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Brasil Dia do Escritor

Sem “blá-blá-blá”, a realidade é essa: o Brasil publica muito, vende para poucos e ainda lê abaixo de seu potencial

Mas, o mercado editorial reagiu em 2025, recuperou vendas e ampliou a presença das livrarias. A concentração comercial, a redução histórica do número de leitores e a baixa visibilidade dos lançamentos, porém, mantêm a carreira literária como uma atividade de alto risco.

25/07/2026 10h22 Atualizada há 2 horas atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes
ainda existe luz no fim do túnel. (mhl/GinaiFT).
ainda existe luz no fim do túnel. (mhl/GinaiFT).

Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes

Mesmo com a confirmação de que o Brasil tenha apenas 47% da população brasileira com cinco anos ou mais podia sendo classificada como 'leitora' em 2024, segundo a edição mais recente da pesquisa "Retratos da Leitura", os não leitores chegaram a 53%, tornando-se maioria pela primeira vez na série. 

O número estimado de leitores caiu de 100,1 milhões, em 2019, para 93,4 milhões em 2024: uma perda de aproximadamente 6,7 milhões de pessoas.O Dia Nacional do Escritor, celebrado em 25 de julho, nasceu em 1960, durante o I Festival do Escritor Brasileiro, promovido pela União Brasileira de Escritores. Mais de seis décadas depois, a data encontra um país que continua produzindo literatura em quantidade expressiva, mas ainda não conseguiu transformar essa produção em leitura regular, remuneração consistente e mercado sustentável para a maioria dos autores.

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Porém, no meio de tudo isso, quase um tsunami, há, sim, motivos concretos para comemorar. Em 2025, as editoras brasileiras produziram 45.259 títulos impressos, dos quais 10.663 foram lançamentos ou novos ISBNs. O número de novidades cresceu 4,3% sobre 2024. As vendas das editoras ao mercado chegaram a 185,1 milhões de exemplares e a R$ 4,513 bilhões, com crescimento real de 3,3%, já descontada a inflação. Depois de dois anos negativos — queda real de 5,1% em 2023 e de 1,1% em 2024 —, o setor finalmente apresentou uma recuperação acima da inflação.

Também merece registro a retomada das livrarias. No segmento de Obras Gerais, que reúne boa parte da literatura, as vendas destinadas a esse canal aumentaram 6,1 pontos percentuais em número de exemplares, e a participação das livrarias no faturamento das editoras avançou 4,3 pontos. É uma notícia relevante porque a livraria física continua exercendo uma função que o comércio eletrônico dificilmente reproduz: apresentar ao leitor autores que ele ainda não conhece.

Existe, ainda, uma ampliação objetiva das portas de entrada. A autopublicação, a impressão por demanda e as plataformas digitais reduziram a dependência absoluta das grandes casas editoriais. Levantamento citado pelo PublishNews identificou 23.313 ISBNs registrados por pessoas físicas somente em 2022. O Clube de Autores informava mais de 80 mil títulos e 60 mil autores em sua comunidade, enquanto o Kindle Direct Publishing já contabilizava mais de 200 mil obras publicadas em português. Esses números precisam ser vistos com cautela, pois parte deles é fornecida pelas próprias plataformas, mas demonstram que publicar deixou de ser privilégio exclusivo de quem consegue aprovação numa editora tradicional.

Análise direta sobre produção loiterária brasileira. (MHL/GINAIFT).

 

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A melhora observada em 2025 no consumo não elimina essa contradição. A pesquisa Panorama do Consumo de Livros verificou que 18% da população adulta comprou pelo menos um livro nos 12 meses anteriores, contra 16% em 2024, acréscimo equivalente a cerca de três milhões de compradores. Comprar um livro, porém, não significa necessariamente lê-lo, e o levantamento mede aquisição, enquanto Retratos da Leitura mede comportamento leitor. São indicadores diferentes: o consumo reagiu, mas a base nacional de leitores continua pequena.

 

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Os dados revelam uma característica importante: o Brasil mantém uma produção relativamente estável, próxima de 45 mil títulos anuais, mas aproximadamente três quartos dessa produção são reimpressões. Em 2025, apenas 24% dos títulos foram novidades.

O mercado depende fortemente do catálogo já consolidado, enquanto os novos escritores disputam uma parcela menor da atenção das editoras, dos livreiros, dos algoritmos e dos leitores.

Não existe uma estatística nacional capaz de responder quantos escritores “vencem” entre cada cem lançamentos. O conceito de vitória pode significar vender a tiragem, receber direitos autorais regulares, conquistar crítica, entrar numa lista de mais vendidos ou conseguir viver exclusivamente da escrita. Nenhuma entidade brasileira acompanha de forma contínua a renda individual dos autores, os adiantamentos, as prestações de contas contratuais ou a rentabilidade de cada obra.

É possível, entretanto, construir um indicador comercial rigoroso. Em 2023, o Nielsen BookScan identificou aproximadamente 25 mil livros publicados naquele ano que tiveram alguma venda nos canais monitorados. Somente cinco conseguiram entrar entre os cem livros mais vendidos do país. Isso corresponde a 0,02% dos lançamentos, ou aproximadamente um título para cada cinco mil novidades. Em um grupo de cem lançamentos, estatisticamente, nenhum chegaria ao Top 100 anual. Esse percentual mede livros, e não escritores, e representa uma definição bastante exigente de sucesso comercial, mas oferece uma dimensão real da concentração do mercado.

