DR. RUY PALHANO
O sofrimento sempre ocupou lugar central na história da condição humana. Nas tradições religiosas, filosóficas, psicanalíticas e existenciais, a dor nunca foi compreendida apenas como algo a ser eliminado, mas também como experiência capaz de revelar a fragilidade, a finitude, a dependência do outro e a necessidade de sentido.
Kierkegaard, Nietzsche, Freud, Viktor Frankl e tantos outros pensadores reconheceram que o sofrimento, embora doloroso e muitas vezes devastador, pode interrogar profundamente o homem sobre sua existência. Na contemporaneidade, entretanto, ocorre um fenômeno paradoxal: nunca se falou tanto de dor, trauma, ansiedade, depressão, luto e saúde mental, mas talvez nunca se tenha escutado tão pouco o sofrimento em sua densidade real. A dor tornou-se visível, comentada, compartilhada e classificada, mas nem sempre acolhida, compreendida e elaborada.
A banalização do sofrimento acontece quando a dor perde sua singularidade e passa a ser tratada de maneira genérica, apressada e superficial. A angústia vira expressão comum, a tristeza é vista como inconveniência, o luto é pressionado pela cultura da produtividade e a depressão, muitas vezes, é confundida com qualquer desconforto cotidiano, embora possa representar grave sofrimento psíquico.
A sociedade contemporânea tende a transformar a dor em estatística, protocolo, diagnóstico rápido, frase motivacional ou conteúdo digital. Com isso, o sujeito que sofre pode ser visto, mas não necessariamente escutado. Sua dor é nomeada, mas nem sempre compreendida. Sua experiência é registrada, mas nem sempre acolhida em sua história, em sua intimidade e em sua verdade subjetiva.
Ao mesmo tempo, vivemos a espetacularização da dor. Como observa Paula Sibilia, em O show do eu, a intimidade tornou-se espetáculo, e o sujeito contemporâneo passou a existir cada vez mais diante do olhar público. Nas redes sociais, o sofrimento frequentemente aparece como narrativa de exposição, performance emocional e busca de validação.
Expõem-se lutos, crises, traumas, angústias, solidões e colapsos emocionais em formatos breves, com imagens, frases de impacto, músicas e recursos estéticos. Não se trata sempre de compartilhar para elaborar ou buscar acolhimento, mas muitas vezes de exibir para ser visto, curtido e reconhecido. A dor, assim, passa a integrar a economia da atenção, tornando-se capital emocional no universo digital.
Esse processo revela uma das contradições mais profundas da contemporaneidade: há excesso de visibilidade emocional e escassez de escuta verdadeira. A exposição da dor não gera necessariamente empatia. Pode gerar curiosidade, julgamento, saturação, indiferença ou consumo voyeurístico do sofrimento alheio.
Susan Sontag, em Diante da dor dos outros, advertiu que a repetição de imagens e narrativas de sofrimento pode tanto despertar consciência quanto produzir anestesia moral. Byung-Chul Han, ao analisar a sociedade do desempenho e da exposição, ajuda a compreender como até a fragilidade pode ser absorvida pela lógica da performance.
A ferida passa a compor a imagem pública do sujeito, e o sofrimento corre o risco de deixar de ser experiência de elaboração para tornar-se identidade, marca ou produto emocional.
No fundo, a espetacularização da dor denuncia a solidão do sujeito contemporâneo. Quando não há escuta real, busca-se plateia. Quando os vínculos se tornam frágeis, a dor procura o palco. Quando a família, a amizade, a comunidade, a escola, a clínica e a cultura já não oferecem espaços consistentes de acolhimento, o sofrimento migra para a exposição pública como pedido indireto de reconhecimento.
Emmanuel Levinas, em Totalidade e infinito, lembra que o rosto vulnerável do outro nos convoca à responsabilidade. A dor do outro não deveria ser consumida como imagem, mas recebida como chamado ético. Por isso, uma sociedade verdadeiramente humana não é aquela que apenas vê o sofrimento, mas aquela que sabe escutá-lo sem reduzi-lo, explorá-lo ou transformá-lo em espetáculo.
Diante desse cenário, é necessário recuperar uma ética da dor. O sofrimento não deve ser romantizado, pois pode destruir, adoecer e desorganizar profundamente a vida das pessoas. Também não deve ser banalizado, porque toda dor humana carrega uma história e uma singularidade. A clínica precisa escutar além do sintoma. A família precisa oferecer presença antes de soluções rápidas. A escola precisa acolher sem patologizar toda frustração. A sociedade precisa resistir à indiferença diante da miséria, da violência, da solidão e do abandono. Sofrer exige tempo, linguagem, silêncio, cuidado e sentido.
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