Joizacawpy Costa.
O açúcar de Ferreira Gullar, traz forte presença, contextual, histórica e política.
A partir da reflexão sobre algo meramente que faz parte do dia a dia culinário que agrada os paladares, ele faz uma reflexão sobre o contexto histórico, as formas de dominação do poder e dos modos de vida que se constituíram ao longo dos anos.
Do plantio, a colheita a transformação do açúcar refinado branco que entra em tantos lares, mas que antes passa pela realidade das usinas escuras não só no sentido literal, mas se referindo a todos os aspectos sacrificantes e degradantes a custa da força maior do trabalho, mas da força menor de poder social e econômico.
Gullar não se exime do privilégio de ter o açúcar branco a adoçar seu café em Ipanema. Porém ele tem consciência política e social dos acontecimentos e das consequências dos mesmos na sociedade.
Sem rimas ele escreve poemas em versos que não deixam de ser versos nem poemas porque ele os trata como poemas, evocando recursos como, vejo-o puro/e afável ao paladar, como beijo de moça/água na pele flor/ que se dissolve na boca.
O AÇÚCAR
O branco açúcar que adoçará meu café
nesta manhã de Ipanema
não foi produzido por mim
nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.
Vejo-o puro
e afável ao paladar
como beijo de moça, água
na pele, flor
que se dissolve na boca. Mas este açúcar
não foi feito por mim.
Este açúcar veio
da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira,
dono da mercearia.
Este açúcar veio
de uma usina de açúcar em Pernambuco
ou no Estado do Rio
e tampouco o fez o dono da usina.
Este açúcar era cana
e veio dos canaviais extensos
que não nascem por acaso
no regaço do vale.
Em lugares distantes, onde não há hospital
nem escola,
homens que não sabem ler e morrem de fome
aos 27 anos
plantaram e colheram a cana
que viraria açúcar.
Em usinas escuras,
homens de vida amarga
e dura
produziram este açúcar
branco e puro
com que adoço meu café esta manhã em Ipanema.
Ferreira Gullar
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