Há outro sinal preocupante. Os lançamentos de 2023 representaram 12% dos exemplares vendidos e 15,2% do faturamento nos canais acompanhados pelo BookScan. Em meados da década anterior, o peso das novidades se aproximava de 30%. O livro novo, portanto, perdeu espaço para obras de catálogo, clássicos, sucessos antigos recuperados pelas redes sociais e títulos já favorecidos pelos sistemas de recomendação das plataformas.

A relação entre escritores e editoras tornou-se mais plural, mas não necessariamente mais equilibrada. Melhorou o acesso à publicação, porque o autor hoje pode escolher entre a editora tradicional, a autopublicação, a coparticipação financeira, a impressão sob demanda e o livro digital. Piorou, ou pelo menos se tornou mais complexa, a disputa por visibilidade. Quanto mais títulos entram no mercado, maior é o custo para revisar, editar, divulgar, distribuir e manter uma obra disponível. Na autopublicação, o autor preserva maior controle, mas assume boa parte dos riscos financeiros e promocionais. Na edição tradicional, recebe estrutura profissional e distribuição, mas continua sujeito à seleção editorial, ao tempo limitado de exposição e à concentração das campanhas em poucos títulos.

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Não há pesquisa longitudinal que permita afirmar, de maneira estatisticamente segura, que os contratos, os percentuais de direitos autorais ou a satisfação dos escritores tenham melhorado ou piorado no conjunto do país. A conclusão mais honesta é que a relação se diversificou. O poder de publicar foi parcialmente democratizado; o poder de vender, formar público e permanecer no mercado continua concentrado.

 

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Departamento de arte GINAIFT/mhl (Fontes do quadro: Pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro, realizada por CBL e SNEL, com apuração da Nielsen BookData. Os números referem-se principalmente à indústria editorial de livros impressos e não incluem todo o universo independente, artesanal ou informal.).

As pesquisas anuais da CBL, do SNEL e da Nielsen não publicam uma divisão completa dos lançamentos segundo a nacionalidade do autor ou a origem da obra. Portanto, não existe base pública confiável para afirmar quantos dos 10.663 lançamentos de 2025 eram brasileiros, norte-americanos, europeus, asiáticos ou latino-americanos. Qualquer número apresentado como se fosse uma divisão oficial seria especulativo.

Os rankings comerciais, porém, mostram que a literatura estrangeira conserva enorme força. Em 2023, somente dois dos quinze livros mais vendidos eram de autores brasileiros: Café com Deus Pai, de Junior Rostirola, e Tudo é rio, de Carla Madeira. Os outros treze eram estrangeiros, uma participação de 86,7%.

Em 2024, ocorreu uma reação nacional no topo da lista. Quatro dos cinco primeiros títulos eram brasileiros ou produzidos por autores e instituições brasileiras: duas edições de Café com Deus Pai, Novena e festa da Padroeira do Brasil e O poder da autorresponsabilidade. O único estrangeiro entre os cinco primeiros foi É assim que acaba, da norte-americana Colleen Hoover. A lista daquele ano, entretanto, não incluía as vendas da Amazon, o que impede uma comparação direta com 2025.

Em 2025, a presença estrangeira voltou a predominar. Apenas cinco dos vinte livros mais vendidos eram de autores brasileiros: Junior Rostirola, Enaldinho, Clarice Lispector, Raphael Montes e Ana Claudia Quintana Arantes. Os quatro primeiros lugares foram ocupados por livros de colorir da coleção Bobbie Goods, criada pela artista norte-americana Abbie Goveia, da Califórnia. Juntos, os quatro títulos venderam mais de 1,5 milhão de exemplares no varejo monitorado.

Vale dizer que as produções norte-americanas ocupam posições muito fortes nas áreas de ficção comercial, autoajuda, negócios, fantasia jovem e produtos editoriais impulsionados pelas redes sociais. Autores brasileiros apresentam melhor desempenho em segmentos como literatura nacional consolidada, livros religiosos, obras de influenciadores, desenvolvimento pessoal e determinados títulos infantis. O desequilíbrio existe, mas varia conforme o ano, o gênero, a campanha de marketing e o canal de venda.

O principal problema não é a publicação de autores estrangeiros. A tradução amplia o repertório cultural, sustenta empregos editoriais e permite ao leitor brasileiro acompanhar a produção mundial. O problema surge quando a descoberta de livros depende excessivamente de algoritmos, franquias internacionais e campanhas de grande escala, deixando pouca exposição para escritores brasileiros novos, editoras pequenas e produções regionais. O mercado precisa da literatura traduzida, mas também necessita de instrumentos comerciais capazes de apresentar sua própria literatura ao público.

No Dia do Escritor, o Brasil pode comemorar a diversidade de sua produção, a recuperação das vendas em 2025, o retorno das livrarias e a ampliação dos caminhos de publicação. Precisa lamentar a perda de leitores, a redução histórica do mercado, a falta de transparência sobre a renda dos autores e um sistema no qual publicar é relativamente acessível, mas ser encontrado pelo leitor continua extremamente difícil.


C/ orientação editorial de Mhario Lincoln, jornalista e poeta, editor-sênior da Plataforma Nacional do Facetubes

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Raimundo Fontenele Há 1 hora atrásBarra do Corda Maranhão O Brasil? Os brasileiros? Tudo está no Macunaíma: o herói sem nenhum caráter, é isso o que o brasileiro cultua. Nas artes, na literatura, na politica, na vida.
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