O Brasil voltou a ocupar espaço no circuito internacional do haicai. George Goldberg e Vanice Zimerman Ferreira estão entre os autores reconhecidos na edição de 2026 do International “Vladimir Devidé” Haiku Award, concurso que reuniu 237 poetas de 40 países. O resultado foi definido pelo júri formado por Tomislav Maretić, Boris Nazansky e Drago Štambuk e divulgado em 22 de agosto, data que marca a morte de Vladimir Devidé. O Brasil teve 19 participantes, atrás apenas da Croácia, dos Estados Unidos e da Índia em número de concorrentes.
O prêmio leva o nome de Vladimir Devidé, matemático, japanólogo, tradutor e poeta croata que se tornou um dos responsáveis pela difusão do haicai e da cultura japonesa na Europa. A trajetória da premiação nasceu associada ao trabalho de Drago Štambuk e Joseph Haldane e ao ambiente institucional da The International Academic Forum — IAFOR, que registra o prêmio como aberto a haicais inéditos escritos em inglês, sem estabelecer preferência entre a forma tradicional e as experiências modernas do gênero. A própria IAFOR relaciona à história da iniciativa o apoio da Haiku International Association, do Haiku UNESCO Promotion Council e da The Haiku Foundation.
Em 2026, a chamada internacional foi divulgada também pela The Haiku Foundation como a décima edição do International Vladimir Devidé Haiku Award. Cada participante poderia enviar um haiku em inglês, e os resultados seriam anunciados justamente em 22 de agosto. A divulgação oficial da edição ficou a cargo do Društvo hrvatskih književnika — Sociedade dos Escritores Croatas, instituição que publicou a relação dos premiados e informou que os trabalhos escolhidos seriam reunidos em edição própria.
George Goldberg, ligado ao Haikai Zen, aparece no grupo dos runners-up, correspondente à segunda faixa de premiação. Seu haicai trabalha a chegada de uma folha seca e a passagem por um cemitério — chamado, no poema, pela expressão inglesa “God’s Acre”. Em três versos, o movimento mínimo da folha desloca o leitor para uma percepção de finitude:
arrives suddenly
one more dry leaf
through God’s Acre
O poema faz aquilo que o haicai exige quando levado à sua economia maior: não explica a morte, não discorre sobre o tempo e não transforma a imagem em discurso. Apenas coloca a folha, o movimento e o espaço diante do leitor. A leitura nasce do intervalo entre essas três informações. George Goldberg foi relacionado oficialmente entre os autores da segunda premiação do concurso.
Vanice Zimerman Ferreira, integrante da Academia Poética Brasileira — Seccional Paraná, recebeu reconhecimento na categoria Commended. Seu poema parte de outra paisagem e de outra temporalidade:
in the morning light –
the sunflower seeds
freshly plantedContinua após a publicidade
Há luz, sementes e um ato recém-concluído. Não existe no texto a necessidade de anunciar esperança ou futuro; a própria semente plantada realiza essa função sem que o poema a nomeie. Essa capacidade de retirar a explicação e conservar a imagem está no centro de parte importante da tradição do haicai: dizer menos para ampliar o campo de percepção de quem lê. O júri incluiu o texto de Vanice entre os trabalhos reconhecidos da edição de 2026.
No caso de Vanice, a premiação também encontra continuidade em um percurso dedicado ao haicai. Nascida em Curitiba, formada em Letras Português/Inglês, escritora e artista plástica, ela participa há anos de antologias e concursos ligados ao gênero, inclusive na Croácia. Em entrevista publicada em 2024, relatou que seu processo de escrita frequentemente começa na observação de folhas, gotas d’água, insetos, imagens, cores e alterações de luz — elementos que ajudam a compreender a origem de muitos de seus poemas. Em junho de 2026, a própria autora registrava participação em antologias croatas desde 2015.
Há ainda um dado que reforça a continuidade desse trabalho. Poucas semanas antes do resultado internacional, Vanice obteve primeiro lugar, na categoria adulto estadual de flora, no 10º Concurso de Haicai de Toledo — Kenzo Takemori 2026, com “silente manhã — / jacarandá florido / tinge a janela”. Não se trata, portanto, de uma aparição isolada em concursos: existe produção, participação, leitura, exercício de forma e circulação do haicai.
E é exatamente nesse ponto que cabe o elogio da Academia Poética Brasileira à sua integrante. Vanice Zimerman chegou a um júri de outro país levando três versos e uma cena: luz da manhã, sementes de girassol, terra recém-plantada. O júri respondeu incluindo seu nome entre os autores reconhecidos. Para a APB-PR, esse resultado representa trabalho transformado em presença brasileira fora das fronteiras do país. Não é necessário acrescentar qualificativos ao fato. A premiação já contém a medida do reconhecimento.
A presença simultânea de George Goldberg e Vanice Zimerman Ferreira entre os escolhidos de 2026 também chama atenção para a inserção do haicai produzido no Brasil em uma tradição que há mais de um século encontrou leitores e praticantes no país. Num concurso em que 40 nacionalidades se encontraram por meio de poemas de três versos, dois brasileiros atravessaram o processo de seleção. George com a folha seca que chega ao território dos mortos; Vanice com sementes de girassol lançadas à terra sob a luz da manhã. Entre aquilo que cai e aquilo que acaba de ser plantado, o Brasil terminou a edição de 2026 representado por duas imagens que cabem em poucas palavras — justamente onde o haicai começa.
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