A força e a suavidade de ARLETE NOGUEIRA DA CRUZ
Exclusivo: Linda Barros, professora e atriz
Todos nós temos um caminho a percorrer, porém só o tempo sabe onde nos levará. Por onde passamos deixamos nossas marcas e pegadas, que só se apagarão quando não mais existirem resquícios da memória no tempo, como está descrito nesses versos de A Litania da Velha
O tempo consome o silêncio e mastiga vagaroso a feroz injustiça.
O campo se perde embebido em jenipapos para a manhã sufocada.
Mastigando o tempo e a vida, Arlete Nogueira desponta no meio das massas. Timidamente consegue galgar seu próprio caminho. Com ela, a magia das letras nasce, floresce e ecoa na multidão, ainda que, quase imperceptível e ao mesmo tempo de grande visibilidade, traça sua própria linha do tempo e como num balançar do vento, nos apresenta os mais doces versos,
Ah, se eu soubesse antes
o que sei agora da vida,
no tempo propício
eu te acumularia de afagos
e doces gestos de gratidão.
A autora é dona de uma singeleza nas palavras, que o leitor é levado a um verdadeiro e sublime sentimento de euforia ao desvendar cada palavra que sai de cada verso de Arlete. Ela com sua calmaria, nos embala até nos versos mais fortes e porque não dizer mais obscuros
O cachorro, perdido, caminha o desvio de seu abandono.
A criança brinca no esgoto que escoa também o seu sonho pequeno.
Arlete Nogueira da Cruz nasceu na estação ferroviária de Cantanhede, no interior do Maranhão. Licenciada em filosofia pela Universidade Federal do Maranhão, cursou o mestrado em Filosofia Contemporânea na PUC/RJ, defendendo dissertação sobre Walter Benjamin. É professora aposentada da UFMA e exerceu, por quase duas décadas, vários cargos na área da cultura, procurando desenvolver importante trabalho em favor das artes no Maranhão. Com esse histórico pessoal, não podia ser diferente, pois Arlete Nogueira carrega a leveza no semblante e a força no corpo frágil de uma verdadeira artista das palavras, como diz os versos do poema CONVICÇÃO
Aqui, onde uma mulher se curva
e se inventa
é onde de uma dor imensa e turva
se alimenta
Aqui, quando tonta e avulsa
se procura
é onde viva a luta lenta pulsa
e transfigura
Aqui, onde o que é e será retorna
Ao berço
é onde busca âncora, estrela, bigorna
e terço.
Arlete Nogueira da Cruz é dessas mulheres que têm a força da natureza no semblante calmo, mas que com passos firmes, construiu uma história e hoje tem um legado, que com muito respeito, espalha poesia por onde passa.
A autora é um pouco ensaísta com atuação importante na vida cultural maranhense nas décadas de 60, 70 e 80. Seu primeiro livro, A parede, foi lançado em 1961, quando tinha menos de 20 anos. Obra que é uma relíquia preciosa da autora. Com este título, ganhou o terceiro lugar no Prêmio Júlia Lopes de Almeida, na Academia Brasileira de Letras em 1960. A obra foi descoberta por Josué Montello, numa viagem que fez a São Luís, em 1959, que achou tão interessante que ele mesmo a inscreveu no então prêmio da Academia.
Outra obra de grande destaque na vida da autora maranhense é A parede, obra lançada há quarenta e cinco anos. Essa obra é vista como um marco na carreira de Arlete, foi tão importante em sua criatividade, que continuou percutindo em todas as obras que publicou posteriormente.
Hoje Arlete é uma das autoras mais importantes na literatura maranhense, de estilo simples, a poeta tem como marca, o olhar eloquente, característica que marca toda sua narrativa ao longo de suas obras.
Outra obra de relevante valor cultural e literário para as letras maranhenses é Litania da Velha, obra que faz um périplo pela cidade histórica de São Luís. Um verdadeiro retrato em forma de palavras, sobre nossa quatrocentona cidade. Para aqueles que conhecem bem nossa velha Ilha do Amor, a reconhece de imediato nos versos da poeta,
Os sobrados sem telhados são armadilhas de sorrateiro interesse
O mato desce sobre as paredes como cabeleiras protegendo a nudez
De uma forma simples, porém triste, a terra dos grandes nomes da Literatura brasileira como Ferreira Gullar, Nauro Machado, Odorico Mendes, os irmão Azevedo, Gonçalves Dias, entre tantos nomes, infelizmente, está agonizando, os velhos casarões que outrora iluminaram o Centro histórico, hoje vive na mesmice e no esquecimento, como foi visto nos acima.
Tanto Litania da Velha quanto A parede, são obras minimalistas que seguem as experiências de releituras e desconstruções de escritores como Xavier de Maistre (A vida em torno do meu quarto), Kafka (Metamorfose) e Samuel Beckett (Molloy) sobre a viagem humana num plano do ser acuado e emparedado.
Ainda sobre em Litania da Velha, a protagonista, a Velha, é uma representação da própria cidade de São Luís personificada. Cidade e pessoa se identificam marcadas pela metamorfose do desgaste do tempo representado metaforicamente pelo salitre.
A antiga cidade é uma ilha que se desfaz em salitre
As antigas alcovas se abrem em cloacas na incontinência dos restos.
Arlete é ainda autora de Cartas da paixão ensaios filosófico, romance, Canção das horas úmidas, poesia, Contos inocentes e Trabalho Manual,.Contos inocentes, Trabalho manual: prosa reunida, Sal e sol. A escritora foi esposa do também inesquecível escritor Nauro Machado falecido há cinco anos e mãe do cineasta Federico Machado
Sua mais recente obra, Colheita: antologia poética, traz seleção de poemas, alguns deles já conhecido do público leitor, outros inéditos, mas com o mesmo brilho e carisma da autora de A Litania da Velha e que certamente terá o mesmo valor literário para a história da literatura brasileira.
Toda nossa riqueza cultural perpassa por caminhos que às vezes são desconhecidos para a grande maioria das pessoas, no entanto, temos que começar a nos fazer mostrar e, a literatura com seus grandes autores é o caminho a seguir, pois através deles, é possível nos reconhecermos, seja através de uma parede, seja através das ruas e becos, ou mesmo através da voz de uma personagem.
A maioria das pessoas se sentem plantadas nas raízes de outrora, esquecendo que o presente é agora e que deveria ter seu holofote de luz brilhante iluminando toda uma cidade, e assim, todo o arcabouço cultural não seria ofuscada pelo cinzento e pungente descaso do esquecimento.
...
Ah, se eu soubesse antes
o que sei agora da vida.
não só comtemplaria tua beleza
(com aura de coisa eterna),
mas também a expansão
desse teu ser
girando em torno de nós:
sentinela da noite
E pastora do dia,
espargindo dons,
ó benéfica luz das nossas horas!
...
(Versos do poema Uma Lua de Novembro, do livro 'Colheita', antologia poética). Só para lembrar que esse poema, Arlete faz uma homenagem ao centenário de nascimento de sua mãe D. Enói Simão Nogueira da Cruz, em 2008.
Sendo assim, Arlete Nogueira da Cruz Machado é uma autora de grande valor intelectual e cultural, que possui uma veia literária enriquecedora para nossa história e nossa riqueza intelectual futura e que merece destaque hoje e sempre, para que não seja só mais uma autora desconhecida e esquecida por seus conterrâneos.
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