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O que tem Wole Soyinka que encanta tanto o leitor brasileiro de várias classes sociais?

WOLE Soyinka pertence ao grande momento internacional das literaturas pós-coloniais.

06/08/2026 18h14
Por: Mhario Lincoln Fonte: Plataforma Nacional do Facetubes - Editoria de Literatura e Arte
Arte: mhl/ginaift
Arte: mhl/ginaift

Plataforma Nacional do Facetubes - Editoria de Literatura e Arte

Em julho de 2026, Wole Soyinka completou 92 anos. A data coincide com outra marca expressiva: quatro décadas de sua consagração como primeiro escritor africano a receber o Prêmio Nobel de Literatura. Dramaturgo, poeta, romancista, ensaísta e ativista político, Soyinka não é propriamente um filósofo acadêmico, mas sua literatura construiu um pensamento vigoroso sobre liberdade, responsabilidade individual, autoritarismo, racismo e dominação cultural.

A Academia Sueca concedeu-lhe o Nobel, em 1986, por uma obra capaz de representar, com amplitude cultural e intensidade poética, o “drama da existência”. Soyinka nasceu em uma família humilde de origem iorubá em Abeocutá, Nigéria. Então, há razões para que Soyinka seja aplaudido neste país? Sim Há uma forte conexão mais que necessária entre Soyinka e o Brasil atual.

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Tudo por razão dos temas: a persistência das desigualdades raciais e da dificuldade de o país reconhecer a África como uma das matrizes centrais de sua inteligência cultural.  A legislação brasileira tornou obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana nas escolas, mas a própria criação de novas políticas educacionais pelo Ministério da Educação demonstra que a aplicação dessa orientação ainda exige formação de professores, material pedagógico e mudança institucional. Não se trata apenas de incluir personalidades negras em datas comemorativas, mas de compreender filosofias, sistemas políticos, literatura e formas de conhecimento produzidas no continente africano.

(GinaiFT/mhl).

 

Essa necessidade torna-se mais evidente diante dos números brasileiros. Dados divulgados pelo IBGE em dezembro de 2025 mostraram que o rendimento médio por hora das pessoas brancas ocupadas era de R$ 24,60, enquanto pretos e pardos recebiam, em média, R$ 15,00. O dado revela que o passado colonial não permanece apenas nos livros de História: ele continua distribuindo oportunidades, rendimentos, prestígio e vulnerabilidades. O colonialismo pode terminar juridicamente e sobreviver socialmente, convertido em hierarquia econômica, apagamento cultural e naturalização das desigualdades.

Assim, Soyinka que pertence ao grande momento internacional das literaturas pós-coloniais, ganhou força após as independências africanas, sobretudo entre as décadas de 1950 e 1970. Escritores como Chinua Achebe, Ngũgĩ wa Thiong’o, Léopold Sédar Senghor, Aimé Césaire e o próprio Soyinka passaram a disputar o direito de narrar sociedades anteriormente descritas quase exclusivamente pelo olhar europeu. Mas Soyinka recusou uma literatura africana reduzida à simples resposta ao colonizador. Sua dramaturgia aproxima mitologia iorubá, tragédia grega, poesia ritual, sátira política e teatro moderno. Em vez de substituir uma cultura dominante por outra visão igualmente fechada, ele construiu uma linguagem na qual diferentes tradições entram em tensão sem que a experiência africana perca sua autonomia.

(Divulgação).

A obra que melhor representa essa dimensão é “A morte e o cavaleiro do rei”, publicada em 1975 e encenada no ano seguinte. Inspirada em um acontecimento ocorrido na Nigéria colonial, a peça acompanha Elesin, cavaleiro de um rei iorubá morto, que deve cumprir um ritual destinado a restabelecer a continuidade espiritual entre os vivos, os ancestrais e a comunidade. Um administrador britânico intervém para impedir o ato, convencido de que está defendendo a civilização. A tragédia, porém, não nasce apenas da interferência colonial. Ela surge também das hesitações, desejos e falhas humanas de Elesin. Por isso, Soyinka rejeitou a interpretação simplista de que a peça representaria somente um “choque de culturas”. O verdadeiro conflito envolve poder, arrogância, dever coletivo, liberdade individual e a incapacidade de uma autoridade estrangeira reconhecer aquilo que não compreende.

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O tema: A Morte e o Cavaleiro do Rei é uma peça de Wole Soyinka baseada em um incidente real que ocorreu na Nigéria durante a era colonial : o cavaleiro de um rei iorubá foi impedido de cometer suicídio ritual pelas autoridades coloniais. Além da intervenção das autoridades coloniais, Soyinka questiona a própria convicção do cavaleiro em relação ao suicídio, apresentando um problema que desestabiliza a comunidade.

É exatamente nesse ponto que a obra conversa com o Brasil. Durante séculos, conhecimentos africanos, indígenas e populares foram tratados como superstição, folclore menor ou atraso, enquanto referências europeias recebiam automaticamente o estatuto de cultura universal. O administrador colonial da peça acredita possuir autoridade para definir quais ritos são aceitáveis, quais valores são civilizados e quais vozes podem ser ouvidas. No Brasil, esse mecanismo reaparece quando a tradição africana é lembrada apenas como festa, culinária ou espetáculo, mas raramente reconhecida como pensamento, filosofia, literatura e interpretação do mundo.

Soynka. (releitura GinaiFT/mhl).

A reflexão de Soyinka não propõe aceitar qualquer tradição sem crítica. Sua obra mostra justamente que nenhuma cultura deve ser colocada acima do exame moral. Entretanto, a crítica legítima precisa nascer do conhecimento e do diálogo, não da superioridade previamente declarada. Essa distinção é decisiva para o debate brasileiro: descolonizar o olhar não significa negar a cultura europeia, mas abandonar a ideia de que somente ela possui profundidade, racionalidade e valor universal. Significa permitir que o Brasil reconheça a África não como um capítulo periférico de sua formação, mas como parte constitutiva de sua língua, religiosidade, sensibilidade, música, literatura e organização social.

Destarte, ler Wole Soyinka no Brasil, portanto, não é realizar uma viagem exótica pela literatura africana. É olhar para nossas próprias instituições, escolas e bibliotecas.

É para perguntar quem ainda possui o direito de interpretar o país e quais vozes continuam sendo apresentadas como secundárias. Sua obra mais importante ensina que a tragédia começa quando o poder confunde desconhecimento com autoridade. E talvez essa seja sua mensagem mais urgente para o Brasil contemporâneo: nenhuma sociedade será verdadeiramente democrática enquanto parte de sua memória continuar sendo tolerada, mas não plenamente reconhecida.

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Com supervisão do jornalista Mhario Lincoln

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