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10.08. No Dia Estadual da Literatura Maranhense, documentos históricos e estudos acadêmicos mostram uma tradição que ajudou a construir a identidade literária do Brasil. Portanto, a extraordinária qualidade da literatura maranhense, de ontem e de hoje, que, com ou sem titularização, realmente, não precisa depender desse epíteto.
Neste 10 de agosto, o Maranhão celebra oficialmente o Dia Estadual da Literatura Maranhense, instituído pela Lei nº 11.565, de 19 de outubro de 2021. A escolha reúne duas referências: em 10 de agosto de 1823 nasceu, em Caxias, Antônio Gonçalves Dias; e, em 10 de agosto de 1908, foi fundada a Academia Maranhense de Letras. A Universidade Federal do Maranhão registra a literatura maranhense como patrimônio cultural que ultrapassa as fronteiras do estado. A afirmação encontra respaldo histórico: poucos territórios brasileiros participaram de maneira tão contínua de momentos decisivos da formação literária nacional.
Gonçalves Dias constitui o ponto de partida mais evidente dessa influência. A própria Academia Brasileira de Letras reconhece nele, ao lado de José de Alencar, uma das figuras que deram caráter nacional à literatura brasileira no Romantismo. “Canção do Exílio”, escrita em Coimbra em 1843, ultrapassou a condição de poema célebre e entrou na memória linguística do país: o verso “Nossos bosques têm mais vida” reaparece no Hino Nacional Brasileiro.
Estudos sobre o indianismo observam, contudo, uma tensão fundamental: ao transformar o indígena em símbolo da nacionalidade, a literatura romântica também o representou muitas vezes através de valores e categorias do olhar branco europeu. Reconhecer essa contradição não reduz Gonçalves Dias; permite lê-lo historicamente, com maior rigor.
A contribuição maranhense tampouco se limita ao Romantismo. Odorico Mendes realizou traduções de Homero e Virgílio cuja radicalidade vocabular seria posteriormente valorizada por Haroldo de Campos, que o chamou de “Patriarca da Transcriação”.
Sousândrade, durante décadas incompreendido, levou O Guesa a experiências de montagem, neologismo, polifonia e diálogo entre diferentes línguas e culturas americanas. Maria Firmina dos Reis deslocou para dentro do romance a experiência humana dos escravizados; Aluísio Azevedo tornou raça, habitação, exploração econômica e desigualdade matéria do Naturalismo; Graça Aranha participou da ruptura intelectual que abalaria a velha ordem acadêmica; e Ferreira Gullar conduziu a poesia brasileira por experiências que atravessaram vanguarda, política, corpo, memória e exílio. Não há, portanto, uma única “escola maranhense”: há uma sucessão incomum de intervenções em momentos de mudança da literatura brasileira.
Entre essas revisões, Maria Firmina dos Reis ocupa posição decisiva. Publicado em 1859, Úrsula é estudado hoje como texto precursor do romance abolicionista brasileiro e como obra fundamental para a constituição da literatura afro-brasileira. Pesquisa acadêmica destaca a mudança promovida pela escritora: personagens negros deixam de funcionar apenas como figuras laterais ou estereótipos e passam a possuir memória, sofrimento, história e voz.
O reencontro crítico com Maria Firmina obriga, assim, a própria história literária brasileira a rever seus mecanismos de exclusão. Sua circulação já ultrapassa o país: Úrsula ganhou edição em inglês pela Tagus Press, vinculada à University of Massachusetts Dartmouth, em 2022.
Com Aluísio Azevedo, o Maranhão participa de outra mudança estrutural. O Mulato, publicado em 1881, confrontou preconceito racial e provincianismo e tornou-se marco do Naturalismo brasileiro; O Cortiço, de 1890, levou a investigação social mais longe. Estudos publicados em periódicos acadêmicos analisam no romance o “papel central da economia” e a maneira pela qual moradia, trabalho, exploração e relações humanas passam a formar um mesmo sistema narrativo. A crítica contemporânea também examina as teorias raciais do século XIX presentes tanto em Azevedo quanto em Canaã, de Graça Aranha, sem ocultar os limites ideológicos daquele período. Canaã, publicado em 1902, alcançou cedo leitores estrangeiros: uma tradução inglesa foi editada em Boston em 1920.
