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Texto Especial de Joizacawpy Costa: O AÇÚCAR (Ferreira Gullar)

Da Academia Poética Brasileira.

25/07/2026 19h13 Atualizada há 3 horas atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Joizacawpy Costa
Original do texto
Original do texto

Joizacawpy Costa.

O açúcar de Ferreira Gullar,  traz forte presença,  contextual, histórica e política.

A partir da reflexão sobre algo meramente que faz parte do dia a dia culinário que agrada os paladares, ele faz uma reflexão sobre o contexto histórico,  as formas de dominação do poder e dos modos de vida que se constituíram ao longo dos anos.

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Do plantio, a colheita a transformação do açúcar refinado branco que entra em tantos lares, mas que antes passa pela realidade das usinas escuras não    no sentido literal, mas se referindo a todos os aspectos sacrificantes e degradantes a custa da força maior do trabalho,  mas da força menor de poder social e econômico.

Gullar não  se exime do privilégio de ter o açúcar branco a adoçar seu café  em Ipanema. Porém ele tem consciência política e social dos acontecimentos e das consequências dos mesmos na sociedade.

Sem rimas ele escreve poemas em versos que não  deixam de ser versos nem poemas porque ele os trata como poemas, evocando recursos como, vejo-o puro/e afável ao paladar, como beijo de moça/água na pele flor/ que se dissolve na boca.

O AÇÚCAR

O branco açúcar que adoçará meu café

nesta manhã de Ipanema

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não foi produzido por mim

nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.

 

Vejo-o puro

e afável ao paladar

como beijo de moça, água

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na pele, flor

que se dissolve na boca. Mas este açúcar

não foi feito por mim.

 

Este açúcar veio

da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira,

dono da mercearia.

Este açúcar veio

de uma usina de açúcar em Pernambuco

ou no Estado do Rio

e tampouco o fez o dono da usina.

 

Este açúcar era cana

e veio dos canaviais extensos

que não nascem por acaso

no regaço do vale.

 

Em lugares distantes, onde não há hospital

nem escola,

homens que não sabem ler e morrem de fome

aos 27 anos

plantaram e colheram a cana

que viraria açúcar.

 

Em usinas escuras,

homens de vida amarga

e dura

produziram este açúcar

branco e puro

com que adoço meu café esta manhã em Ipanema.

 

Ferreira Gullar

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