tristeza em denúncia silenciosa, em memória viva do que não pode ser naturalizado. É um instante em que a humanidade se afirma justamente porque não suporta a brutalidade do mundo.
Hoje eu chorei
Dany Teixeira
Chorei a dor das mães
Chorei a dor das famílias
chorei a dor das crianças
chorei por todo aquele sangue derramado
Chorei pela condenação dos que nem puderam ser julgados
Chorei por todo ódio que foi gerado
chorei por que como sempre o preto e pobre são os massacrados
assassinadas a céu aberto
tratados como carne
Hoje eu chorei...
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