
ESMERALDA COSTA*
(Edição Especial de Aniversário)
Trinta e um de maio de 2026 e a nossa Coluna Cordel Brasileiro Celebra o seu quarto aniversário, mas quem ganha o presente é você, caro leitor! Nesta edição trazemos para você um breve editorial sobre a evolução das capas de cordéis, uma entrevista com o grande escritor, poeta, cordelista e pesquisador de Literatura de Cordel e do Folclore Brasileiro, Marco Haurélio. Trazemos também as biografias de Marco Haurélio e da sua grandiosa parceira e xilogravadora Lucélia Borges. Boa leitura!
EVOLUÇÃO DAS CAPAS DE CORDÉIS
Das capas cegas (sem imagens, apenas com o nome da obra e do autor), dos primeiros folhetos às vibrantes composições digitais da atualidade, a evolução das capas de cordel revela muito mais do que mudanças estéticas: revela a própria trajetória cultural do povo nordestino. Inicialmente marcadas apenas por títulos e ornamentos tipográficos, as capas passaram a incorporar desenhos populares, litogravuras, zincogravuras, fotografias e, sobretudo, a xilogravura, que se consolidou como símbolo maior da identidade visual do cordel.
Ao longo do tempo, essas ilustrações deixaram de ser simples adornos para se tornarem elementos narrativos e semióticos, dialogando diretamente com o conteúdo dos folhetos e aproximando leitores de diferentes gerações. A xilogravura, antes vista apenas como recurso acessível de impressão, transformou-se em patrimônio artístico e cultural, ultrapassando as páginas do cordel para ocupar galerias, objetos decorativos e espaços midiáticos.
Hoje, em plena era digital, as capas continuam se reinventando sem abandonar suas raízes populares. Cores, animações, vídeos e novas mídias ampliam o alcance do cordel, mantendo viva uma tradição que atravessa séculos e permanece em constante diálogo com o presente. Assim, cada capa de cordel é não apenas uma porta de entrada para a poesia popular, mas também um testemunho visual da memória, da criatividade e da resistência cultural brasileira.
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Entrevista com Marco Haurélio (Poeta cordelista, escritor professor e Pesquisador de Literatura de Cordel e do Folclore Brasileiro)
Perguntas sobre Literatura de Cordel
1 - Como o senhor define a importância da literatura de cordel para a preservação da cultura popular brasileira?
Sem a literatura de cordel seríamos culturalmente mais pobres, espiritualmente mais fracos e socialmente menos letrados. O que se convencionou chamar de literatura de cordel é um conjunto caleidoscópico de poemas que sintetiza, sem delimitar, uma vastidão de histórias dos mais diferentes lugares às quais cada autor, cada autora, imprimiu a sua marca. O cordel é a encruzilhada onde o inconsciente individual se encontra com o inconsciente coletivo.
2 - De que forma as histórias ouvidas na infância com sua avó influenciaram sua trajetória como pesquisador e cordelista?
De forma incontornável. Minha avó Luzia foi a melhor contadora de histórias que conheci. Ela passava horas contando histórias sem repetir uma sequer. Os gestos, a mudança no tom, a voz de cada personagem, contos maravilhosos evocando diferentes eras, tudo isso fazia parte de seu vasto repertório. Além disso, ela guardava, com muito carinho, na gaveta de um armário, vários clássicos do cordel. Alguns, como a História da Princesa Rosa, ela sabia de cor. E amava as histórias dramáticas, como Dimas e Madalena, Os olhos de dois amantes por cima da sepultura e O cachorro dos mortos.
3 - O cordel nasceu da oralidade popular. Na sua visão, como manter viva essa tradição em tempos digitais?
A literatura como um todo nasce da oralidade. Cecília Meireles que, além de notável poeta, foi uma importante folclorista, afirmava que, antes da escrita, já existia a literatura, que ela define como uma atividade intelectual que se manifesta por meio da palavra. Mas o cordel está mais próximo da oralidade que o moderno romance, por exemplo. E, acredito, se manterá vivo, conciliando letra e voz, difusão e performance, seja em uma roda de conversa, seja em um canal do YouTube.
4 - Qual o papel da escola na valorização e difusão da literatura de cordel entre crianças e jovens?
Há quem questione essa nova fase da literatura de cordel e sua aproximação da escola, por não compreender os processos dinâmicos que movem e dão sentido às manifestações culturais. Vale dizer que a literatura infantil praticamente nasce junto com a pedagogia no século XVIII. O cordel, por outro lado, se aproximou do ambiente escolar bem recentemente, embora, desde os anos 1950, com o grande Rodolfo Coelho Cavalcante, já houvesse uma movimentação nesse sentido.
5 - O senhor acredita que o cordel ainda sofre preconceito dentro do meio acadêmico e literário? Por quê?
