ENTREVISTA | PLATAFORMA NACIONAL DO FACETUBES
Entrevistadora: Iva Lima
Entrevistado: Sanfoneiro Artur Gonzaga
Produção editorial: Plataforma Nacional do Facetubes
A sanfona carrega uma parte importante da memória musical nordestina. No Maranhão, essa tradição encontra novas gerações dispostas a conhecer os mestres, estudar o instrumento e manter vivo um repertório construído por nomes fundamentais da música brasileira. É nesse caminho que se encontra Artur Gonzaga, instrumentista cuja trajetória musical começou em 2002, ainda no teclado, em São Luís Gonzaga do Maranhão. Entre 2009 e 2010, aproximou-se definitivamente da sanfona por intermédio de Índio do Acordeon. Mais tarde, aprofundou os estudos com o mestre Rui Mário. Hoje, participa de eventos ligados à cultura da sanfona, tem presença nas festas de São João e atua também como músico freelancer junto a bandas regionais e nacionais. Nesta entrevista a Iva Lima, Artur fala sobre formação, referências, tradição, repertório e o desejo de ser reconhecido pela dedicação ao instrumento.
IVA LIMA — Artur, como começou a sua história com a sanfona?
ARTUR GONZAGA — Foi mais ou menos entre 2009 e 2010. Eu estava morando na casa do mestre Índio, aqui da região de Pedreiras e Trizidela do Vale, e comecei a vê-lo tocar. Já tinha tido outros contatos com a sanfona, só que não da forma como vi o mestre Índio tocando. Foi ali que me apaixonei. Pensei: “É isso que eu quero para mim”. Eu já tocava um pouco de teclado, fazia algumas coisas, e comecei então a me interessar cada vez mais pela sanfona e a procurar conhecer melhor o instrumento. Foi por volta de 2010, inclusive em um período de enchentes muito fortes aqui em Pedreiras. A partir daquele momento comecei a pegar a sanfona diretamente e não parei mais.
IVA LIMA — Você carrega Gonzaga no nome artístico. Isso traz alguma responsabilidade?
ARTUR GONZAGA — Com certeza. Todo mundo pergunta nos meus forrós: “Por que Artur Gonzaga?”. Esse nome surgiu meio como uma brincadeira. Eu sou da cidade de São Luís Gonzaga e toco sanfona. Então juntaram uma coisa com a outra e ficou Artur Gonzaga. Encaixou certinho.
Já me chamavam também de Gonzaguinha e coisas assim. Hoje considero uma responsabilidade grande. Quando converso com outros sanfoneiros, alguns brincam: “Quem tem Gonzaga no nome precisa tocar muito”. Então o sujeito tem que pegar o instrumento, estudar e tocar bastante para chegar aos lugares e representar bem esse nome.
IVA LIMA — E quem são as suas maiores inspirações dentro desse universo musical?
ARTUR GONZAGA — Acho que, para praticamente todos os sanfoneiros, Dominguinhos é uma grande inspiração. O mestre Rui Mário falou muito dele para mim e chegou a tocar com ele.
Atualmente tenho como referência o próprio mestre Rui, Andrezinho, Nonato Lima, Mestre Índio... São muitos. E também Sivuca, naturalmente. Se eu for citar todos, vamos passar muito tempo aqui. São nomes que inspiram não apenas a mim, e sim muitos sanfoneiros.
IVA LIMA — Como você enxerga essa nova geração que está chegando ao forró de raiz?
ARTUR GONZAGA — Acho muito interessante. Essa turma jovem que está surgindo no forró de raiz parece trazer uma memória que veio dos pais, das famílias, de pessoas que escutaram muito essa música.
Eu também me considero jovem e continuo muito ligado ao forró tradicional. Para mim, é uma satisfação enorme ver uma nova geração entrando em contato com a tradição deixada por mestres como Luiz Gonzaga e Dominguinhos.
IVA LIMA — Então você acredita que manter essa tradição é fundamental?
ARTUR GONZAGA — É fundamental para todos nós. Não podemos deixar morrer. Pelo amor de Deus, não deixem essa cultura morrer. É uma coisa boa demais.
IVA LIMA — Vamos falar do repertório. O que você costuma levar para os seus shows?
ARTUR GONZAGA — Hoje tenho um grupo e geralmente levo um cantor e uma cantora. Procuro colocar bastante Elba Ramalho, Dominguinhos e, principalmente, repertório de Luiz Gonzaga.