A força institucional dessa tradição aparece de maneira quase estatística na Academia Brasileira de Letras. Dos 40 integrantes de sua formação inicial, cinco eram maranhenses: Artur Azevedo, Graça Aranha, Coelho Neto, Aluísio Azevedo e Raimundo Correia.
Entre os patronos figuravam Gonçalves Dias, João Lisboa, Joaquim Serra, Odorico Mendes e Sotero dos Reis. Mais tarde vieram, entre outros, Humberto de Campos, Viriato Corrêa, Josué Montello e Ferreira Gullar. Um episódio de 1924 é particularmente simbólico: Graça Aranha enfrentou a orientação conservadora da instituição e proclamou “Morra a Academia!”, enquanto Coelho Neto representava a tradição que o adversário pretendia superar. Até o conflito entre conservação e modernização da ABL teve, naquele momento, protagonistas ligados ao Maranhão.
No plano internacional, há evidências mais concretas do que a repetição do antigo título de “Atenas Brasileira”. Ferreira Gullar recebeu, em 2010, o Prêmio Camões, principal distinção literária da língua portuguesa. Josué Montello exerceu atividades acadêmicas em universidades de Lima, Lisboa e Madri e foi representante permanente do Brasil junto à UNESCO. Graça Aranha teve Canaã traduzido no início do século XX; Maria Firmina alcançou nova circulação internacional com Úrsula; e O Guesa, de Sousândrade, tornou-se objeto de pesquisas que o aproximam de experiências continentais e até de Walt Whitman, sobretudo pela tentativa de imaginar poeticamente uma América que não se limitasse ao modelo europeu. São formas distintas de internacionalização: prêmio, tradução, universidade, diplomacia cultural e permanência como objeto de investigação comparada.
Mas, vale prestar bastante atenção no que representa, nos moldes de hoje, a expressão “Atenas Brasileira”, tradicionalmente associada à intelectualidade ludovicense. Isso porque, nas pesquisas, há indícios fortes de que estudos históricos e sociológicos demonstraram que o esse título nasceu da projeção nacional de intelectuais maranhenses. Ótimo. Até aí, tudo bem. Contudo, o mesmo0 estudo demonstra que tal título foi igualmente alimentado por estratégias de memória, distinção social e patrimonialização das elites ‘letradas’.
Por outro lado, o que vale é a extraordinária qualidade da literatura maranhense, de ontem e de hoje, que, com ou sem titularização, realmente, não precisa depender desse epíteto. Pelo contrário: torna-se mais convincente quando examinada criticamente, inclusive reconhecendo quem ficou durante décadas fora do cânone, como Maria Firmina, ou quem precisou ser redescoberto quase um século depois, como Sousândrade. A redescoberta desse autor realizada por Augusto e Haroldo de Campos mostrou quanto a obra estivera adiante de sua recepção; além do que pesquisas atuais estudam sua dimensão hemisférica, suas aproximações com outras literaturas americanas e sua arquitetura linguística incomum.
Em tempo: a literatura maranhense ajudou o Brasil a formular sua ideia de nacionalidade, discutir escravidão e raça, renovar o romance, experimentar a linguagem e transformar memória e exílio em matéria universal. Destarte, o Maranhão não constitui um capítulo lateral da literatura brasileira. É um dos eixos sobre os quais ela foi construída. E se alguém for alinhavar esse histórico chegará a duas grandes vertentes com uma vasão de quase um século: O Guesa e Poema Sujo, cuja linha comum leva a crer que a partir do Maranhão muitas de suas obras não ficam limitadas ao regional. Essa talvez seja a contribuição mais profunda dessa tradição.
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