
Mhario Lincoln, jornalista e poeta, editor-sênior Plataforma Nacional do Facetubes.
É difícil conviver com um vazio imenso dentro de você. Uma amizade que reforçou o “start” concedido por outro grande amigo, músico e produtor musical Chiquinho França. Estaria sendo ingrato (e isso costumo não ser), caso esquecesse Chiquinho França e Wellington Reis como grandes incentivadores e parceiros musicais, algo que sempre sonhei (em ser músico e compositor), desde a época em que participei de meu primeiro conjunto de shows colegiais – o “Super 5” - e já se vão longos anos.
Pois bem! Ontem, por exemplo, acordei triste. Sempre ligava para ele bem cedo para desejar boa-sorte e parabéns. Mas, Wellington Reis faleceu no ano passado. Por isso, há datas que não pertencem mais ao calendário. Pertencem ao afeto. E ontem, foi uma delas: 29 de abril, dia em que nasceu Wellington Reis, que deixou de ser apenas registro civil para se tornar uma espécie de tambor íntimo batendo dentro da memória cultural do Maranhão.
Wellington Reis nasceu em 29 de abril de 1951 e morreu em São Luís, aos 74 anos, em 22 de julho de 2025, vítima de infecção generalizada, conforme registraram veículos maranhenses e a própria Secretaria de Estado da Cultura. Foi compositor, cantor, poeta, produtor cultural, gestor e colaborador da SECMA, onde atuou como Superintendente de Ação e Difusão Cultural.
Mas certas biografias não cabem no currículo. Wellington foi desses homens que não apenas fizeram cultura. Ele andou por dentro dela. Entrou nas ruas da Madre Deus como quem entra num templo sem paredes. Levou o carnaval para o lugar da criação popular, da crítica, da irreverência, da convivência e da identidade. Seu nome está ligado ao bloco Unidos do Regional Tocado a Álcool, ao Vagabundos do Jegue e ao Boizinho Barrica, hoje Bumba Meu Boi Barrica, marcas que ajudam a explicar a força coletiva de sua presença na cena maranhense.
Em Wellington, a graça nunca foi menor que a inteligência. A marchinha “O Gaguinho” – segundo ele mesmo me contou em longa entrevista a mim concedida em 2021, “nasceu de uma cena guardada em papel, memória e ouvido popular”. Ele contou que ouviu a frase inspiradora num bar da Litorânea, anotou a ideia num guardanapo e, depois, fez dela uma das músicas mais queridas do carnaval maranhense. O que poderia ter sido apenas anedota virou canto de multidão, prova de que a arte popular muitas vezes nasce onde a solenidade não consegue entrar.
Mas o que me aproximou realmente de WR foi seu CD, assim, “comestível”. Morando em Curitiba (e fora de São Luís há tempos), minha cunhada precisava de receitas de comidas maranhenses para montar um jantar numa ocasião especial. Então, pensei: nada melhor do que aprender tudo de uma vez e ainda por música. Assim foi como cheguei em Wellington para lhe pedir o envio do CD “Sotaque Maranhense na Arte de Cozinhar”. A partir daí, nossa amizade realmente se fortaleceu e viramos parceiros em várias músicas.
Mas, vale dizer que o CD “Sotaque Maranhense na Arte de Cozinhar”, criado e composto em parceria com José Ignácio, levou para a música os sabores, ritmos e gestos da culinária maranhense. A obra recebeu reconhecimento internacional no Gourmand World Cookbook Awards, prêmio dedicado às melhores publicações de gastronomia do mundo.
A Plataforma Nacional do Facetubes registrou, em publicações anteriores, que o CD “concorreu com mais de cinco mil publicações e tornou-se finalista entre 17 trabalhos de 60 países, em Örebro, na Suécia. A página oficial do Gourmand também registra, em 2004, o Brasil representado por JJ Moraes e Wellington Reis”.
Talvez por isso Wellington continue muito maior do que a ausência. Ele juntava prato, verso, bumba meu boi, carnaval, ladainha, riso de rua e pensamento de artista. Em uma frase registrada pela Plataforma, ele deu a medida de sua fome espiritual: “tenho fome de tudo que alimenta a alma”. E pela minha convivência com ele, de forma direta, por mais de 10 anos, sei que, essa, não era frase decorativa. Era método de vida.
Foto: Wellington Reis produziu e arranjou, ao lado de Elinaldo, essa música da Jornalista Flor de Lys (minha mãe), há muito esquecida no tempo. A belíssima interpretação é de Salomão Junior. "Só a Saudade Ficou". Música e Letra, compostas em 1969/70 por Flor de Lys. Link para ouvir: https://www.youtube.com/watch?v=Qw2UzqudSIA
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Destarte, no dia de seu aniversário, São Luís não deve ter apenas recordado Wellington Reis. Deve tê-lo escutado no couro do tambor, no sopro da flauta, no cheiro do cuxá, na gargalhada carnavalesca, no bloco que dobra a esquina, no boi que urra, na canção que passa de boca em boca. Porque há artistas que terminam quando se calam. Wellington, não! Ele ficou espalhado nas formas vivas do Maranhão.
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(Sorvete de Côco)
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