
Editoria de Línguas Estrangeiras, da Plataforma Nacional do Facetubes.
A ideia de que o brasileiro carrega necessariamente um “complexo de vira-latas” precisa ser combatida porque transforma autocrítica em inferioridade nacional. O Brasil não é menor por receber palavras inglesas, assim como o inglês não se tornou menor por incorporar termos vindos do português. Ao contrário, quando o inglês usa palavras como samba, bossa nova, capoeira e favela, ele reconhece realidades brasileiras que precisaram ser nomeadas dentro de sua própria língua. A Merriam-Webster registra samba como dança e música brasileira de origem africana, bossa nova como música brasileira ligada ao samba, capoeira como prática brasileira que reúne dança e luta, e favela como termo do português brasileiro. Isso não é submissão linguística. É presença cultural.
Quem criou a expressão “complexo de vira-lata” foi Nelson Rodrigues, em crônica publicada na Manchete Esportiva, em 31 de maio de 1958, às vésperas da Copa da Suécia. Ele definia o fenômeno como a inferioridade em que o brasileiro se colocava, voluntariamente, diante do resto do mundo, especialmente no futebol. A frase nasceu de um trauma esportivo, ligado à derrota de 1950 no Maracanã, mas acabou sendo aplicada a áreas muito mais amplas da vida nacional. O problema é quando a expressão deixa de ser diagnóstico e vira condenação. O Brasil tem falhas, mas também exporta música, literatura, culinária, imaginário urbano, formas de dança, palavras e símbolos. Um povo cuja língua atravessa oceanos e entra no inglês não pode aceitar como destino psicológico a ideia de que nasceu para se sentir menor.
Pois bem! A presença do inglês no português é visível na superfície do cotidiano. Está no comércio, na tecnologia, na publicidade, na música e nas redes. Menos lembrado é o caminho inverso. O português também entrou na língua inglesa, não como avalanche, mas como rastro histórico de navegação, comércio, comida, fauna, música e encontro colonial. A influência é menor em quantidade que a do francês, do latim ou do espanhol, mas tem valor documental. Cada palavra carregada do português para o inglês é quase sempre um vestígio de rota marítima, de produto tropical, de prática cultural ou de contato entre povos.
O tema não é folclore linguístico. Philip Durkin, pesquisador de etimologia e ex-vice-editor-chefe do Oxford English Dictionary, observa que a história de uma palavra através de fronteiras linguísticas revela contatos comerciais, cultura material e aspectos concretos da vida passada. Em outro estudo, ele lembra que o empréstimo lexical ocorre quando uma língua replica forma e sentido de outra, embora a metáfora de “empréstimo” seja imperfeita, porque nada é retirado da língua de origem.
O lexicógrafo Jeremy Butterfield, em texto sobre palavras portuguesas no inglês, resume o lugar do português nessa história. Segundo ele, os empréstimos portugueses “não competem numericamente” com os de outras línguas românicas, mas o Oxford English Dictionary registra 398 palavras de origem portuguesa, contra 1.748 de origem espanhola. Butterfield acrescenta que muitas dessas palavras não nasceram originalmente no português, mas foram levadas ao inglês por meio de mercadores, navegadores e colonizadores portugueses em contato com línguas africanas, asiáticas e indígenas sul-americanas.
Um caso forte é 'cobra'. O inglês adotou a palavra a partir de cobra de capelo, expressão portuguesa usada para designar a serpente de capuz encontrada pelos portugueses na Índia. A Merriam-Webster registra que o nome foi tomado pelo inglês no século XVII. O termo sobreviveu sem precisar de tradução, porque a palavra portuguesa se colou ao animal.
Com caste, a história se desloca para a Índia. A palavra inglesa vem do português 'casta', usada para raça, linhagem, família ou classe hereditária. A entrada no inglês ajudou a fixar uma categoria social que se tornaria central nos estudos sobre a sociedade indiana. Já fetish passou pelo francês fétiche, mas sua base é o português feitiço, ligado à ideia de encanto, artifício e objeto de poder religioso.
A expansão portuguesa também deixou marcas na mesa.' Mango' vem do português manga, provavelmente tomado do malaiala. Molasses deriva de melaço. 'Banana' entrou no inglês por via espanhola ou portuguesa, com origem africana. O ponto decisivo é que o português funcionou como língua de circulação. Não inventou todos esses vocábulos, mas foi o veículo pelo qual muitos deles chegaram ao inglês.
Há palavras que guardam a vida dos portos. 'Palaver', hoje usada em inglês para conversa longa, confusão verbal ou negociação cansativa, vem de palavra. A Merriam-Webster registra a origem portuguesa e lembra que o contato entre marinheiros ingleses e portugueses na costa ocidental da África ajudou a transferir o termo para o inglês. É uma palavra que parece pequena, mas carrega navios, intérpretes, comércio e mal-entendidos.
O português também entrou no inglês por meio da observação da natureza. 'Dodo' é registrado como vindo do português 'doudo', com sentido de tolo ou estúpido. 'Albino' aparece como empréstimo do espanhol e do português, ligado a albo, branco. 'Albatross' tem percurso discutido, mas a Merriam-Webster inclui entre suas fontes possíveis o português 'alcatraz', palavra que também passou por espanhol e árabe.
No caso brasileiro, a contribuição aparece com outra densidade cultural. 'Samba' é registrado em inglês como palavra de origem portuguesa, embora seu fundo seja africano. 'Bossa nova' entrou como expressão portuguesa, literalmente “nova tendência”. 'Capoeira' vem do português brasileiro, com raiz tupi. 'Favela' também entrou no inglês pelo português brasileiro e passou a designar um fenômeno urbano do Brasil. 'Açaí', por sua vez, chegou ao inglês a partir do português brasileiro, vindo do tupi.
O que se percebe é que o português deu ao inglês menos palavras de escritório e mais palavras de mundo. Não são apenas vocábulos. São mapas. A língua, nesse caso, não viajou sozinha. Viajou em navios, mercados, cozinhas, plantações, rituais, bairros, rodas de música e corpos em movimento. No fundo, vale dizer que nenhuma língua importante cresce sozinha. O inglês absorveu o português quando precisou nomear realidades que encontrou fora de seu território original. O português, por sua vez, muitas vezes não foi ponto de nascimento, mas ponte. E talvez aí esteja sua força histórica. Em silêncio, a língua portuguesa ajudou o inglês a falar de frutas, serpentes, doces, crenças, danças, cidades brasileiras e formas de vida que a Inglaterra não conhecia antes de o mundo atlântico e o mundo índico abrirem suas rotas.
Editoria de Línguas Estrangeiras, da Plataforma Nacional do Facetubes.
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