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O que tem por trás do inocente Alice no País das Maravilhas? A infância também pode pensar a linguagem?

Obra de Lewis Carroll atravessa a literatura infantil, a filosofia e a crítica social ao transformar o absurdo em investigação sobre sentido, identidade e autoridade.

15/05/2026 às 10h00 Atualizada em 15/05/2026 às 10h40
Por: Mhario Lincoln Fonte: Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes
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Releitura (ginaiFT)
Releitura (ginaiFT)

Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes

Alice no País das Maravilhas costuma ser tratada como livro infantojuvenil, mas essa classificação não resolve a obra. Ela pode apresentar uma menina em aventura, animais falantes e cenas de fantasia, porém sua força está em outro ponto. Lewis Carroll, pseudônimo de Charles Dodgson, construiu uma narrativa em que a infância serve como lente para examinar linguagem, lógica, autoridade e identidade. O texto-base aponta essa dimensão ao lembrar que cada diálogo e cada absurdo funcionam como teste de resistência para aquilo que conseguimos nomear e compreender.

Para a criança, Alice representa a entrada no mundo. Ela cai num território onde quase nada obedece às regras conhecidas, mas não perde a capacidade de perguntar. Esse é o ponto essencial. A personagem não vence pela força, nem por uma lição moral explícita. Ela avança porque observa, estranha, questiona e tenta organizar o caos. Muita gente neste Planeta já leu e sabe que a história nasce da menina que segue o Coelho Branco e entra num espaço onde a lógica se confunde e a linguagem se contradiz.

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Esse aspecto explica por que o livro se tornou marco da literatura para crianças. "Alice in Wonderland" foi publicado em 1865. E esse foi o ponto de virada na carreira de Carrollporque a criança foi colocada no centro da narrativa, e não o adulto. Mas a obra nunca coube apenas na prateleira infantil. O País das Maravilhas é também um laboratório de instabilidade. As regras mudam sem aviso. As palavras escorregam. A autoridade aparece muitas vezes como capricho. A identidade de Alice vacila quando ela cresce, diminui e se pergunta quem é. Esses elementos podem encantar uma criança, mas pertencem também ao campo adulto da filosofia, da linguística e da crítica social.

A aproximação com o pensamento de Ludwig Joseph Johann Wittgenstein, filósofo austríaco, naturalizado britânico,  ajuda a entender essa leitura. Nas Investigações filosóficas, ele tratou a linguagem como parte de uma atividade humana compartilhada, não como propriedade privada de quem fala. Por isso, essa ideia de “jogos de linguagem” mostra que o sentido das palavras depende do uso comum, de práticas, regras e formas de vida. É exatamente esse conflito que aparece quando personagens de Carroll tentam impor significados como se fossem donos deles.

Por outro lado, atente, o encontro com Humpty Dumpty(1) concentra essa tensão. Quando uma palavra passa a significar apenas aquilo que uma pessoa decide, a comunicação deixa de ser ponte e vira domínio. A disputa parece brincadeira, mas carrega fundo político e social. Uma comunidade só se entende porque aceita regras mínimas de sentido. Sem esse pacto, a linguagem deixa de esclarecer e começa a aprisionar.

Nota(1): Humpty Dumpty é uma personagem de uma rima enigmática infantil, melhor conhecida no mundo anglófono pela versão de Mamãe Gansa. Ela é retratada como um ovo antropomórfico, com rosto, braços e pernas. (Ouça uma musiquinha com o tema: https://www.youtube.com/watch?v=Q94Ctc4-H6U)

 

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Por isso, algumas ideias de Alice não deveriam ser diagnosticadas de maneira apressada como “coisa de criança”. A crítica ao autoritarismo aparece na Rainha de Copas, que governa por ameaça e impulso. A crise de identidade surge na própria Alice, que não reconhece mais os limites do corpo e da consciência. A desmontagem da lógica atravessa diálogos inteiros. A ausência de moral explícita também rompeu com parte da tradição vitoriana, que esperava da literatura infantil uma função pedagógica mais direta.

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Desta forma e vista por esse outro ângulo (pesquisado ardorosamente pela Plataforma FT) a recepção inicial comprova que o livro já nasceu desconcertante. Até o próprio Carroll anotou em seu diário uma lista de críticas publicadas entre 1865 e 1866 e, em uma delas, críticas mais negativas porque considerou que uma criança real poderia ficar mais confusa do que encantada diante daquela narrativa.

Todavia, indo um pouco mais fundo, vale acrescentar que Virginia Woolf compreendeu essa ambiguidade com precisão. Em ensaio sobre Carroll, ela escreveu que ser criança é ver tudo com estranheza, de tal modo que nada surpreende. Para Woolf, o autor de Alice mostrou o mundo de cabeça para baixo como a criança o vê, e não como o adulto o moraliza.

No fundo, o incômodo de pais e críticos diante do livro nasce justamente daí. Alice no País das Maravilhas não mostra, assim, uma infância obediente, decorativa ou domesticada; mas sim, uma criança que encara o absurdo, responde à autoridade e percebe que nem toda regra merece reverência. Para certos adultos, isso sempre será desconfortável. Para outros, é exatamente aí que mora sua grandeza literária.

Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes

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Joizacawpy Há 4 semanas São Luís Que análise maravilhosa, sim em Alice no país das Maravilhas há profundidade filosófica. Os questionamentos próprios das crianças que fazem suas descobertas é fantástico e necessário. Parabéns pelo texto!
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