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A morte como aprendizado da vida: Caio Castro Lima transforma perdas, memória e fé em reflexão sobre a existência

Em “A Morte é um Canto Gregoriano”, o jornalista e teólogo reúne experiências familiares, encontros nos cemitérios e fundamentos cristãos para discutir a finitude humana, o sofrimento e a responsabilidade de viver.

29/10/2026 16h35 Atualizada há 55 minutos atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Mhario Lincoln c/Editoria de Pesquisa e Extensão.
Caio Castro Lima: uma obra emocionante.
Caio Castro Lima: uma obra emocionante.

Mhario Lincoln, editor-sênior, com a Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes.

Em 1886, o escritor russo Liev Tolstói publicou A Morte de Ivan Ilitch, narrativa sobre um magistrado que, diante da própria morte, começa a reconhecer o vazio de uma existência organizada em torno das conveniências sociais. O personagem descobre, no sofrimento, que dedicou boa parte da vida a valores que já não oferecem respostas. Cento e quarenta anos depois, em 2026, o jornalista e teólogo brasileiro Caio Castro Lima examina a mesma condição humana por outro caminho. 

Em A Morte é um Canto Gregoriano — É Preciso Entendê-la para não Temê-la, publicado pela Juruá Editora, a proximidade da morte deixa de ser apenas um acontecimento que encerra a existência e passa a orientar uma reflexão sobre o tempo, a memória, o perdão e os vínculos construídos entre as pessoas. 

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Enquanto Tolstói utiliza a ficção para expor a vida que seu personagem não soube compreender. Caio Castro Lima recorre à própria biografia para mostrar o que aprendeu convivendo com a morte dos outros. A aproximação entre as obras encontra fundamento na consciência da finitude como instrumento de revisão da vida. 

Eu estou emocionado com a leitura dessa obra de Caio Castro Lima. Principalmente porque tem uma particularidade que sustenta sua construção narrativa. O autor é ministro extraordinário da Consolação e Esperança da Igreja Católica e participa de celebrações de exéquias em cemitérios. 

Por isso seu contato com famílias enlutadas, corpos preparados para sepultamento, despedidas interrompidas e manifestações de afeto fornece a matéria humana do livro. Não se trata de uma reflexão elaborada exclusivamente a partir de leituras filosóficas ou teológicas. A morte aparece em situações observadas, em experiências de infância, na perda do pai e nas histórias de pessoas que participaram de sua formação afetiva.

 

Uma das passagens que mais me prenderam está no relato da morte do pai, Ronaldo, em 2021, durante a pandemia de Covid-19. Após um acidente vascular cerebral, ele permaneceu 94 dias internado em unidade de terapia intensiva. Caio descreve as viagens entre Curitiba e o interior fluminense, as dificuldades para acompanhar a internação e o momento em que segurou a mão do pai, recebendo como resposta um aperto que interpretou como reconhecimento e demonstração de amor. (Realmente emocionante e já aconteceu comigo também). Perdi meu pai quando ele tinha 65 anos, em plena atividade jurídica. Por isso essa parte me emocionou bastante.

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Mas, a morte do pai do autor, ora resenhado, ocorreu em circunstâncias que impediram sua presença no sepultamento. O episódio concentra parte da reflexão desenvolvida ao longo do livro: a despedida nem sempre acontece como se deseja, e o sofrimento também pode nascer daquilo que ficou por dizer durante a convivência. A memória, nesse caso, torna-se um espaço de reconstrução das relações familiares.

O autor também recupera um episódio de sua adolescência, quando, aos 16 anos, tentou tirar a própria vida em meio a um sofrimento emocional. (Episódio muito forte). A experiência é apresentada como parte de sua trajetória de amadurecimento e de aproximação com a fé. Esse capítulo exige uma leitura que reconheça a dimensão pessoal do testemunho, preservando a distinção entre interpretação religiosa e conhecimento clínico. 

 

(Divulgação. Arte: Mhario Lincoln).

A sobrevivência, compreendida pelo autor como manifestação da vontade divina, representa sua convicção espiritual. A crise vivida na adolescência pertence igualmente ao campo da saúde mental, no qual o sofrimento requer acolhimento, acompanhamento e assistência adequada. É muito importante esse relato literária, onde o autor, sem medo, expõe sua fragilidade, mas também, mostra caminhos de superação e equilíbrio, onde o leitor mais atento, vai compreender a formação de sua visão sobre a vida. Simplesmente impactante!

Por outro lado, a escolha do canto gregoriano como metáfora central estabelece a unidade estética do livro. Vinculado à tradição litúrgica ocidental, esse canto serve ao autor como representação da solenidade, do silêncio e da continuidade. No capítulo que dá nome ao livro, Caio relaciona a experiência da morte à escuta musical e aproxima o fim da existência terrena de uma passagem que, segundo a fé cristã, conduz a outra condição de vida. 

A referência ao canto Media vita in morte sumus, cuja expressão significa “No meio da vida estamos na morte”, concentra essa interpretação. O título, portanto, não cumpre apenas uma função poética. Ele organiza a maneira como o autor compreende a finitude.

