Editoria de Literatura e Teatro da Plataforma Nacional do Facetubes c/Mhario Lincoln.
O lançamento coletivo das obras de Jul Leardini, realizado na tarde deste sábado, 25 de julho de 2026, em Curitiba, ultrapassou o formato convencional das sessões literárias. O encontro, promovido na sede do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado do Paraná/SATED-PR), entidade sindical oficial que representa trabalhadores, artistas e técnicos das artes cênicas e do audiovisual em todo o Estado, reuniu literatura, interpretação e reflexão política em torno de uma produção dramatúrgica comprometida com os conflitos do tempo presente. A programação incluiu o lançamento dos livros apresentados no projeto “Dramaturgia de Jul Leardini” e a leitura de trechos das peças diante da plateia convidada.
A realização também evidenciou a importância dos programas de financiamento público para a sobrevivência da produção artística independente. O projeto Dramaturgia de Jul Leardini — Quatro Peças Teatrais Adultas foi classificado no Edital Multiáreas nº 009/2023, na área de Literatura, Livro e Leitura, dentro das ações da Lei Paulo Gustavo executadas pela Secretaria de Estado da Cultura do Paraná. Materiais de divulgação de outras etapas do trabalho registram ainda a participação do Governo do Paraná, do Ministério da Cultura e de mecanismos da Política Nacional Aldir Blanc. O patrocínio cultural, nesse caso, não se limitou à impressão: permitiu circulação, acesso gratuito e aproximação direta entre dramaturgia, atores e público.
No livro 01 Dramaturgia de Jul Leardini (Teatro Adulto) - o prefácio foi escrito pela Dra. Célia Arns de Miranda A editoria aproveitou para colher algumas informações necessárias: a professora começa recordando o primeiro contato com Leardini, em 2007, durante um curso de cinema no Solar do Rosário, destacando a amplitude de conhecimentos do autor em cinema, teatro, filosofia, história da arte e literatura. Essa abertura testemunhal não funciona apenas como homenagem. Ela prepara o leitor para compreender que a dramaturgia de Leardini nasce do cruzamento entre diferentes linguagens, referências intelectuais e experiências práticas. Ao recordar a montagem de O Preso, dirigida pelo próprio autor no Teatro Novelas Curitibanas, Célia identifica uma escrita que não procura oferecer respostas prontas, mas abrir fissuras e obrigar o público a olhar para os mecanismos políticos, sociais e religiosos que organizam a sociedade brasileira.
Em Planctum: uma fábula cínica sobre aranhas, baratas e outros bichos, Célia Arns de Miranda identifica uma rede de referências que aproxima Leardini de Franz Kafka, Clarice Lispector e Oscar Wilde. As personagens Dorinha e Creuza enfrentam conflitos sociais, pressões cotidianas e problemas existenciais até assumirem formas de insetos. A metamorfose não deve ser entendida apenas como fantasia grotesca: representa a sensação de insignificância humana, a rejeição familiar, o medo, o silêncio e a perda da própria identidade. A transformação das mulheres em criaturas repulsivas revela uma sociedade que desumaniza indivíduos antes mesmo de alterar seus corpos.
Destarte, ao relacionar a peça com A Metamorfose, A quinta história, A paixão segundo G.H. e De Profundis, o prefácio demonstra que Leardini não reproduz referências: utiliza-as como novas camadas de sentido para provocar uma leitura ativa.
A quarta linha central do prefácio está na interpretação de Pacto da mediocridade: comédia política surrealista e na reflexão sobre a permanência do teatro no século XXI. O embate entre as personagens Mercado e Cidadão transforma-se em alegoria da luta de classes e da exploração capitalista. Carros luxuosos, mansões, bebidas caras, charutos e corpos convertidos em mercadorias compõem uma visualidade hiperbólica, na qual todas as dimensões da existência são submetidas ao valor de troca. Cartas com palavras como honra, honestidade, ética, respeito e virtude são lançadas ao chão, simbolizando o descarte dos princípios humanistas quando deixam de servir à lógica do lucro. Célia conclui que a força contemporânea do teatro reside justamente na presença física, na materialidade do corpo e na relação direta com o espectador. Ao aproximar Leardini de Bertolt Brecht e Eduardo Galeano, ela situa sua obra em uma tradição latino-americana de denúncia das desigualdades e defesa das vozes historicamente oprimidas.
Por outro lado, vale aqui situar o valor que as esquetes tiveram no contexto geral do encontro. As esquetes retiradas das obras lançadas deram corpo e voz à escrita. Sobressaíram as interpretações bravíssimas de Anídria Stadler, Loana Terra, Orlando Brasil, Gerson Delliano e Brígida Menegatti, artistas que enfrentaram textos densos sem perder o ritmo, a clareza e a tensão dramática. A premiada diretora Lalá Scremin participou por meio de uma gravação de voz incorporada a uma das cenas. Mesmo sem presença física no espaço, sua intervenção integrou-se à encenação como elemento dramatúrgico, reforçando a capacidade do teatro de utilizar diferentes suportes sem abandonar a centralidade da palavra e da atuação. (Sensacional/Aplaudida de pé).
