Editoria de Pesquisa e Cinema — Plataforma Nacional do Facetubes c/Mhario Lincoln e Leide Ana Caldas.
A fotografia feita por Paulo Socha, com a câmera programada no disparo automático, registra um capítulo da história do cinema no Maranhão. É novembro de 1986. Cineastas, professores, documentaristas e integrantes do movimento cineclubista estão reunidos em São Luís durante a 9ª Jornada de Cinema e Vídeo no Maranhão, realizada entre os dias 4 e 8 de novembro. O festival havia surgido em 1977 como Jornada Maranhense de Super-8 e não fora realizado em 1985 por falta de financiamento. A retomada ocorreu sob a participação do Departamento de Assuntos Culturais da Universidade Federal do Maranhão, tendo Nerine Lobão e Euclides Moreira Neto entre os nomes ligados à organização daquele período.
A edição de 1986 ajuda a compreender uma mudança de linguagem que acontecia no cinema brasileiro. A documentação do evento registra 20 vídeos concorrentes de vários estados e 23 filmes em Super-8 e 16 mm. As mostras paralelas apresentaram dez filmes em Imagens da Terra, nove títulos de animação, dez vídeos premiados no IV Videobrasil e oito trabalhos do Atelier do NUDOC, da Universidade Federal da Paraíba. Pela primeira vez, a Jornada realizou uma mostra competitiva específica de vídeo. O conjunto revela um festival situado entre duas formas de produção: a película, que sustentara boa parte da experiência cinematográfica independente dos anos anteriores, e o vídeo, que começava a alterar custos, processos de realização, exibição e circulação.
O encontro também funcionava como espaço de articulação do cinema produzido fora dos grandes centros. A programação incluiu o seminário “Política para o Cinema Brasileiro Hoje”, o Encontro de Cineastas e Documentaristas do Norte/Nordeste, o Encontro de Cineclubes do Norte/Nordeste e uma assembleia com cineastas, documentaristas e cineclubistas. Os filmes premiados seguiriam em mostra itinerante para Belém, de 20 a 22 de novembro; Fortaleza, de 26 a 28 de novembro; e Teresina, de 4 a 6 de dezembro. Essa circulação coloca São Luís dentro de uma rede que procurava produzir, discutir e exibir cinema em regiões com acesso restrito aos grandes circuitos de distribuição.
O levantamento realizado pela historiadora Leide Ana Oliveira Caldas, pesquisadora da produção cinematográfica maranhense das décadas de 1970 e 1980, permite identificar parte das pessoas presentes na imagem. Na primeira fila aparecem Paulo Socha, João Cruz, a piauiense Dácia Ibiapina, Nerine Lobão, Lisbeth Oliveira e o cineasta Claudio Faria. Em pé estão, entre outros, Torquato Lima e Elisa Cabral, da Paraíba, Eusélio Oliveira, do Ceará, Nonato Pudim, Euclides Moreira Neto e Hermano de Figueiredo, ligado ao Cineclube Tirol, do Rio Grande do Norte. Ao fundo, Murilo Santos segura um tijolo como se estivesse operando uma câmera. A pesquisa de Caldas, defendida em 2016 no Programa de Pós-Graduação em História da UFMA, analisa exatamente esse ambiente de produção, cineclubismo e circulação que ajudou a constituir uma linguagem cinematográfica própria no Maranhão.
A presença de Eusélio Oliveira amplia a dimensão regional do registro. Professor, cineasta e cineclubista, ele está ligado à criação da Casa Amarela Eusélio Oliveira, da Universidade Federal do Ceará, inaugurada em 1971 e transformada em espaço de formação em cinema, fotografia e animação. O arquivo que leva seu nome reúne hoje cerca de 30 mil documentos, incluindo correspondências, fotografias, recortes de jornais, áudios e vídeos produzidos entre 1971 e 1991. Parte desse material contém comunicações entre cineclubes de diferentes regiões brasileiras. Sua presença em São Luís integra, portanto, uma história maior de intercâmbio entre realizadores do Maranhão, Ceará, Piauí, Paraíba e Rio Grande do Norte.
Murilo Santos ocupa outro ponto importante daquela Jornada. Seu documentário “Quem matou Elias Zí?”, concluído em 1986, tem cerca de 15 minutos, foi filmado em 16 mm e recebeu premiação do júri popular naquela edição. O filme reconstrói o assassinato do líder camponês Elias Zí Costa Lima e emprega animações realizadas por Joaquim Santos, com referências visuais próximas à xilogravura de cordel. O cinema aparece ali como documento, narrativa e intervenção social. Na mesma edição, Na Terra de Caboré, também dirigido por Murilo Santos, recebeu reconhecimento entre os trabalhos apresentados. O percurso do diretor mostra como a geração reunida naquela fotografia transformava conflitos agrários, cultura popular, comunidades indígenas e vida social maranhense em matéria cinematográfica.