Com certeza. No meio acadêmico, por pura ignorância. Os temas do cordel, combinados e recombinados, dialogam com os contos das Mil e Uma Noites, com os Contos de Grimm, com a mitologia clássica, ao tempo em que absorve e reinterpreta a cultura sertaneja e as matrizes que a constituem. No meio literário, por pedantismo, mas, igualmente, por ignorância. Muitos só falarão sobre cordel se o gênero houver sido apropriado por autores ditos cultos. Leandro Gomes de Barros é mais lido que 90 % dos poetas brasileiros, de qualquer época, sem apoio institucional e sem o marketing agressivo e até mesmo predatório de algumas editoras atuais.
6 - Em sua experiência como pesquisador do folclore brasileiro, quais temas populares aparecem com mais frequência nos cordéis tradicionais?
Eu elenquei, na matéria narrativa do cordel, alguns tipos e motivos prevalentes: veremos muitas histórias de encantamento, com fundo mítico ou iniciático, em que o herói ou a heroína sai de casa em busca de um medicamento maravilhoso ou de sua cara-metade. Histórias da esposa caluniada expressam, nos cordéis novelescos, as dificuldades por que passavam as mulheres, mesmo na nobreza, como é o caso de Genoveva de Brabante, em um mundo dominado por homens e pelos jogos de poder por eles estabelecidos. Temos histórias jocosas, com personagens como João Grilo, Cancão de Fogo, Pedro Malazarte etc., que trazem figuras contrastantes com a imagem cristalizada do herói. São figuras burlescas que, por meio de truques e artimanhas, buscam inverter os papéis numa sociedade profundamente estratificada e desigual. Temos, claro, o cangaço, visto sob uma ótica inicialmente mitologizada e depois mais realista, e as histórias do ciclo do boi, que resumem a epopeia de ocupação, melhor seria dizer, de usurpação, do interior nordestino.
7 - Como o senhor percebe a renovação da literatura de cordel nas novas gerações de escritores?
Eu vejo com muitos bons olhos. Há bons e maus cordelistas, como houve desde a época de Leandro, mas acredito que a qualidade sempre se sobressairá. Por outro lado, temos uma enxurrada de cordéis pedagogizantes, talvez devido a uma interpretação errônea do tipo de leitura mais adequada para os pequenos leitores ou para os leitores em formação. Esse tipo de literatura moralista também infectou, por muitos anos, a literatura infantil, e há um manancial teórico que mostra como a criatividade nos salvou dessa malta “bem-intencionada”. Cordel, como qualquer outro gênero, precisa encantar o leitor e, nesse ponto, sempre voltamos às narrativas orais, que Luís da Câmara Cascudo definia como nosso primeiro leite intelectual.
8 - Entre a pesquisa folclórica, a escrita literária e a atuação editorial, qual dessas experiências mais contribuiu para sua formação como autor?
Eu acredito que a pesquisa folclórica, que eu rebatizaria como pesquisa das poéticas da voz, dão maior amplitude ao trabalho que realizo há mais de 20 anos. Tanto a escrita literária como o trabalho no meio editorial derivam desse esforço sempre renovado de apresentar a um público já totalmente apartado desse universo a beleza das tradições que formam a base do que chamamos, não sei e apropriadamente ou não, de identidade.
Perguntas sobre Cordel e Xilogravura
9 - A xilogravura se tornou uma marca visual do cordel. Como surgiu historicamente essa ligação entre imagem e poesia popular?
Deve-se levar em conta que, somente nos anos 1950, com a transferência da empresa gráfica de João Martins de Athayde do Recife para Juazeiro do Norte, que a xilogravura realmente ganhou força no cordel. Claro que, desde 1907, com exemplos que conformam a exceção e não a regra, já havia capas ornadas com xilogravuras. As de Alvaro Barbosa, o ABA, o artista que deu forma ao Pavão Misterioso, eram belíssimas. Mas a valorização da xilo é coisa muito recente, e esse reconhecimento vem muito mais dos meios urbanos e do meio acadêmico.
10 - Qual a importância da xilogravura para despertar o interesse do leitor antes mesmo da leitura do folheto?
A mesma de qualquer outra identidade visual que tenha a marca de seu artista, sejam os cordéis coloridos da Luzeiro, sejam as belíssimas capas da extinta Guajarina de Belém. É certo que artistas que ganharam uma aura mítica, como J. Borges, encurtam o caminho entre o que está na capa e o que está no bojo do folheto. O mesmo se pode dizer de Dila, Stenio Diniz, Marcelo Soares, Costa Leite e muito mais gente boa.
11 - Como é trabalhar em parceria com a xilogravadora Lucélia Borges na construção de obras ligadas à tradição popular?
