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Brasil Literatura Gótica

Aluísio Azevedo Gótico: Lourival Serejo restitui uma vertente da obra do escritor ao debate literário brasileiro

Lourival Serejo é presidente da Academia Maranhense de Letras e convidado da Plataforma Nacional do Facetubes.

28/08/2026 12h22 Atualizada há 34 minutos atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Editoria de Literatura e Arte da Plataforma Nacional do Facetubes
Arte: MHL/GinaiFT (Presidente Serejo e a obra).
Arte: MHL/GinaiFT (Presidente Serejo e a obra).

Editoria de Literatura e Arte da Plataforma Nacional do Facetubes c/Mhario Lincoln (editor-sênior).

Durante décadas, a leitura escolar e parte da historiografia literária fixaram Aluísio Azevedo no Naturalismo brasileiro. O Mulato, Casa de Pensão e O Cortiço sustentaram esse lugar. A produção do escritor maranhense guarda ainda uma região formada pelo medo, pela morte, pelo desejo em processo de deformação, pela escuridão, pela decomposição do corpo, pela ruptura da percepção e pela presença do inexplicável. É nesse território que se estabelece Aluísio Azevedo Gótico, seleta organizada pelo escritor e pesquisador Lourival Serejo e lançada pela Academia Maranhense de Letras em agosto de 2026.

O livro integrou o Plano Editorial 2025/2026 da Academia e chegou ao público durante as comemorações pelos 118 anos da instituição, realizadas em 10 de agosto, no Salão Nobre da Casa de Antônio Lobo, em São Luís. Vale acrescentar uma coerência histórica na escolha da Academia. Aluísio Azevedo é patrono da Cadeira nº 2 da AML. Nascido em São Luís em 14 de abril de 1857, foi jornalista, caricaturista, romancista e diplomata. Sua trajetória passou pela imprensa maranhense, pelo Rio de Janeiro e, posteriormente, pela carreira diplomática. Faleceu em Buenos Aires em 21 de janeiro de 1913. Foi também um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, onde ocupou a Cadeira nº 4.

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A iniciativa de Lourival Serejo nasce de um percurso de pesquisa já estabelecido. O presidente da Academia Maranhense de Letras ocupa a Cadeira nº 35 e mantém há anos uma linha de estudo dedicada a Aluísio. Em 2013 publicou Aluísio Azevedo sempre, reunião de estudos sobre a vida e a produção do escritor. A obra chegou à terceira edição em 2024, com prefácio do pesquisador francês Jean-Yves Mérian, autor de uma das principais biografias de Aluísio Azevedo. A própria AML registra o título entre os livros de Serejo. O trabalho de 2026 constitui, assim, uma etapa de pesquisa continuada sobre um autor ao qual ele vem retornando há mais de uma década.

Esse dado ajuda a compreender a importância de Aluísio Azevedo Gótico. Serejo não se limita a reunir textos. Sua organização propõe uma chave de leitura. O material apresentado nos anexos chama atenção para personagens submetidos a existências opressivas, para zonas de morbidez e para indivíduos conduzidos à destruição, ao aniquilamento do ser amado, ao medo e à perda de referências. A pergunta formulada em uma das páginas reproduzidas sintetiza a inquietação provocada pela coletânea: como Aluísio conseguiu imaginar determinados cenários humanos ainda no século XIX?

A resposta começa na própria estrutura de sua literatura. Aluísio observava o homem pelo corpo, pelo ambiente, pelo desejo, pela hereditariedade, pela necessidade, pela doença e pela pressão social. Essas categorias formam a base de sua experiência naturalista. Em determinados textos, elas entram num campo de escuridão, delírio, morte e dissolução. O gótico surge dentro desse sistema. A ameaça deixa de depender exclusivamente de castelos, fantasmas ou cemitérios. Ela passa a morar no indivíduo, na cidade, na sexualidade, na solidão, na consciência e na possibilidade de o mundo conhecido perder sua ordem.

 

Demônios constitui um caso central. O conto acompanha um jovem escritor no Rio de Janeiro diante de uma realidade em processo de apagamento. A luz desaparece. O silêncio ocupa os espaços. Corpos são encontrados. Lama e lodo integram o cenário. O tempo perde sua função. O personagem procura uma explicação e chega à porta de um médico, representação direta do conhecimento científico. A ciência já não oferece imediatamente uma resposta capaz de organizar aquilo que os sentidos testemunham. A narrativa instala a dúvida dentro da experiência concreta.

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Esse procedimento estabelece uma ligação entre o Aluísio naturalista e o Aluísio do medo. O corpo continua presente. A matéria continua presente. A degradação continua presente. O método de observação continua atuando. A realidade perde estabilidade e o homem fica exposto àquilo que não consegue nomear. O resultado produz uma literatura em que terror, ciência, desejo e natureza participam da mesma construção.

