Editoria de Pesquisa e Extensão | Plataforma Nacional do Facetubes c/Mhario Lincoln (editor-sênior).
Houve um tempo em que boa parte do mundo cabia dentro de um almanaque. Não era força de expressão.
Ali estavam o calendário, as fases da Lua, datas históricas, eclipses, festas religiosas, receitas, conselhos agrícolas, provérbios, pequenas biografias, noções de geografia, acontecimentos políticos, estatísticas, informações comerciais, curiosidades científicas, histórias engraçadas, literatura, anúncios, charadas, prognósticos e acontecimentos que talvez jamais chegassem ao conhecimento daquele leitor por outro caminho.
O almanaque era um livro para abrir sem saber exatamente o que se iria encontrar. E talvez fosse exatamente esse o segredo. Passava-se de uma informação sobre astronomia a um poema; de uma tabela de impostos à história de um imperador; de um conselho para plantar no tempo certo a uma anedota; de uma efeméride a uma pequena explicação de anatomia. O conhecimento não chegava necessariamente organizado segundo a disciplina escolar. Chegava pela curiosidade.
Os almanaques tinham limitações. Algumas informações envelheciam, outras misturavam ciência, tradição popular, publicidade e crenças que o conhecimento posterior corrigiria. Isso não elimina o papel histórico que exerceram. Durante gerações, foram uma espécie de biblioteca doméstica compacta, principalmente nos lugares onde livros eram caros, escolas eram poucas e bibliotecas estavam distantes.
Esse era, em essência, o espírito do texto que deu origem a esta pesquisa: os almanaques como veículos de conhecimento transmitidos entre gerações, capazes de produzir crescimento não apenas individual, mas também dentro das comunidades em que circulavam.
Um exemplo brasileiro ajuda a dimensionar o fenômeno. O Almanak Laemmert, publicado a partir de 1844, transformou-se numa verdadeira radiografia anual do Brasil urbano, especialmente da Corte e da Província do Rio de Janeiro. Alguns volumes ultrapassavam mil páginas. Neles podiam ser encontrados endereços de estabelecimentos, repartições, escolas, hospitais, academias científicas, tipografias, livrarias, sociedades de leitura, profissionais liberais, instituições religiosas, associações, comércio e indústria. Para um pesquisador contemporâneo, folhear um Laemmert é quase caminhar pelas ruas do Rio de Janeiro do século XIX.
É uma das particularidades dos grandes almanaques: informações aparentemente banais no dia em que foram impressas podem se transformar, cem anos depois, em documentos históricos. Quem era o médico daquele bairro? Onde funcionava determinado colégio? Quantas tipografias existiam? Quem vendia instrumentos musicais? Onde estavam os hotéis? Que profissões apareciam anunciadas? Que instituições científicas funcionavam naquela cidade?
Hoje, tudo isso interessa a historiadores. Naquele momento, porém, era simplesmente informação útil. O Almanaque Brasileiro Garnier, publicado entre 1903 e 1914, acrescentou outra dimensão: transformou o gênero também em espaço intelectual. Suas páginas reuniam cronologia, calendário, literatura, história, geografia, estatística, ciência, política, folclore e erudição. Um índice histórico da publicação registra assuntos que vão de análises de Os Lusíadas a estudos sobre malária e experiências com manganês como adubo. Machado de Assis, José Veríssimo, Artur Azevedo, Rocha Pombo e outros intelectuais apareceram em suas páginas.
E há uma curiosidade especial: Machado de Assis publicou textos no Almanaque Garnier. O exemplar de 1906, por exemplo, trouxe o conto “Um Incêndio”. Aquilo que hoje procuramos numa edição de obras completas podia chegar originalmente às mãos do leitor no meio de calendários, efemérides, estatísticas e informações práticas.
Fora do Brasil, talvez nenhum caso seja tão emblemático quanto o de Benjamin Franklin. Antes de se transformar num dos nomes centrais da história dos Estados Unidos, Franklin publicou, sob o pseudônimo Richard Saunders, o célebre Poor Richard’s Almanack, iniciado em 1732. Havia calendário, informações práticas, observações, histórias e os provérbios que se tornariam uma das marcas de Franklin. A Library of Congress conserva exemplares da publicação e registra a importância que ela alcançou na América colonial.
Franklin percebeu uma coisa fundamental: gente que talvez não comprasse livros comprava almanaques. Por isso utilizava os espaços disponíveis entre calendários e datas para inserir máximas sobre trabalho, economia e comportamento. O almanaque deixava, assim, de ser apenas instrumento de consulta. Tornava-se veículo de formação popular.
No Brasil, ocorreu fenômeno semelhante com os chamados almanaques de farmácia. A partir das primeiras décadas do século XX, essas publicações chegaram a milhões de casas. Eram distribuídas gratuitamente, geralmente nos balcões das farmácias, e misturavam publicidade dos laboratórios com histórias, conselhos, informações gerais e textos de entretenimento.
O Almanaque do Biotônico Fontoura tornou-se o caso mais conhecido. Pesquisa publicada pela SciELO registra que sua tiragem chegou, em 1970, a cerca de 3,5 milhões de exemplares. O universo do Biotônico ficou também associado ao personagem Jeca Tatuzinho, criado por Monteiro Lobato, cuja história teve circulação gigantesca. Estudo de História, Ciências, Saúde – Manguinhos registra que, até sua 35ª edição, em 1973, a publicação de Jeca Tatuzinho acumulava 84 milhões de exemplares.
