Sexta, 12 de Junho de 2026
12°C 17°C
Curitiba, PR
Publicidade

Livro que ganhei de presente, reacende aprendizado sobre cidade, memória, crônica e jornalismo: entre o Rio da Belle Époque e as ruas antigas de São Luís.

João do Rio mostra que a rua também tem alma no livro “A alma encantadora das Ruas”.

12/06/2026 às 18h02
Por: Mhario Lincoln Fonte: Mhario Lincoln
Compartilhe:
Impossível não parar para ler.
Impossível não parar para ler.

Mhario Lincoln*

Ganhei de presente um livro que planejava ler havia pelo menos dois anos. A surpresa foi imediata. Antes mesmo de chegar em casa, a leitura já me havia tomado. Não foi apenas curiosidade literária. Foi reconhecimento. O título, sozinho, já parecia abrir uma porta: A Alma Encantadora das Ruas, de João do Rio.

Há livros que chegam pela capa, outros pela fama, alguns pela urgência íntima. Este chegou pelo título. João do Rio parece dizer, desde a primeira impressão, que a rua não é apenas passagem. É organismo, teatro, confissão, vício, trabalho, máscara e revelação. Ao chamar a rua de “alma encantadora”, ele desloca para o espaço público uma qualidade que, em princípio, pertenceria ao íntimo humano. A rua passa a ter espírito, humor, memória, pecado, ternura e voz.

Continua após a publicidade

Publicado originalmente em 1908, A Alma Encantadora das Ruas reúne crônicas e reportagens escritas no início do século XX, quando o Rio de Janeiro vivia a tensão entre o projeto de modernização urbana e a permanência de seus contrastes sociais. A obra nasce no ambiente da Belle Époque carioca, período em que a capital federal tentava se aproximar de modelos europeus, especialmente franceses, enquanto reformas profundas, associadas ao prefeito Pereira Passos, redesenhavam ruas, avenidas, hábitos e formas de circulação.

João do Rio, pseudônimo de Paulo Barreto, não se limitou a contemplar vitrines, cafés-concertos e salões. Ele saiu às ruas. Observou trabalhadores, vendedores, miseráveis, boêmios, cocheiros, crianças, figuras noturnas, religiões, ofícios miúdos, fachadas, becos e tipos populares que a cidade elegante preferia não enxergar. O seu prefaciador, o Jean Pierre Chauvin, professor de ficção interativa, autor de “O Alienista – a teoria dos contrastes em Machado de Assis “ é assertivo demais quando escreve:

“Em João do Rio, como se vê, a ambivalência é uma constante que ultrapassa o tema de seus textos, inclusive. Ela é reforçada pela multiplicidade de alvos de sua pena. Em suma, o duplo sentido é um expediente: ele parece estruturar seu texto, similarmente ao que acontecia entre os escritores em circulação no Rio de Janeiro, desde a segunda metade do século XIX. Assim, do teatro de costumes de Martins Pena aos contos de Artur Azevedo; do romance de Manuel Antônio de Almeida à prosa machadiana; do naturalismo de Aluísio Azevedo ao drama confessional de Raul Pompeia; da amargura de Lima Barreto à sucinta ironia do próprio João do Rio, é como se o cronista se tivesse afiliado a uma longa tradição literária – construída entre o Segundo Império e Primeira República – de desmascaramento da sociedade fluminense, ora pela crítica mordente, ora pelo riso desbragado”.

 

Por isso o livro conserva sua força. O Rio de João do Rio não respira apenas os ares finos da Belle Époque. Ele transpira humanidade, Literatura, Arte, entre a Avenida Central, os becos, os bondes, os pregões, as tabuletas mal escritas, os homens-sanduíche, as casas de penhores, os cortiços, as ruas de Santa Teresa, os largos sombrios e a vida portuária, aparece uma cidade menos decorativa e mais verdadeira. O pitoresco não surge como enfeite. Surge como método de observação.

Mas há um ponto que mostra que João está além de seu tempo: ele compreendeu antes de muitos, que a cidade não podia ser lida apenas pelos prédios, pelos monumentos ou pelos nomes oficiais das avenidas. A cidade também se revela nos usos. Revela-se no modo como o vendedor anuncia, o pobre espera, o menino corre, o bonde range, a janela vigia, a esquina comenta, o bairro protege ou condena; isto é, a rua pensa. E quando a rua pensa, a literatura deixa de ser gabinete para tornar-se escuta.

Continua após a publicidade

Também por isso a leitura me tocou por outro caminho. Em minha juventude, eu amava a rua. Especialmente as ruas da Madre Deus e do Centro Histórico da minha velha São Luís. Amava aquelas esquinas onde a cidade parecia falar baixo, mas nunca em silêncio. Ruas de azulejos cansados, sobrados de respiração antiga, ladeiras que guardam passos, portas entreabertas, cheiro de maré, batuques distantes, conversas de fim de tarde, nomes que atravessam gerações. Quem nasceu ou viveu perto dessas ruas sabe que elas não são cenário. São parentes históricos.

A ponte entre João do Rio e São Luís não é forçada. No próprio livro, ao tratar da personalidade das ruas, ele menciona São Luís do Maranhão e se refere à Rua de Sant’Ana como uma rua “sonâmbula”, marcada por memória e assombro. O detalhe é precioso porque mostra que, para ele, a rua brasileira possuí caráter próprio, quase psicológico. Cada rua carrega uma biografia.

Portanto, caros amigos, ler João do Rio hoje é reencontrar uma lição para meu jornalismo cultural. A boa reportagem não nasce apenas do dado, nem a boa crônica nasce com emoção. Então, por que então não somar a reportagem jornalística à crônica? Porque o cronista é, igualmente um observador de fatos, mas vê o que todo mundo atravessa sem perceber. Ele entende que uma tabuleta torta, um pregão, uma sombra na calçada, uma senhora na porta, uma criança vendendo miudezas ou um velho banco de praça podem dizer mais sobre uma época do que muitos discursos oficiais.

Desta forma, este meu presente recebido de Veridiana, acabou sendo mais do que um livro. Foi uma devolução. João do Rio me devolveu a rua como lugar de leitura. Devolveu-me a convicção de que a cidade não termina onde acaba a calçada. Ela continua no ouvido, na lembrança, na frase recolhida por acaso, no rumor dos passos, na esquina que muda uma vida. A rua não é apenas caminho. É arquivo humano. É palco de perdas e encontros.

E se essa rua fosse toda minha, “...eu mandava ladrilhar/ Com pedrinhas de brilhante/ Para o meu, para o meu amor passar...”.

Feliz Dia dos Namorados!

Continua após a publicidade

Mhario Lincoln

É editor-sênior da Plataforma Nacional do Facetubes.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Curitiba, PR
15°
Parcialmente nublado

Mín. 12° Máx. 17°

15° Sensação
4.21km/h Vento
83% Umidade
100% (7.14mm) Chance de chuva
06h59 Nascer do sol
05h34 Pôr do sol
Sáb 18°
Dom 16° 10°
Seg 13° 10°
Ter 13°
Qua 18°
Atualizado às 20h01
Publicidade
Publicidade
Economia
Dólar
R$ 5,06 +0,06%
Euro
R$ 5,85 +0,08%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 340,910,91 +0,05%
Ibovespa
171,132,66 pts -0.21%
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Lenium - Criar site de notícias