Reforçando mais ainda o momento, a enquete “O Quadrado Amoroso”, interpretada por Anídria Stadler, Orlando Brasil, Brígida Menegatti e Gerson Delliano, mostrou uma cena que começa com um conflito íntimo entre Marcelo e Amanda, dois jornalistas brasileiros vivendo sob repressão política em um país sul-americano. A relação dos dois, sustentada mais pela solidão, pelo exílio e pelas frustrações do que pelo amor, expõe desde o início o desgaste afetivo e a dificuldade de conciliar vida privada, militância e sobrevivência.
O quadrado se completa com Luciana e Rodolfo. Marcelo ainda está emocionalmente ligado a Luciana, enquanto Amanda permanece presa a Rodolfo. Este, por sua vez, convive com Luciana, mas mantém sentimentos por Amanda. Leardini constrói, assim, uma rede de desejos, ressentimentos, cartas, suspeitas e escolhas incompletas. Todos parecem estar com alguém, embora continuem voltados para outra pessoa. O amor surge menos como refúgio e mais como território de disputa, insegurança, posse e contradição.
O sentido brechtiano aparece na alternância entre os dois ambientes e na presença constante das notícias políticas, da repressão, da guerrilha e do exílio. Quando a cena ameaça se transformar apenas em drama sentimental, o contexto histórico invade o espaço privado e obriga o espectador a analisar, e não somente a se emocionar. Marcelo denuncia o autoritarismo, mas reproduz conflitos de poder em sua relação; Rodolfo domina o discurso revolucionário, porém evita assumir responsabilidades afetivas; Luciana e Amanda enfrentam modelos sociais que ainda vinculam a mulher à dependência, à espera e à fidelidade.
E mais ainda: existe uma dimensão filosófico-social da esquete: a tensão entre liberdade e responsabilidade. Os personagens defendem mudanças coletivas, mas tentam atribuir suas escolhas pessoais às circunstâncias, ao exílio, à profissão ou à ideologia. O “quadrado” do título não representa apenas um arranjo amoroso: torna-se uma figura política, formada por indivíduos presos a relações de dependência e culpa enquanto o mundo ao redor atravessa violência e instabilidade. Jul Leardini demonstra que nenhuma transformação social será completa enquanto a liberdade proclamada nos discursos não alcançar também os afetos, os comportamentos e a vida cotidiana.
E quanto às leituras coletivas? essas são por demais importantes. Essas, dramatizadas, são instrumentos importantes para a divulgação e o desenvolvimento de obras teatrais. Elas permitem ouvir a estrutura do texto, perceber o ritmo dos diálogos, testar conflitos e revelar sentidos que nem sempre aparecem na leitura silenciosa. No Paraná, lançamentos anteriores de obras de Leardini já incluíram leituras dramáticas em espaços públicos. Nos Estados Unidos, as chamadas staged readings são adotadas por instituições como o Kennedy Center, festivais e programas de formação, nos quais dramaturgos trabalham com atores, diretores e especialistas antes de receberem a resposta do público. A Dramatists Guild of America também registra diversas séries nas quais peças inicialmente apresentadas em leituras avançam para novas etapas de desenvolvimento e montagem profissional.
Desta forma, o encontro no SATED-PR está dentro do contexto, da modernidade, da seriedade de como se fazer um teatro responsável, como Leardini faz. Ou seja, Jul mostrou que lançar um livro de teatro pode significar muito mais do que exibir capas e distribuir autógrafos. Significa fazer a palavra abandonar a página, ocupar o corpo do ator e alcançar uma comunidade de leitores. Ao unir financiamento cultural, trabalho sindical, interpretação artística, distribuição gratuita e preservação da memória política, Jul Leardini reafirma o teatro como espaço de resistência e debate. Seu esforço para levar essas obras às bibliotecas paranaenses merece aplausos: amplia o patrimônio literário do estado e oferece aos leitores instrumentos para compreender as fissuras, contradições e urgências de seu próprio tempo.
Parabéns, Paraná. Parabéns ao Teatro Brasileiro!
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Jul Leardini é licenciado e graduado em Filosofia pela Universidade Federal do Paraná, com formação em Cinema e Vídeo pela CineTV-PR e pós-graduação em Jornalismo Contemporâneo pela Faculdade Play, de São Paulo. Escritor, dramaturgo e diretor de teatro e cinema, atua também nos campos da ópera, música e artes visuais. Sua trajetória reúne mais de uma centena de produções, além de livros de contos, ensaios filosóficos, estudos cinematográficos, obras infantis e volumes de dramaturgia. Leardini dirige as companhias Êxedra — Pesquisa e Experimentação Teatral e GE’BRECHT — Grupo de Estudos Brechtianos, mantendo uma produção marcada pela pesquisa estética, pela formação multidisciplinar e pelo posicionamento político.
VÍDEO-BÔNUS
A Palavra de Jul Leardini/Orlando Brasil/Gerson Delliano
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