Eloy Melonio
A crônica "Uma dupla (quase) perfeita", do meu livro “Trinta crônicas a mil por hora” (Editora Terra Cultural/2026), traz um título tão coerente quanto um casal de argentinos dançando tango. Ou, como diz um velho amigo meu, "uma dupla de dois” que é o maior barato. E é assim mesmo. Por isso, esse gozador de plantão está perdoado por essa redundância de lascar. Num enredo gramatical, as personagens são os pronomes “eu e mim”. E, se posso dar um spoiler, eles se entendem muito bem no cenário pronominal.
Em se tratando de temática da vida real, a crônica que você está lendo não é uma novela de tevê. Ao contrário, ela se passa no nosso inconsciente, no burburinho do dia ou no silêncio da noite. Especialmente, naquele momento em que refletimos nosso pensamento pelo canal suave da voz interior.
No poema que dá título ao meu primeiro livro (Dentro de Mim/2015), o “eu lírico” já revelava sua vocação (e de muita gente também). Depois de explicitar sua inquietação interior, a última estrofe arremata: “Dentro de mim/ existe um eu que me diz/ quem eu sou/ mesmo quando penso/ que não sou quem realmente sou”. “Loucura! Loucura!”, diria um desvairado num insight de lucidez.
Resumidamente, esse “eu”, segundo o Dr. Ruy Palhano, professor e médico psiquiatra — citando Freud —, “está num sistema triaxial (ego, id e superego) em que um conversa com o outro. Nessa estrutura do aparelho psíquico, a pessoa fala consigo mesma numa voz que quase não se ouve”. E ressalta: “Algumas doenças psiquiátricas podem apresentar esse fenômeno”.
Preciso revelar que essa dupla (eu e mim) nos acompanha por toda a vida. Percebi isso numa segunda-feira, no balcão da padaria do meu bairro. Como me demorei a fazer o pedido, a atendente interferiu: “Senhor, o seu pedido, por favor!”. Um tanto desligado, respondi-lhe: “Ah... Um pão francês, por favor”. Acho que essa foi a primeira vez que comprei apenas “um pão” em toda a minha vida. E a demora resultou de uma conversa interior enquanto estava na fila: “Um ou dois pães?” “Acho que só um.” “Será suficiente?” “Acho que sim. Eu só como a metade de um pão; minha mulher também.” “Pois é, e, ultimamente, o segundo pão sempre termina no lixo.” “Melhor sobrar do que faltar.” “Sei não! Acho que só um pão basta”. “OK. Se acha melhor assim...”.
Como já disse, dependendo do ambiente, essa conversa interior pode ser silenciosa ou falada. Sozinho, em minhas caminhadas matinais, falo e converso, converso e falo. Nalgumas madrugadas, acordado, entrego-me aos meus pensamentos, geralmente dialogados. E pasme! Muitas dessas conversas resultam em decisões favoráveis à minha saúde, aos meus relacionamentos, à minha vida artística.
Por causa disso, uma breve conversa com o psiquiatra citado, deixou-me aliviado. Sabe por quê? Quem fala sozinho é, geralmente, tido como louco. Ouve-se por aí: “O Beto tá pirado. Vive falando sozinho”. Lembro-me de minha inquietação numa visita a uma clínica psiquiátrica em que o falatório que eu ouvia não era conversa entre os doentes, mas falas individuais, isoladas. Aí, sim, “sanatório geral”, como canta Chico Buarque em “Vai Passar” (1984).
E, por falar em loucura, resgatei (com ajuda da IA) uma das crônicas de José Sarney que eram publicadas às sextas-feiras na Folha de São Paulo, e reprisadas em O Estado do Maranhão, no domingo seguinte. Nesta, de 24 de dezembro de 2004 (“Rei dos homens é um menino”), nosso ex-presidente fala desse que foi um dos “loucos” mais populares e mais queridos de nossa cidade: “(...) era um homem alto, magro (...), de uns olhos vermelhos que diziam da inquietação e alucinações que lhe iam na alma. Ele mesmo se chamava Rei-dos-Homens e usava várias roupas, uma em cima da outra (...). Dizia-se enviado de Deus, fazia previsões de que o mundo ia acabar (...). Pobre Rei-dos-Homens. Vivia o seu mundo e não era entendido”.
Com quem falava Rei dos Homens? Com o vento, com os vultos que passavam por ele? Muitas vezes, com ele mesmo, e em voz alta. Outro louco era este, de “Versos de um Simples” (Guimarães Rosa, p. 35): “Um dia num alfarrábio/ Eu li que um louco vivia, / Toda a noite e todo o dia, / Uma estátua a namorar”. Como diziam os antigos: “Doido não é como bom!”
Nesse enredo em que um pode ser dois, “nossa novela” da vida real ganha contornos poéticos nos versos do poema “Traduzir-se”, de Ferreira Gullar: “Uma parte de mim/ é todo mundo;/ outra parte é ninguém”. “Uma parte de mim/ é multidão:/ outra parte estranheza e solidão”. “Uma parte de mim é só vertigem;/ outra parte, linguagem”.
Sem nada mais a dizer, fico por aqui. Mais tarde, quem sabe falando com os meus botões, possa curtir alguma cena dessa novela que não é apenas minha, mas de todos nós, seres pensantes e falantes.
[ eloy melonio, 27-7-2026 ]
Mín. 14° Máx. 26°
Mín. 15° Máx. 27°
Chuvas esparsasMín. 15° Máx. 20°
Chuvas esparsas
AUGUSTO PELLEGRINI Augusto Pellegrini: As Cores do Swing - Andy Kirk e Art Ensemble of Chicago
ACADEMIA POÉTICA BRASILEIRA Programa de estreia em rede internacional: USA, América Latina e Caribe, com Chiquinho França
Coronel Carlos Furtado “Os Muros que ensinam a Sonhar”, por Cel. CARLOS FURTADO
Coluna de RUY PALHANO Dr. Ruy Palhano: “Implicações biológicas e psicossociais do choro humano”