Com um olhar pós quatro décadas depois, a 9ª Jornada ocupa uma posição definida na evolução do festival. O evento iniciado em 1977 passou por diferentes denominações conforme mudavam os formatos de produção e exibição. Em 1990, incorporaria o nome Guarnicê de Cine-Vídeo; em 2002, passaria a ser chamado Festival Guarnicê de Cinema. A edição de 1986 fica no centro dessa transformação. Ela preservava películas em Super-8 e 16 mm, incorporava a competição em vídeo e mantinha a universidade como espaço de formação, debate e circulação cinematográfica. O atual Guarnicê, realizado pela UFMA, chega em 2026 à sua 49ª edição, mantendo uma trajetória iniciada naquele movimento universitário dos anos 1970.
A fotografia de Paulo Socha ultrapassa, assim, a função de lembrança de um festival. Ela documenta pessoas que estavam construindo um sistema de cinema onde ainda havia pouca estrutura de produção e circulação. Há realizadores diante da câmera, organizadores, pesquisadores, professores e cineclubistas. Há representantes de vários estados do Nordeste. Há película, vídeo, universidade, movimento cultural e debate político sobre o audiovisual. O valor da imagem está nessa convergência. O cinema maranhense de 1986 aparece reunido diante de uma câmera automática justamente no momento em que começava a mudar de suporte, ampliar suas fronteiras e preparar a etapa seguinte de sua própria história.
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Colaboradora: LEIDE ANA CALDAS - Professora de História do Ensino Básico, Técnico e Tecnológico no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão (IFMA), no Campus Barreirinhas.e Historiadora (Registro Profissional de Historiadora sob o n.º 0000051/MA). Doutoranda pelo Programa Acadêmico de Pós-Graduação em História na UFMA. Pesquisa Cinema no Maranhão nas décadas de 1970-1980. Mestra em História Social pela Universidade Federal do Maranhão. Defesa e aprovação da Dissertação no dia 29/11/2016 com o tema: O SUPEROITISMO NO MARANHÃO: os modos de fazer, temas e formas de falar e a invenção do cinema local como prática de micro resistências (1970/80) do Programa de Pós-Graduação do Mestrando acadêmico em História Social da Universidade Federal do Maranhão e bolsista da CAPES . Pós-Graduação- Especialização em Cinema e Linguagem Audiovisual pelo Centro Universitário Estácio (2025). Pós-Graduação em Especialização em História do Maranhão pela Universidade Estadual do Maranhão (2012). Graduação em História- Licenciatura Plena pela Universidade Federal do Maranhão (2004). Foi professora titular da Rede Estadual de Ensino (Ensino Médio) do Estado do Maranhão de 2004 a 2017. Tem experiência em docência no Ensino Superior na área de História, com ênfase em História Moderna e Contemporânea no Programa de Qualificação Docente pela Universidade Estadual do Maranhão. Pesquisa na área de História e Cinema com ênfase na produção de cinema no Maranhão na década de 1970/80. Coordenou o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (NEABI) do IFMA-Campus Coelho Neto no Maranhão (2018-2022). Foi Primeira Secretária da Associação Nacional de Profissionais de História (ANPUH) Seção Maranhão no biênio 2021/2022. Sócia da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual- SOCINE. É pesquisadora do Grupo de Pesquisa NEABI/IFMA da CNPQ. É pesquisadora do Grupo de Pesquisa Cinema e Audiovisual: circularidades e formas de comunicação da CNPQ.
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Fontes principais consultadas: Universidade Federal do Maranhão — Repositório de Teses e Dissertações: Leide Ana Oliveira Caldas, Superoitismo no Maranhão: os modos de fazer, temas e formas de falar e a invenção do cinema local como prática de micro resistências (1970/80), dissertação de Mestrado em História, UFMA, 2016. Consultar no repositório da UFMA Universidade Federal Fluminense — PPGCine: tese de Andreia Lima, com reprodução documental do cartaz, programação, datas, locais, número de filmes e atividades da 9ª Jornada de 1986. SOCINE — Anais Digitais: estudo sobre a memória, formação e trajetória histórica do Festival Guarnicê de Cinema. Festival Guarnicê/UFMA: documentação institucional sobre a origem do evento em 1977 e sua trajetória até a 49ª edição, em 2026. Casa Amarela Eusélio Oliveira/UFC: histórico institucional e Arquivo Eusélio Oliveira, com aproximadamente 30 mil documentos referentes ao período de 1971 a 1991. REVER — Revista de Estudos da Religião: estudo de Euclides Santos Mendes, José Ferreira Junior, Milene Silveira Gusmão e Rose Panet sobre a produção cinematográfica de Murilo Santos e Quem matou Elias Zí?.
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