A pesquisa acadêmica já encontrou nessa produção elementos que confirmam a pertinência da leitura proposta por Serejo. O primeiro comentário vem dos pesquisadores Júlio França e Marina Sena, no estudo Do Naturalismo ao Gótico: as três versões de “Demônios”, de Aluísio Azevedo, publicado em 13 de outubro de 2014, na revista SOLETRAS, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Os autores identificam na narrativa “elementos grotescos e mórbidos” responsáveis pela produção do horror e estudam as três versões do conto: a publicação em folhetim na Folha Nova, em janeiro de 1891; a versão incluída em Demônios; e a incorporada posteriormente a Pegadas. A análise mostra que as alterações feitas pelo próprio Aluísio preservaram a estrutura gótica da narrativa.

Capa do livro.

O segundo comentário nasce no próprio Maranhão. Ingrid Piauilino e Rafael Pinheiro publicaram, em 10 de julho de 2020, na Revista de Letras Juçara, vinculada à Universidade Estadual do Maranhão, o estudo Demônios de Aluísio Azevedo: horror e filosofia. Os pesquisadores registram a presença simultânea de elementos góticos, fantásticos e naturalistas e enfrentam uma questão importante na recepção do conto. Certas características românticas e fantásticas foram tomadas pela crítica como “falha de composição”. O estudo sustenta outra leitura: esses componentes funcionam como recursos de construção literária e participam da formulação filosófica do Naturalismo desenvolvido pelo escritor.

A questão alcança outras obras. Em A Mortalha de Alzira, publicada na década de 1890, Aluísio trabalha horror, desejo, morte, religião e imaginação romântica. Estudo publicado em 2025 por Flavia Renata Machado Paiani na revista Aletria, da Universidade Federal de Minas Gerais, identifica no romance a presença articulada do gótico, do melodrama e do Naturalismo. O texto nasce do diálogo com La Morte amoureuse, de Théophile Gautier, e mantém dentro da narrativa personagens vinculados ao pensamento racional e científico diante de acontecimentos estranhos.

Também em O Homem, de 1887, a leitura contemporânea tem investigado relações entre Naturalismo e gótico. A doença, a repressão sexual, a alucinação, o desejo e a morte formam uma estrutura na qual o corpo se converte em território narrativo. Em O Impenitente, Maurício Cesar Menon identificou a presença de morte, fantasmas, ruínas e temores provenientes da tradição gótica europeia. Seu estudo, Entre sombras e ruínas: o espaço gótico em “O Impenitente”, de Aluísio Azevedo, foi publicado em 2011 na Revista de Literatura, História e Memória, da Unioeste.

Surge daí uma percepção necessária para a leitura atual de Aluísio Azevedo. O gótico, em sua obra, não funciona como ornamento agregado à narrativa. Ele oferece uma linguagem para situações em que a razão encontra seu limite. O escritor leva seus personagens até regiões em que desejo, medo, culpa, sexualidade, violência, morte e sobrevivência passam a comandar a ação. O homem observado pelo Naturalismo continua ali. Em determinado ponto, esse homem entra na escuridão.

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É nesse ponto que a organização de Lourival Serejo alcança sua função crítica. Reunir essa produção significa devolver unidade a textos que permaneceram dispersos sob a força do enquadramento naturalista consolidado pela história literária. Serejo acompanha Aluísio há anos, conhece sua bibliografia e percebeu dentro dela um percurso que precisava ser colocado diante do leitor. O trabalho exige pesquisa, leitura de variantes, conhecimento do contexto e disposição para entrar em áreas da obra que receberam circulação restrita no debate público.

 

Aluísio Azevedo Gótico tem, por isso, valor editorial e valor de pesquisa. O livro interfere na leitura de um autor já incorporado ao cânone e recoloca em circulação uma zona de sua criação que pede exame próprio. Lourival Serejo realizou esse movimento com a experiência de quem vem estudando Aluísio de forma continuada. Sua contribuição está em organizar documentos literários e criar condições para que pesquisadores, professores, estudantes e leitores retornem aos textos com outra pergunta.

Talvez esteja justamente aí o núcleo humano dessa literatura. O medo de Aluísio não depende somente do sobrenatural. Nasce do corpo que adoece, da consciência que perde referências, da paixão transformada em domínio, da cidade que sufoca, da morte que invade o cotidiano, do indivíduo que procura uma saída e descobre dentro de si outra forma de prisão. O escritor maranhense encontrou, no século XIX, matéria literária para questões que permanecem reconhecíveis no homem contemporâneo. Lourival Serejo teve o mérito de entrar nessa região da obra, reunir seus sinais e devolvê-los à discussão literária brasileira.

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Editoria de Literatura e Arte da Plataforma Nacional do Facetubes c/Mhario Lincoln (editor-sênior). Pesquisa: Academia Maranhense de Letras; Academia Brasileira de Letras; Revista SOLETRAS/UERJ; Revista de Letras Juçara/UEMA; Aletria — Revista de Estudos de Literatura/UFMG; Revista de Literatura, História e Memória/Unioeste; material da obra fornecido à Editoria.

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