Lucélia começou relativamente recente, em 2017, depois de passar por um grave problema de saúde. Ela não começou com a intenção de fazer carreira, mas sim de explorar o potencial de cura que, sabemos, existe em toda manifestação artística. O primeiro poeta a encomendar uma capa a ela foi Pedro Monteiro: uma xilo retratando o Cabeça de Cuia, a mais famosa assombração do Piauí. Em 2018, já confiante em seu talento, ela ilustrou três livros, incluindo um de minha autoria, A jornada heroica de Maria, lançado em 2019, que recebeu alguns prêmios importantes. Fizemos outros livros juntos, incluindo uma coletânea de contos populares também premiada, Contos encantados do Brasil. Juntos, fizemos três livros que foram aprovados no PNLD Literário 2024. Então, temos uma sintonia muito boa. Lucélia é muito meticulosa e só inicia um trabalho depois de dias de pesquisa. Por vezes isso se choca com a pressa industrial imposta por algumas editoras, mas ela tem sido fiel à ideia de que a qualidade não nasce da pressa, mas da paciência, do cuidado e do respeito.
12 - O senhor acredita que a xilogravura também conta histórias, assim como os versos do cordel? De que maneira?
Sem dúvida, toda imagem, seja ela esculpida, pintada ou gravada, conta histórias. Pegue, por exemplo, qualquer capa de A chegada de Lampião no inferno. Ela não dá uma ideia da história em sua totalidade, mas o seu fulcro está todo lá. É por isso que existem livros somente com imagens. A imagem não pode ser apenas a reprodução visual do texto. Precisa ir além disso. Mas, hoje, é praticamente impossível um cordel sem uma boa capa – com ou sem xilogravura – chamar a atenção do leitor.
Marco Haurélio
Escritor, professor e divulgador das tradições populares, tem mais de 50 títulos publicados, a maior parte voltada à literatura de cordel. Dedica-se à recolha, estudo e salvaguarda dos gêneros da tradição oral (contos, lendas, poesia, orações), tendo publicado vários livros, como Contos folclóricos brasileiros, Contos e fábulas do Brasil e Contos encantados do Brasil. Seus livros foram selecionados pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) para o Catálogo da Feira do Livro Bolonha, Itália, e receberam distinções como os selos Seleção Cátedra-Unesco (PUC-Rio) e Altamente Recomendável (FNLIJ). Finalista do Prêmio Jabuti em 2017, mestre em Teoria e História Literária (Unicamp), doutorando em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa (USP), estuda as relações do cordel com a tradição oral, profere palestras e ministra cursos sobre cultura popular, mitologia e contos de fadas em espaços os mais diversos. Curador do evento Encontro com o Cordel (Sesc 24 de Maio, 2018) e cocurador da expografia Vidas em Cordel, do Museu da Pessoa, que já percorreu várias cidades brasileiras.
Eis alguns links onde o leitor poderá adquirir obras do poeta cordelista e pesquisador Marco Haurélio:
Antologia do cordel brasileiro
Literatura de Cordel: do Sertão à Sala de Aula
O dragão da maldade e a donzela guerreira - Palavras Educação https://share.google/e96VvC8EjYy3xdstU
Lucélia Borges
Nasceu em Bom Jesus da Lapa, sertão baiano, e viveu até os 20 anos em Serra do Ramalho, criada por seus bisavós maternos, Maria Magalhães Borges (1926-2004), grande mestra da cultura popular, e Cupertino Borges (1918-2006), sapateiro e artesão. Muitos anos depois, dedicou-se ao estudo das cavalhadas baianas, tema de sua dissertação de mestrado apresentada à Universidade de São Paulo (USP), defendida em 2020. Em 2006, mudou-se para São Paulo, onde reside até hoje, atuando como produtora cultural, xilogravadora e contadora de histórias. Ilustrou vários folhetos de cordel e os livros A Jornada Heroica de Maria, de Marco Haurélio (Melhoramentos) – selo altamente recomendável pela Fundação Nacionl do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) e Seleção, pela Catédra Unesco de Literatura, PUC Rio, 2019, Ithale: fábulas de Moçambique, do professor e escritor moçambicano Artinésio Widnesse (Editora de Cultura), Moby Dick em cordel, de Stélio Torquato (Nova Alexandria), entre outros. Em 2018, a convite do Sharjah Institute for Heritage, esteve nos Emirados Árabes Unidos, ministrando oficinas de xilogravura para crianças. É curadora visual da mostra Vidas em Cordel, do Museu da Pessoa.
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"A Coluna Cordel Brasileiro: um marco na imprensa nacional", diz o jornalista e poeta Mhario Lincoln, editor da Plataforma Nacional do Facetubes.
A Coluna Cordel Brasileiro agradece ao professor, poeta, cordelista e pesquisador Marco Haurélio e a xilogravadora Lucélia Borges pela importante participação e significativa contribuição para a nossa edição especial de aniversário.
São quatro maravilhosos anos da Coluna Cordel Brasileiro aqui no portal Facetubes. Nossa especial gratidão a Mhario Lincoln, idealizador da inédita coluna Cordel Brasileiro e editor-chefe do Facetubes. Obrigada aos nossos leitores pela confiança e por toda atenção dispensada ao que escrevemos. Um abraço!
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Esmeralda Costa Campos Sales-CE - Membra da Academia Poética Brasileira, Membra da Academia Internacional de Literatura Brasileira (AILB)Membra da Academia Cearense de Literatura de Cordel (ACLC) eMembra correspondente da Academia Groairense de Letras (AGL).
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