RUY PALHANO (S.Luís-Ma).
Entre os valores humanos que parecem pequenos na aparência, mas que sustentam estruturalmente a arquitetura moral da convivência, a gentileza ocupa um lugar de profunda importância e de extrema significação.
Ela não se impõe pelo ruído, pela força ou pela solenidade pública, mas revela sua grandeza na simplicidade com que se manifesta: uma palavra moderada, um olhar acolhedor, uma escuta paciente, um sorriso sincero, um gesto de cuidado ou uma pequena atitude de consideração. Por trás desses gestos discretos encontra-se uma das expressões mais profundas da condição humana: o reconhecimento de que o outro existe, sente, sofre, espera, necessita e possui dignidade.
Por isso, a gentileza não deve ser confundida apenas com etiqueta ou educação formal. Ela pertence à estrutura ética da existência humana, pois ser gentil é dizer ao outro, mesmo sem palavras, que sua presença importa e que sua humanidade merece respeito e que cada vez mais estimulemos sua prática.
Pode-se falar, portanto, em uma verdadeira ontologia da gentileza, porque ela não diz respeito somente ao comportamento exterior, mas ao modo de ser do homem diante do mundo e dos outros. A gentileza revela que o ser humano não é uma criatura isolada, fechada em si mesma e movida apenas por interesses individuais, mas um ser relacional, afetivo, vulnerável e dependente de vínculos.
O homem nasce no colo de alguém, cresce sob o olhar de alguém, aprende pela palavra de alguém, amadurece pela convivência com alguém e envelhece, muitas vezes, necessitando novamente de amparo. Nesse percurso, a gentileza funciona como uma das linguagens mais discretas da interdependência humana, lembrando-nos que ninguém se basta inteiramente a si mesmo.
A sociedade contemporânea, marcada pela velocidade, pela competição, pela exposição permanente, pelo narcisismo psicossocial e pelo enfraquecimento dos vínculos humanos, vem produzindo uma desertificação da delicadeza a exemplo de outras virtudes humanas. As pessoas parecem mais apressadas, defensivas, irritáveis, desconfiadas e menos disponíveis para perceber o outro em sua humanidade e carinho.
Fala-se com aspereza, responde-se com ironia, corrige-se com humilhação, discorda-se com ódio e convive-se como se o outro fosse obstáculo, ameaça ou concorrente. Nesse cenário, a gentileza passa a ser confundida com fraqueza ou ingenuidade, quando, na verdade, é uma das últimas formas de resistência moral contra a brutalidade cotidiana. Sua perda empobrece a qualidade dos encontros, pois uma palavra grosseira pode aprofundar uma dor escondida, enquanto uma palavra gentil pode aliviar uma angústia e devolver dignidade.
Do ponto de vista antropológico, sociológico e psicológico, a gentileza nasce da própria necessidade humana de convivência. O homem é biologicamente incompleto ao nascer e depende de longo tempo de cuidado, proteção, linguagem, presença e afeto.
Aprendemos a ser humanos por meio de outros humanos: aprendemos a falar porque alguém falou conosco, a confiar porque alguém nos acolheu e a esperar porque alguém nos ensinou o tempo do outro. Por isso, toda cultura que valoriza a gentileza preserva uma sabedoria ancestral: o outro não pode ser tratado como coisa. Psicologicamente, ela suaviza o campo relacional, reduz defesas, favorece a confiança e cria segurança emocional.
Sua ausência, ao contrário, produz pequenas feridas que, repetidas continuamente, tornam o ambiente hostil à saúde mental e modelam pessoas mais defensivas, ressentidas, ansiosas e incapazes de confiar.
A gentileza também preserva a palavra e civiliza a convivência. Ela ensina que é possível dizer a verdade sem destruir, discordar sem aniquilar, corrigir sem humilhar e ser firme sem ser brutal. Na família, ensina que o mundo pode ser habitável. Na escola, forma sensibilidades. No trabalho, produz cooperação e dignidade.
Na saúde, reconhece a pessoa inteira que sofre. Na velhice, honra a travessia de quem carrega uma história, perdas, amores e memórias que merecem reverência. Por isso, quando dizemos que a gentileza desaparece, não se perde só atitudes de boas maneiras.
Denunciamos uma mutilação da convivência humana. Uma sociedade sem gentileza pode até ser rica, tecnológica, veloz e eficiente, mas será espiritualmente pobre, afetivamente árida e moralmente perigosa. A solidariedade socorre a dor manifesta, enquanto a gentileza previne muitas dores invisíveis e angústias dilacerantes. Que não deixemos morrer a gentileza, porque, quando ela desaparece, o mundo perde abrigo, ternura, cuidado e humanidade. Ao contrário, o que devemos fazer é promovê-la cada vez mais.
Editoriais MHL O coração de Sísifo/ o sentimento de Sísifo / A realidade de Sísifo.
O São João do MA O São João maranhense atravessa poesia, toada e mesa de arraial. Uma experiência incrível
Jazz&Swing A volta de Augusto Pellegrini com mais um capítulo de seu livro “As cores do Swing”
Facetubes Award Texto de Alexandre Lago (AML) recebe prêmio da Editoria Literária da Plataforma do Facetubes
São João/Maranhão Bumba meu boi, quadrilhas, artesanato e memória oral fazem do S.João maranhense, uma identidade brasileira.
Ensaios/Educação E-BOOK: Literatura, memória e discursos em trânsito: poéticas, identidades e resistências Mín. 5° Máx. 14°
Mín. 5° Máx. 13°
Tempo nubladoMín. 10° Máx. 15°
Chuvas esparsas
Coluna de Cordeiro Filho “Beco da Pacotilha arrumado para receber visitantes”, na nova coluna de Cordeiro Filho
José Claudio Pavão Santana “A SAUDADE DE UMA CAMISA”, texto de Claudio Pavão Santana
Joizacawpy Costa A festa das poderosas mulheres maranhenses na suiça
ACADEMIA POÉTICA BRASILEIRA SERGIO TAMER: “Estados Terroristas: a face oculta da Guerra Moderna”