Editoria de Saúde e Dignidade Social, da Plataforma Nacional do Facetubes c/Mhario Lincoln (editor-sênior).
Curitiba recebe neste sábado, 29 de agosto de 2026, mais uma reunião do Grupo de Apoio do Instituto Alzheimer Brasil (IAB), iniciativa voltada a familiares, cuidadores e pessoas que convivem direta ou indiretamente com a doença de Alzheimer e outras formas de demência. O encontro será realizado das 9h15 às 12 horas, no Centro Universitário UniBrasil, Rua Konrad Adenauer, 442, bairro Tarumã, Bloco 5, Sala 111. O espaço é cedido pela instituição de ensino.
O IAB, presidida com muito esmero por Elisabete Piovesan, é uma organização não governamental, sem fins econômicos, sediada em Curitiba, que desenvolve ações de educação, assistência, conscientização e defesa dos direitos das pessoas idosas, mantendo também grupos periódicos de orientação e apoio.
O tema desta edição — “Direitos da pessoa idosa e que vive com demência” — amplia uma discussão que não pode permanecer restrita à medicina. O diagnóstico de Alzheimer produz consequências familiares, patrimoniais, previdenciárias, assistenciais e jurídicas. A pessoa com demência continua sendo titular de direitos e deve ter preservadas, dentro de suas condições cognitivas, dignidade, autonomia, integridade física e emocional e participação nas decisões que envolvem sua própria vida.
O Estatuto da Pessoa Idosa assegura proteção integral a partir dos 60 anos, determina a preservação da saúde física e mental e estabelece, entre outros pontos, o direito a acompanhante durante internação e o direito de a pessoa idosa capaz decidir sobre o tratamento que considere mais adequado.
Desde 2024, essa proteção ganhou instrumento específico com a Lei nº 14.878, que instituiu a Política Nacional de Cuidado Integral às Pessoas com Doença de Alzheimer e Outras Demências. A legislação determina articulação entre saúde, assistência social, previdência, direitos humanos, educação, ciência, inovação e tecnologia.
A norma também reconhece que enfrentar as demências exige atenção não apenas à pessoa diagnosticada, mas à rede que a sustenta, especialmente familiares e cuidadores. Trata-se de uma mudança relevante de perspectiva: o cuidado deixa de ser entendido apenas como questão doméstica e passa a integrar formalmente a agenda das políticas públicas brasileiras.
A exposição será conduzida pelo advogado Márcio Pereira Haiduk, com aplaudida atuação no 5º Juizado Especial Cível e Criminal de Curitiba, com designação registrada em 2015. Em decisão publicada pelo próprio TJPR em 2026, seu nome também aparece no exercício da advocacia como defensor dativo.
A experiência no campo jurídico estabelece uma relação direta com questões que frequentemente surgem nas famílias após o diagnóstico de uma demência: representação legal, patrimônio, tomada de decisões, responsabilidade familiar, acesso a serviços e proteção da pessoa vulnerável.
Mas vale afirmar que esse encontro é por demais importante: o Relatório Nacional sobre a Demência, elaborado pelo Ministério da Saúde em parceria com a Universidade Federal de São Paulo e especialistas de diferentes regiões, chegou, por consenso científico, à estimativa de que 8,5% dos brasileiros com 60 anos ou mais conviviam com alguma forma de demência, o equivalente a quase 2,5 milhões de pessoas no levantamento de referência de 2019; entre as mulheres, a prevalência estimada foi de 9,1%, ante 7,7% entre os homens.
A doença de Alzheimer responde por aproximadamente 60% a 70% das demências. No Paraná, a Secretaria de Estado da Saúde estima que cerca de 110 mil pessoas vivam com demência; aplicada apenas como referência epidemiológica a proporção atribuída ao Alzheimer, isso corresponderia a uma ordem de grandeza entre 66 mil e 77 mil pessoas, não devendo esse cálculo ser confundido com um cadastro estadual de diagnósticos. O cenário merece atenção adicional porque o Paraná chegou a aproximadamente 1,98 milhão de habitantes com 60 anos ou mais em 2025, crescimento de 55,42% em relação a 2012.