Em muitos lugares, aquele pequeno almanaque era uma das poucas publicações impressas que entravam regularmente em casa. E aí começa outra história: a das memórias afetivas. Quem viveu no tempo dos almanaques costuma lembrar não apenas do que leu, mas de onde o exemplar ficava guardado. Na gaveta. Sobre a mesa. Ao lado do rádio. Perto da Bíblia. Na cozinha. Na casa dos avós. Algumas páginas eram dobradas. Outras ganhavam anotações. Certos exemplares atravessavam o ano e permaneciam na casa mesmo depois da chegada da edição seguinte.
A pesquisadora Margareth Brandini Park, que estudou as práticas de leitura desses impressos, observa que reconstruir a história dos almanaques significa também recuperar antigos “gestos de leitura” e compreender seus significados e valores. O almanaque não pode ser explicado apenas pelo conteúdo impresso: é preciso compreender o que as pessoas faziam com ele.
Um depoimento particularmente forte vem de alguém que dificilmente poderia ser acusado de irrelevância literária. Veja: em seu “Auto-retrato”, publicado na revista Leitura, em dezembro de 1942, o autor de Vidas Secas escreveu:
“José Lins do Rego tem razão quando afirma que a minha cultura, moderada, foi obtida em almanaques.”
A frase merece permanecer inteira na história do gênero. Um dos maiores escritores brasileiros reconhecia, com sua conhecida secura irônica, que parte de sua formação intelectual havia passado por aquelas publicações. Rubem Braga também conhecia perfeitamente esse prazer. Em sua crônica “Almanaque”, publicada no Correio da Manhã em 17 de outubro de 1954, escreveu que preenchia seus domingos com uma “longa e vária cultura de almanaque”. E criou uma definição ainda melhor: “É uma sabença que não nos oprime.” Braga entendia a pequena satisfação intelectual de descobrir uma coisa aparentemente inútil simplesmente porque ela era interessante.
Mas foi lendo esses almanaques que pessoas descobriram alguns detalhes interessantes do Mundo "moderno". Por exemplo, “Diário de um Homem Supérfluo”. Quem escreveu? Ivan Turguêniev? E é exatamente uma informação e um desses almanaques que se lê: "(...) o escritor russo nasceu em 1818, conheceu Pauline Viardot em 1843 e manteve com ela um vínculo que atravessaria décadas. Viveu longos períodos no Ocidente e tornou-se um dos primeiros grandes escritores russos a conquistar reconhecimento amplo na Europa. Entre seus amigos estavam figuras como Gustave Flaubert. Pais e Filhos, publicado em 1862, provocou intensa controvérsia na sociedade intelectual russa". Pronto. Talvez alguém que nunca tivesse lido Turguêniev - passasse, após a leitura do almanaque- a procurar ler Pais e Filhos. A curiosidade almanaqueana cumpriu sua função.
Mas, em finalizando, é mesmo para alguém se chatear com a alcunha cultura de almanaque? Durante muito tempo a expressão ganhou sentido pejorativo. Dizer que alguém possuía “cultura de almanaque” significava sugerir que conhecia muitas informações, mas de maneira fragmentada, sem especialização ou profundidade. Não significa necessariamente cultura falsa. Mas existe uma diferença importante: saber quem escreveu Pais e Filhos não transforma ninguém em especialista em literatura russa. Mas alguém precisava abrir a primeira porta. A curiosidade almanaqueana abriu muitas portas. Possivelmente esse detalhe da curiosidade passe longe dos nossos sistemas de pesquisa atuais, o Google, Wikipedia, YouTube, podcasts, plataformas de divulgação científica, TED Talks, redes sociais e sistemas de inteligência artificial. Porque eles já respondem diretamente.
Por isso esta viagem que o Facetubes lembra, agora, não deve ser entendida como simples saudosismo. Relembrar os almanaques é estudar uma tecnologia cultural de transmissão do conhecimento. Eles ajudaram a organizar o tempo, espalhar informação, formar leitores, divulgar escritores e registrar a vida cotidiana. Também carregaram erros, propagandas, superstições e certezas que envelheceram. Exatamente por isso são documentos tão ricos: mostram não apenas aquilo que determinada época sabia, mas também aquilo em que muitos acreditavam.
Os velhos almanaques cumpriram sua época. Hoje são também documentos históricos, peças de colecionador, objetos de memória e fontes de pesquisa. O princípio que os tornou populares continua intacto: alguém encontra uma pequena informação, estranha, pergunta, procura outra coisa, abre um livro, descobre um autor e começa uma investigação. Talvez seja isso que chamamos de conhecimento. Ou, de maneira mais simples, curiosidade. Dizem que ela mata. Pode ser. Mas, antes, diverte. E, quando bem conduzida, ensina.
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Fontes consultadas: Fundação Biblioteca Nacional e Hemeroteca Digital Brasileira, especialmente estudos e acervos do Almanak Laemmert e Almanaque Brasileiro Garnier; Library of Congress, acervo Benjamin Franklin e Poor Richard’s Almanack; Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo, registro do “Auto-retrato” de Graciliano Ramos; Portal da Crônica Brasileira/Fundação Casa de Rui Barbosa, crônica “Almanaque”, de Rubem Braga; SciELO, estudos sobre almanaques de farmácia e o Almanaque do Biotônico Fontoura; Universidade Estadual de Campinas, pesquisas de Margareth Brandini Park sobre leitura e memória dos almanaques.
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