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Há também uma dimensão social que merece atenção. Ao descrever sepultamentos realizados com pouco tempo para despedidas, famílias sem recursos para cerimônias funerárias e situações de vulnerabilidade diante da morte, Caio aproxima sua reflexão religiosa de uma realidade marcada pelas desigualdades. 

A dignidade defendida no livro ultrapassa a preparação espiritual do indivíduo. Ela alcança o tratamento dispensado ao corpo, o respeito ao sofrimento familiar e a responsabilidade coletiva de acompanhar quem enfrenta uma perda. Essa abordagem encontra correspondência nos debates contemporâneos sobre humanização da assistência e cuidados paliativos.

Destarte, a obra assume, desde a introdução, sua vinculação ao cristianismo católico e à crença na ressurreição. Tal posicionamento confere coerência à narrativa e estabelece os limites de sua argumentação. A experiência autobiográfica sustenta o testemunho. A fé sustenta a esperança na continuidade da vida. No meu ponto de vista, este trabalho encontra maior consistência nos capítulos em que a experiência individual se transforma em reflexão sobre problemas compartilhados por diferentes grupos sociais. 

A contribuição de A Morte é um Canto Gregoriano... está na maneira como seu autor transforma uma experiência habitualmente associada ao silêncio, em assunto de convivência. Ao narrar suas perdas, Caio Castro Lima reconhece o sofrimento de quem permanece vivo e recupera a importância dos gestos que antecedem a despedida. A morte, nessa perspectiva, não elimina a responsabilidade humana. Ela acrescenta urgência ao exercício do cuidado, à reconciliação e ao reconhecimento do outro.

O livro termina conduzindo a reflexão para o legado de cada existência. A memória que permanece entre familiares e amigos passa a ser compreendida como resultado das relações construídas em vida. É nesse ponto que a leitura reencontra a questão apresentada por Tolstói no século XIX. A consciência da morte obriga o indivíduo a examinar suas escolhas, suas ausências e a maneira como tratou as pessoas que participaram de sua história. Caio Castro Lima oferece uma resposta fundada na fé, no serviço religioso e na experiência do amor. Seu livro deixa ao leitor uma constatação que ultrapassa os limites de uma confissão religiosa: a maneira como uma pessoa enfrenta a morte também revela a maneira como aprendeu a viver.

Uma obra que me fez refletir sobre mim e sobre os meus. Com certeza já está em meu grupo de indicações de leitura. Obrigado pela oportunidade de ter lido esse livro.

Mhario Lincoln, presidente da Academia Poética Brasileira e editor-sênior da Plataforma Nacional do Facetubes/Curitiba-PR.

*****

Referência da obra resenhada
LIMA, Caio Castro. A Morte é um Canto Gregoriano: É Preciso Entendê-la para não Temê-la. Curitiba: Juruá Editora, 2026. Edição disponibilizada para análise, com 102 páginas no arquivo PDF.
Fontes e referências
1. LIMA, Caio Castro. A Morte é um Canto Gregoriano. Juruá Editora, 2026. Obra integral fornecida para esta resenha, especialmente introdução e capítulos 1, 3, 4, 7, 18, 19, 20 e 21.
2. TOLSTÓI, Liev. A Morte de Ivan Ilitch. Publicação original de 1886. Referência editorial: Editora Hedra.
3. National Endowment for the Arts. The Death of Ivan Ilyich, programa The Big Read. Material de referência literária.
4. Ciência & Saúde Coletiva. Estudo acadêmico sobre A Morte de Ivan Ilitch e o processo de adoecimento. Artigo disponível na SciELO.
5. ARANTES, Ana Cláudia Quintana. A Morte é um Dia que Vale a Pena Viver (2019) e Histórias Lindas de Morrer (2020). Editora Sextante. Obras constantes das referências bibliográficas de Caio Castro Lima.

 

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Ten Justino Lopez CapelãoPMHá 1 hora atrásNiteroi RJUm homem como o Caio já alcançou a graça. esses são os homens de Deus que carregam a tromb eta sagrada para mostrar a esse mundo caótico o quanto vale a vida e o quanto vale se tratar as pessoas bem e com amor. Porque a morte é certa. Como diz a música que ele cita no livro Media vita in morte sumus. Amém!
Irmã LenitaHá 1 hora atrásPonta Grossa PRPai Nosso que estás no Céu. Obrigado Senhor por colocar em nossa frente um livro cheio de graça como o vosso, Caio.
Pastor Luziáco PedrosaHá 1 hora atrásBarreirinhas _MAquero parabenizar o professor Caio pela fortaleza que representa com sua fé inabalável e sua coragem para com sua propria dor, dar exemplo de vida para nós que sofremos. Amém!
Eunice Castro e Costa professora e diacona.Há 1 hora atrásBlumenau SCInfelizmente o Homem está perdendo seus melhores momentos, Mhario. esquece que A fé sustenta a esperança na continuidade da vida.
M.S.OliveiraHá 1 hora atrásSão Paulo SPMhario Lincoln quero paracebizá-lo por esse texto grandioso e dezer que passei por momentos difíceis tambem. Essa leitura com certeza me trouxe mais alívio. Obrigado.
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