Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes
A equipe da Editoria de Pesquisa e Extensão do Facetubes assistiu ontem, como pauta, uma entrevista do pensador Leandro Karnal no “Flow Podcast”, onde ele também falou, entre outras coisas, da influência do livro no contexto da humanidade. E cita, por exemplo, uma obra associada à sistematização da caça às bruxas: o Malleus Maleficarum, em português “O Martelo das Bruxas”, atribuído a Heinrich Kramer.
Imediatamente, alguém acendeu a luzinha e disse: é esse o tema do editorial de hoje. Então, nas pesquisas que foram feitas em seguida para a redação do texto final, foi encontrado que o livro Malleus Maleficarum foi publicado por volta de 1486. E pior: esse tratado transformou crença em procedimento, medo em método, acusação em técnica de tribunal.
E por quê? Porque essa obra não criou sozinha a perseguição. Mas deu forma escrita a uma cultura de suspeita, autorizou a tortura como caminho de confissão e forneceu argumento para que o poder religioso e civil tratasse mulheres, pobres, dissidentes e vulneráveis como ameaça ao corpo social. A própria “Encicoplédia Britannica” registra que o livro funcionou como manual-padrão sobre bruxaria por séculos e ajudou a sustentar a perseguição na Europa.
Desta forma, a grande caça às bruxas costuma ser chamada de medieval, na fala comum. Contudo, sua maior escala ocorreu no período moderno inicial, entre os séculos XV e XVIII. Historiadores estimam quase 100 mil pessoas foram processadas por bruxaria e entre 40 mil e 60 mil executadas, com maioria de mulheres. Esse dado desloca o debate: a barbárie não nasce apenas da ignorância sem livro. Ela também nasce quando o livro dá aparência de verdade, regra e justiça a uma violência já desejada pela sociedade.
Por essa razão, o século XX elevou esse problema a outra dimensão. Foi o século da alfabetização em massa, da escola pública, da indústria editorial, do panfleto, do jornal, do manifesto, da propaganda impressa, do rádio e do cinema como extensões da palavra escrita.
A alfabetização mundial cresceu de modo decisivo nos séculos XIX e XX; a Our World in Data registra que apenas uma minoria da população mundial era alfabetizada em 1820 e que, ao longo do século XX, a educação básica avançou de forma acelerada. O aumento da leitura não produziu automaticamente consciência moral. Produziu também novos leitores para velhas pulsões de domínio.
Mein Kampf, de Adolf Hitler, é o caso mais conhecido dessa passagem da página para o Estado. O primeiro volume foi escrito em 1924, durante a prisão de Hitler, em Landsberg, depois do fracasso do Putsch da Cervejaria, de 1923. A obra apresentou antissemitismo, hierarquia racial, vingança política e expansão territorial como programa.
Publicado em dois volumes, em 1925 e 1927, o livro vendeu milhões de exemplares antes da Segunda Guerra e se tornou leitura de referência no Terceiro Reich. A palavra impressa ali não permaneceu no campo da opinião. Ela foi absorvida por partido, escola, burocracia, polícia, exército e máquina de propaganda.
É bem verdade, por outro lado, que o Holocausto não pode ser reduzido a um livro. Nenhuma chacina histórica dessa escala nasce de uma única obra. Mas, há quem acredite, que o livro funcionou como peça de doutrinação dentro de um sistema de poder.
Por isso, o Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos define o Holocausto como perseguição e assassinato, patrocinados pelo Estado nazista e seus aliados, de seis milhões de judeus europeus, entre 1933 e 1945, com milhões de outras vítimas perseguidas e mortas. A página escrita ofereceu vocabulário; o Estado deu logística; a burocracia deu forma; a guerra deu oportunidade; o ódio deu adesão.
Outro texto decisivo para o imaginário de perseguição do século XX foi Os Protocolos dos Sábios de Sião. Muitos críticos, inclusive alguns pesquisados pela editoria, acreditam em “falsificação antissemita”, publicada em versões diversas. A obra inventou uma conspiração judaica mundial e circulou em vários idiomas.
O mesmo Museu Memorial do Holocausto registra que Hitler e dirigentes nazistas sabiam que os “Protocolos” não eram factuais e ainda assim os usaram para espalhar ódio contra judeus. A força desse caso está na mentira impressa com pose de documento. O leitor recebia uma fraude como se fosse prova. A violência ganhava um álibi.
No mesmo século, a “eugenia” demonstrou outro uso destrutivo do livro: a falsa ciência com vocabulário de laboratório. The Passing of the Great Race, de Madison Grant, publicado em 1916, difundiu ideias racistas apresentadas como ciência. A Britannica registra que a eugenia fracassou como ciência na primeira metade do século XX, especialmente depois do uso nazista dessas ideias para justificar a eliminação de pessoas consideradas “socialmente inferiores”.
O National Park Service, por sua vez, registra que o livro de Grant espalhou ideias racistas que o autor dizia serem científicas. A barbárie, nesse caso, não veio fantasiada de delírio místico. Veio com tabelas, classificação, aparência técnica e linguagem de política pública.
Mas, voltemos ao século XVIII onde (sendo mito ou verdade) aconteceu um dos casos mais icônicos da literatura mundial. O caso de Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe. O romance é de 1774 e ficou associado a relatos de suicídios por imitação, fenômeno depois chamado de efeito Werther. A pesquisa contemporânea trata essa história com cautela: há evidência anedótica de aumento de suicídios depois da publicação, com documentação dispersa e não sistemática.
Todavia, o caso continua relevante por mostrar que a literatura, quando toca zonas de desespero, pode produzir identificação em leitores vulneráveis. A responsabilidade crítica não está em censurar a dor literária. Está em compreender como recepção, juventude, sofrimento psíquico e romantização da morte podem se encontrar em contexto social específico.
Na lista de livros fortes também entra um, que, segundo a história, foi convertido em ritual político: “O Livro Vermelho”, de Mao Tsé-Tung, publicado a partir de 1964 e se tornou peça central da Revolução Cultural. A obra funcionou como uma espécie de escritura dos Guardas Vermelhos, jovens mobilizados para atacar os “Quatro Velhos” da cultura tradicional chinesa. A obra (que pode ser facilmente adquirida no Brasil), tornou-se objeto de lealdade pública, portado como sinal de adesão política e como forma de escapar da perseguição.
Até aqui, vale dizer o seguinte, diante de tantos exemplos analisados pela equipe, que o ponto central é este: o livro não é apenas abrigo da beleza, da memória e do conhecimento. Ele também pode ser máquina de autorização. Quando um texto se torna manual, catecismo político, prova falsa, doutrina racial ou senha de obediência, a leitura deixa de ser liberdade e passa a operar como disciplina.
Isto é, o problema não está no livro como objeto. Está na conversão do livro em arma simbólica, especialmente quando instituições o transformam em currículo, ordem, lei, ritual e punição. Assim, fica claro que a defesa do livro exige uma posição de leitura crítica. O livro salva quando abre perguntas. O livro ameaça quando fecha o mundo numa única resposta. A civilização não se mede apenas pelo número de pessoas alfabetizadas. Mede-se pela capacidade de impedir que a palavra impressa transforme seres humanos em alvos. E esse é o problema mais grave que muitos leitores nem mesmo sabe que existe!
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