ENTREVISTA – ÍNDIO DO ACORDEON
Entrevistadora IVA LIMA: Olá, olá, queridos leitores do FaceTubes. Olá, Mário Lincoln. Hoje, dando continuidade a essa minha estadia aqui em nossa Pedreiras, Maranhão, nossa cidade querida, a cidade do eterno mestre João do Vale. Vamos dar continuidade com a entrevista com um dos maiores mestres da sanfona aqui do Maranhão, o Mestre Índio, Índio do Acordeon. Vamos falar da trajetória, tradição e legado. Mestre Índio, como começou a sua história com a sanfona?
Índio do Acordeon: Olá, Iva Lima, boa tarde. A minha trajetória com a sanfona começou assim: meu pai tinha um comércio e tinha uma sanfona em casa. Eu pegava escondido, porque naquele tempo os pais não queriam que filho tocasse. Aprendi escondido, devagarzinho, mas eu não continuei na sanfona. Fui tocar contrabaixo quando eu já tinha 21 anos. Peguei na sanfona quando era criança, com 12 anos, e larguei de mão. Depois peguei o contrabaixo e fui tocar contrabaixo.
Entrevistadora IVA LIMA: E nesse período, por falta de sanfoneiro, você acabou assumindo, não foi?
Índio: Isso. Naquela época não tinha sanfoneiro em toda a região. Um contratante de forró queria a banda para tocar, mas só queria se tivesse sanfoneiro. E eu, como conhecia um pouquinho, mesmo sem fazer muita coisa, me encaixei no lugar de sanfoneiro naquele dia.
Entrevistadora IVA LIMA: E o legal é que você é multi-instrumentista. Não toca apenas sanfona, mas também teclado, contrabaixo, não é isso?
Índio: Eu faço um pouco de violão. Violão eu toco mais nas igrejas. Às vezes acompanho um artista de voz e violão que faz sertanejo, mas aquele mais antigo, não o atual. Toco violão na igreja e faço alguns ensaios com algumas pessoas, só o tom da música para mandar para outro violonista. Mas o meu forte mesmo, de muito tempo para cá, é a sanfona.
Entrevistadora IVA LIMA: Muito bom. Isso quer dizer que a música faz parte da sua vida diária, não é?
Índio: Sim, sim.
Entrevistadora IVA LIMA: Então fala para a gente quem são as suas maiores referências na música, no forró.
Índio: No forró de raiz, eu curtia muito Alcymar Monteiro, Jorge de Altinho, e os Três do Nordeste. Os Três do Nordeste são muito porretas. Eu achava muito bonito aqueles solos, então queria fazer parecido com eles. Assim fui me adaptando a fazer o solo de forró pé de serra e o gingado da bacharia na sanfona.
Entrevistadora IVA LIMA: E o que o forró de raiz representa na sua vida?
Índio: Forró de raiz, para mim, é o melhor forró do Brasil. Foi na parte musical onde eu mais me destaquei e onde fiquei conhecido. Já tenho até alguns discípulos que me viram tocar e pedem aulas de sanfona, para não deixar essa cultura cair.
Entrevistadora IVA LIMA: Qual foi o momento mais marcante na sua carreira?
Índio: Foi quando fui chamado para fazer parte de um DVD, na época em que as bandas gravavam DVD. Eu nem acreditei: “Vou aparecer num DVD para todo mundo ver, Brasil afora.” Naquela época não tinha YouTube. Foi muito gratificante. Esse foi o momento mais marcante.
Entrevistador: E o que o senhor acha necessário para que os mestres da cultura sejam mais reconhecidos?
Índio: Muitos mestres ficam acomodados. A gente espera muito ser contratado e não corre atrás para fazer acontecer. Para ser mais valorizado, temos que promover nossos próprios eventos. No São João, no nosso arraial, deveria ter uma associação de músicos raiz para não deixar entrar os “invasores”, como diz o poeta atual, que levam todo o nosso recurso e deixam a gente preso de banana.
Entrevistadora IVA LIMA: E qual conselho o senhor deixa para os jovens que estão entrando no cenário do forró de raiz — sanfoneiros, cantores, zabumbeiros, trianglistas?
Índio: Para os jovens que estão pegando sanfona: tenham amor pela tradição do forró de raiz. Não deixem essa cultura morrer. A música atual é muito passageira: dura uma semana, três dias, às vezes nem isso. Já o nosso forró de raiz permanece há mais de cem anos. Toda criança que vai para aula de música… as vogais da escola são A, E, I, O, U. E as vogais da escola de música são Asa Branca, de Luiz Gonzaga. É o nosso hino. É o primeiro impulso para as crianças começarem a pegar o ritmo. É o hino da sanfona nordestina.
Entrevistadora IVA LIMA: Mestre Índio, quero lhe agradecer e dizer que o senhor é história viva. Faz parte da nossa história, enriquecendo cada vez mais essa tradição. Peço a Deus que abençoe sua trajetória, lhe dando muito sucesso e abrindo portas cada vez mais.
Índio: Se Deus quiser. A gente está com essa bandeira sempre erguida, lutando por essa arte. Eu comecei praticamente só. Agora já temos a mestre Elimara, Arthur Gonzaga, Lago Fontenelle — que agora está mais na música gospel, mas continua na sanfona. Teve outros camaradas da minha época que tinham largado a sanfona e voltaram a tocar: Paraíba, São José do Mar, Zé Antônio da Jaqueira, que é muito bom. A gente está avivando essa cultura. Por ano fazemos três encontros de sanfoneiros para não deixar a cultura cair. A gente mesmo promove esses eventos para manter viva essa tradição.
Entrevistador: E qual mensagem o senhor deixa?
Índio: Quero parabenizar a Plataforma Nacional do Facetubes por estar fazendo essa coletiva de entrevistas com os mestres sanfoneiros do Maranhão, divulgando os poetas, divulgando a cultura. Isso é muito bom. A gente vê que tem pessoas preocupadas com a nossa cultura também. Parabéns para ele, que Deus abençoe grandemente.
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