Eu busco muito esse resgate do forró tradicional. Hoje, grande parte do meu repertório vem dessa música.
IVA LIMA — E tem João do Vale nesse repertório?
ARTUR GONZAGA — Com certeza. Tem muita música do mestre João do Vale.
IVA LIMA — Que bom saber disso. Qual foi um dos momentos mais marcantes da sua trajetória até agora?
ARTUR GONZAGA — Foram vários. Um deles está ligado ao mestre Rui Mário. Ele me deu muitas aulas e me fez lembrar coisas que eu até já tinha esquecido. Resgatou conhecimentos importantes sobre campo harmônico e também sobre teoria musical.
Certa vez, o mestre Rui veio tocar aqui na casa do doutor Edvaldo. Havia muitos sanfoneiros reunidos. Em determinado momento, ele me entregou a sanfona.
Peguei o instrumento no meio de muitos sanfoneiros bons. Andrezinho estava lá também. Para mim, foi um momento muito marcante porque toquei diante deles e, depois, vieram me dizer: “Rapaz, tu já viraste sanfoneiro mesmo”.
Receber aquele elogio foi importante. Quem é músico sabe que tocar na frente de outro grande músico pode gerar uma pressão danada. Naquele dia consegui tirar um som legal. Mestre Rui e os outros músicos disseram que estava bom. Aquilo ficou marcado para mim.
IVA LIMA — Qual é o maior sonho do artista Artur Gonzaga?
ARTUR GONZAGA — Acredito que muitos sanfoneiros têm esse desejo: ser reconhecidos pelo trabalho. Eu gostaria de ser reconhecido como sanfoneiro, nacionalmente e, quem sabe, internacionalmente.
Gostaria que alguém procurasse por sanfoneiros na internet, no YouTube ou no Instagram, encontrasse meu nome e dissesse: “Artur, de Pedreiras, é um bom sanfoneiro”. Claro que a parte financeira é importante, porque todo mundo trabalha também buscando uma condição melhor. Só que é o estudo que leva a pessoa a ser conhecida e respeitada dentro do meio. Eu gostaria de conquistar esse reconhecimento como Artur Gonzaga, sanfoneiro.
IVA LIMA — E o que o público pode esperar do instrumentista e sanfoneiro Artur Gonzaga?
ARTUR GONZAGA — O que o pessoal sempre me cobra: repertório. Aquele repertório antigo, muito forró e muito instrumental. Eu estudo bastante e pretendo também trazer inovação, seguindo algo que Dominguinhos sempre fez: inovar sem abandonar aquilo que veio antes.
IVA LIMA — Então você gosta dessa mistura entre tradição e inovação?
ARTUR GONZAGA — Exatamente. É isso que o público pode esperar: forró de verdade. Forró até cansar a sandália.
IVA LIMA — Até levantar o poeirão...
ARTUR GONZAGA — Isso! Aquele forró do poeirão.
IVA LIMA — Assim é bom demais. Artur, agradeço sua disponibilidade e desejo muito sucesso. Que muitas portas possam se abrir para você nesse cenário do forró de raiz.
ARTUR GONZAGA — Eu que agradeço.
IVA LIMA — O forró de raiz continua crescendo e existe toda uma caminhada para que essa cultura alcance espaços cada vez maiores. Para nós, forrozeiros, isso tem um significado muito forte. Há muitos anos carregamos essa bandeira. Cada passo, cada degrau conquistado, representa algo para forrozeiros, mestres, mestras, músicos, poetas e também para quem dança, porque tudo isso está ligado e faz parte da mesma cultura.
IVA LIMA — Para encerrarmos, você gostaria de deixar uma mensagem ao nosso editor, Mhario Lincoln, e aos leitores da Plataforma Nacional do Facetubes?
ARTUR GONZAGA — Quero agradecer pela oportunidade de nós, músicos e sanfoneiros, podermos nos apresentar e mostrar nosso trabalho. É importante reconhecer os sanfoneiros de cada cidade, e acredito que muita gente ainda será entrevistada.
Agradeço pela valorização da nossa classe. Como o mestre Índio sempre diz: não podemos deixar nossa cultura morrer. Hoje o forró é reconhecido como patrimônio cultural imaterial do Brasil, e isso representa muito para todos nós. Estamos aqui. Contem comigo. Agradeço demais pela oportunidade e mando um abraço para todo mundo que está acompanhando esta entrevista.
IVA LIMA — Obrigada.
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