Há ainda um dado decisivo: idade avançada não significa Alzheimer, mas a idade constitui seu principal fator de risco. Estudos brasileiros registram crescimento acentuado da prevalência das demências depois dos 65 anos, aproximadamente dobrando a cada cinco anos nas faixas etárias seguintes. Por isso, confundir alterações cognitivas significativas com uma consequência “normal” da velhice pode atrasar investigação, diagnóstico e planejamento dos cuidados. Da mesma forma, nem todo esquecimento significa demência. O diagnóstico exige avaliação clínica adequada e, quando indicada, investigação neurológica, cognitiva e funcional.
A história brasileira também guarda nomes que transformaram o cuidado com pessoas idosas em compromisso de vida. Um deles é o da médica geriatra Cláudia Burlá, falecida em junho de 2026. Professora, pesquisadora e especialista em Bioética e Cuidados Paliativos, Burlá foi uma das fundadoras da Associação Brasileira de Alzheimer (ABRAz) e da Associação para Parentes e Amigos de Pacientes com a Doença de Alzheimer (APAZ). Durante décadas trabalhou na defesa de um modelo de assistência baseado na dignidade, na autonomia e na redução do sofrimento das pessoas com doenças crônicas e progressivas, incluindo as demências. A Academia Nacional de Cuidados Paliativos, da qual também foi sócia-fundadora, registrou após sua morte que sua trajetória ajudou a transformar a compreensão do cuidado no Brasil.
É justamente nessa dimensão que grupos de apoio ultrapassam a ideia de uma simples reunião. A convivência prolongada com Alzheimer reorganiza famílias inteiras. Muda horários, relações financeiras, arquitetura da casa, rotinas profissionais e afetivas. Em determinados estágios, o cuidador passa a administrar atividades essenciais de outra pessoa durante praticamente todo o dia. Informação qualificada reduz erros, oferece instrumentos para decisões e cria redes de solidariedade capazes de diminuir o isolamento. O Instituto Alzheimer Brasil atua nesse campo há mais de duas décadas e integra redes como a Federação Brasileira de Associações de Alzheimer, a Alzheimer Iberoamérica e a Alzheimer’s Disease International.
A Plataforma Nacional do Facetubes registra seu reconhecimento aos familiares, cuidadores, médicos, enfermeiros, terapeutas, pesquisadores, advogados, voluntários e instituições que destinam tempo, conhecimento e trabalho a essa causa humanitária. Cuidar de uma pessoa cuja memória e autonomia se modificam progressivamente exige uma estrutura social que não deixe toda a responsabilidade sobre os ombros da família. Também merece registro o trabalho dos que mantêm grupos de apoio, difundem informação e ajudam a transformar conhecimento técnico em orientação cotidiana.
A Plataforma também reconhece a dedicação incomum de Iolanda Cardoso, pelo envio das informações e pela dedicação que mantém à causa. Gestos dessa natureza ajudam a fazer circular um assunto que interessa não apenas às famílias hoje atingidas pela doença, mas a uma sociedade que envelhece rapidamente e precisará aprender, cada vez mais, a associar longevidade a proteção, conhecimento, direitos e cuidado.
Editoria da Plataforma Nacional do Facetubes
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Fontes consultadas: Ministério da Saúde — Relatório Nacional sobre a Demência e página oficial sobre Alzheimer e outras demências; Secretaria de Estado da Saúde do Paraná; Tribunal de Justiça do Paraná; Presidência da República — Lei nº 14.878/2024 e Estatuto da Pessoa Idosa; Universidade Federal de São Paulo; Instituto Alzheimer Brasil; Conselho Federal de Medicina; Academia Nacional de Cuidados Paliativos; IPARDES/IBGE.
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