Plataforma Nacional do Facetubes — Editoria de Literatura, História, Pesquisa e Extensão.
O filme A Odisseia, de Christopher Nolan, colocou novamente o poema de Homero no centro das discussões culturais. No Brasil, porém, essa história possui um capítulo ainda pouco conhecido. No século XIX, o maranhense Manuel Odorico Mendes enfrentou o desafio de traduzir os grandes poemas homéricos para a língua portuguesa. O trabalho foi tão singular que ele passou a ser lembrado como “o homem que recriou Homero”.
Nascido em São Luís, em 24 de janeiro de 1799, Odorico Mendes foi jornalista, poeta, parlamentar, servidor público e tradutor. Depois de se transferir para a Europa, concentrou-se na tradução dos clássicos greco-latinos. Traduziu a obra poética de Virgílio e, em seguida, dedicou-se à Ilíada e à Odisseia, os dois grandes poemas atribuídos a Homero.
Seu projeto representou um dos primeiros esforços de tradução integral da poesia épica clássica para o português com base nos textos antigos. A tradução da Ilíada foi publicada em 1874. A Odisseia, embora concluída no século XIX, chegou ao público em livro somente em 1928, 64 anos depois da morte de Odorico. A edição foi lançada pela Livraria Leite Ribeiro, no Rio de Janeiro, com prefácio do também maranhense Humberto de Campos.
Em 1992, a tradução recebeu uma edição anotada, organizada pelo professor Antonio Medina Rodrigues e publicada pela Ars Poetica, em parceria com a Editora da Universidade de São Paulo. O trabalho ajudou a recolocar Odorico Mendes no debate acadêmico e literário brasileiro.
Odorico não traduziu a Odisseia em prosa. Recriou os 24 cantos em decassílabos brancos, versos de dez sílabas sem rima, seguindo uma tradição épica que, em português, tinha como grande referência Luís de Camões. A escolha exigia condensar frases, mudar a ordem das palavras e encontrar soluções curtas para expressões gregas que, em uma tradução mais literal, ocupariam várias linhas.
O início da obra mostra imediatamente esse método:
“Canta, ó Musa, o varão que astucioso,
Rasa Ílion santa, errou de clima em clima,
Viu de muitas nações costumes vários.”
Odorico Mendes não pretendia traduzir Homero palavra por palavra. Queria criar um poema com força própria em português. Por isso, empregou frases invertidas, palavras antigas, termos de origem latina e expressões compostas, como “Aurora dedirrósea”, “olhicerúlea” e “flutívaga nau”. Com essas construções, buscava reunir em poucas palavras imagens que Homero repetia ao apresentar personagens, paisagens e acontecimentos.
O tradutor também preferiu os nomes latinos dos heróis e dos deuses. Odisseu tornou-se Ulisses; Zeus, Júpiter; Posídon, Netuno; e Atena, Minerva. Essa escolha era comum entre estudiosos formados pela tradição clássica latina. Para o leitor atual, mais familiarizado com os nomes gregos, ela pode causar estranhamento.
Vale ressaltar que as notas deixadas por Odorico mostram que suas decisões eram pensadas e justificadas. Ele comparava traduções francesas e italianas, recorria a Camões, estudava Virgílio e criava palavras quando considerava que o português não oferecia uma solução capaz de manter a força e a concisão do texto original. Uma de suas referências foi o italiano Ippolito Pindemonte, tradutor da Odisseia no início do século XIX.
Mas, bom lembrar: a obra de Odoridco Mendes, contudo, dividiu a crítica brasileira. Sílvio Romero, um dos principais historiadores literários do século XIX, atacou duramente as traduções. Considerou algumas soluções “falsas, contrafeitas, extravagantes” e chegou a classificá-las como “verdadeiras monstruosidades”. Para ele, os vocábulos compostos, as inversões e a concentração das frases prejudicavam a clareza e afastavam o leitor.
Mas, no século XX, Haroldo de Campos (1929–2003 - um dos mais importantes poetas, tradutores, ensaístas e críticos literários do Brasil, celebrado mundialmente como um dos fundadores do movimento da poesia concreta), reviu esse julgamento. Definiu Odorico Mendes como “um pioneiro da tradução criativa” e identificou em seu trabalho uma antecipação do conceito de “transcriação”. Nessa perspectiva, "(...) traduzir não significa apenas copiar o original, mas reconstruí-lo artisticamente em outra língua". Haroldo, no entanto, também reconheceu excessos, especialmente em alguns compostos e inversões sintáticas.
É essa tensão que mantém a Odisseia de Odorico Mendes viva no debate. A tradução não é a mais simples para quem deseja apenas acompanhar as aventuras de Ulisses. Exige leitura lenta, atenção ao ritmo e consulta às notas. Em troca, oferece um documento fundamental da história da tradução brasileira e uma experiência radical de transformação da língua portuguesa.
Odorico Mendes não apenas trouxe Homero para o português. Ele colocou a língua diante de seus próprios limites e mostrou que um tradutor também pode ser autor. No Maranhão do século XIX, a cultura clássica deixou de ser apenas herança europeia e passou a integrar, de forma original, a história literária do Brasil.
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Fontes consultadas: Biblioteca Nacional, Biblioteca do IBGE, Biblioteca Digital do Senado Federal, Academia Maranhense de Letras, Câmara dos Deputados, Biblioteca Digital de Literatura de Países Lusófonos da UFSC, Universidade Federal de Minas Gerais, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Universidade de São Paulo e Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Supervisão-Geral: Mhario Lincoln, jornalista e poeta, editor-sênior da Plataforma Nacional do Facetubes.
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Fontes consultadas: Biblioteca Nacional, Biblioteca do IBGE, Biblioteca Digital do Senado Federal, Academia Maranhense de Letras, Câmara dos Deputados, Biblioteca Digital de Literatura de Países Lusófonos da UFSC, Universidade Federal de Minas Gerais, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Universidade de São Paulo e Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.
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