Por Mhario Lincoln | Plataforma Nacional do Facetubes
Wellington Reis foi uma dessas presenças. Ao lado do músico e produtor @Chiquinho França, ele fortaleceu em mim um antigo sonho: o de ser também compositor, desejo nascido ainda nos tempos do conjunto colegial “Super 5”, quando a música já parecia indicar um caminho que eu demoraria muitos anos para percorrer.
Hoje, 22 de julho, lembro muito dele. Há datas que passam a morar exclusivamente no afeto. Esta é uma delas. Wellington morreu em São Luís, aos 74 anos, vítima de uma infecção generalizada. Desde então, sua ausência tornou-se uma espécie de tambor íntimo, batendo dentro da memória cultural do Maranhão e no coração daqueles que tiveram o privilégio de conviver com ele.
Nascido em 29 de abril de 1951, Wellington Reis foi compositor, cantor, poeta, produtor cultural e gestor. Atuou na Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão, inclusive como superintendente de Ação e Difusão Cultural. Contudo, sua trajetória não cabe num currículo administrativo. Wellington não apenas trabalhou com cultura. Ele viveu dentro dela. Conhecia seus sons, suas ruas, seus personagens, seus sabores e suas contradições.
Na Madre Deus, território fundamental da criação popular maranhense, Wellington caminhava como quem reconhece cada esquina pela música que ela guarda. Seu nome permanece ligado ao bloco Unidos do Regional Tocado a Álcool, ao Vagabundos do Jegue e ao Boizinho Barrica, posteriormente consolidado como Bumba Meu Boi Barrica. Essas manifestações não representam apenas passagens de sua biografia. São partes de uma obra coletiva na qual ele ajudou a transformar convivência, crítica, irreverência e identidade em patrimônio cultural.
Em Wellington, o humor (mesmo discreto ou sarcástico ao extremo) jamais foi menor que a inteligência. A marchinha “O Gaguinho”, conforme ele me contou numa longa entrevista concedida em 2021, nasceu de uma frase ouvida num bar da Avenida Litorânea. A ideia foi anotada num guardanapo e, posteriormente, transformada numa das músicas mais conhecidas do carnaval maranhense. O episódio revela muito de seu processo criativo: Wellington sabia escutar a rua. Onde alguns percebiam apenas uma conversa passageira, ele encontrava ritmo, personagem, narrativa e música.
Minha aproximação mais profunda com ele começou de maneira quase saborosa. Morando em Curitiba e distante de São Luís havia muitos anos, procurei Wellington porque minha cunhada precisava de receitas maranhenses para preparar um jantar especial. Lembrei-me então do CD “Sotaque Maranhense na Arte de Cozinhar”. Pedi que ele me enviasse a obra. A partir daquele gesto, nossa amizade se fortaleceu e, pouco a pouco, tornamo-nos parceiros em diversas composições.
Criado com José Ignácio, “Sotaque Maranhense na Arte de Cozinhar” levou para a música os sabores, os gestos e os ritmos da culinária do Maranhão. O trabalho recebeu reconhecimento internacional no Gourmand World Cookbook Awards. Mais do que um disco de receitas cantadas, a obra demonstrou a capacidade de Wellington de compreender a cultura como uma experiência inteira: alimento, palavra, ritmo, memória, território e identidade.
Ele também participou da recuperação de uma canção de minha mãe, a jornalista e compositora Flor de Lys. Ao lado de Elinaldo, Wellington produziu e arranjou “Só a Saudade Ficou”, composta por ela entre 1969 e 1970 e interpretada por @Salomão Junior.
Há uma dimensão profundamente simbólica nesse trabalho. Wellington ajudou a retirar do silêncio uma música que o tempo havia escondido, devolvendo-lhe voz, forma e permanência. A gravação pode ser ouvida no YouTube. Vide abaixo:
Durante mais de dez anos de convivência, conheci um homem movido por uma curiosidade quase inesgotável. Wellington reunia o prato e o verso, o carnaval e a ladainha, o bumba meu boi e o pensamento artístico, a gargalhada de rua e a disciplina do criador. Em frase registrada pela Plataforma Nacional do Facetubes, definiu a própria natureza: “Tenho fome de tudo que alimenta a alma”. Não era uma declaração decorativa. Era sua maneira de existir.
Um ano depois, o Maranhão ainda não aprendeu a falar de Wellington Reis apenas no passado. Ele permanece no couro do tambor, no sopro da flauta, no cheiro do arroz de cuxá, na irreverência dos blocos, no boi que atravessa o terreiro e na canção que continua passando de boca em boca. Há artistas que desaparecem quando se calam. Wellington não desapareceu. Ficou espalhado pelas formas vivas da cultura maranhense.
Hoje, a saudade não pede silêncio. Pede escuta. Pede que suas músicas sejam novamente tocadas, que suas histórias sejam contadas e que sua contribuição não seja reduzida a uma lembrança ocasional. Um ano sem Wellington Reis é também um ano descobrindo que certas amizades não terminam. Mudam apenas de lugar. Saem da presença cotidiana e passam a viver definitivamente dentro de nós.
Última entrevista à TVFacetubes (Recorte)
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Mhario Lincoln, jornalista e poeta, editor-sênior da Plataforma Nacional do Facetubes.
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