Textos Escolhidos:
CRÔNICA DA ESPERANÇA CRÔNICA
Edmilson Sanches*
Pé ante pé. Dia após dia. E de repente, “não mais que de repente”, já não havia mais tempo, já não havia mais dia. O ano se acabou.
O lugar do calendário é uma parede vazia, cheia de cor, quadro-verde onde traçaremos, a giz, os passos de mais um "ballet" de esperança.
Esquecida no chão, resta a folhinha de um último dia, ponto de partida, sinal de largada para uma nova maratona, teste de resistência. E sobrevivência.
* * *
Não; nós nunca esqueceremos 2020. Não devemos. Não podemos esquecer (alguns bem que gostariam). O ano morto está vivo dentro de nós.
Sabemos: 2020 foi danado, agoniado, sapato acochado, faca afiada, de dois gumes. Mas resistimos. “Resistir é permanecer”.
Vamos encarar 2021, de peito estofado e queixo erguido. Vamos recuperar, ou fortalecer, a confiança deste Povo, os méritos deste País. Sem falsas expectativas nem exageradas angústias. Mas serenidade e espírito de luta, como sempre.
E, como sempre, vale a pena um bocadinho de oração, um pouquinho de reflexão, em quaisquer lugares, insabidos ou incertos. Pode ser de manhãzinha na igreja, ou à tardinha no bar.
Nesses momentos, com o copo ou com o rosário, mais uma vez o que vale é a intenção, o que importa é o homem. O homem e sua alma. Pois nem tudo está perdido.
Muito bem. Nem oito nem oitenta. Nem nove nem noventa. Nem cem ou mil. Dois mil. E vinte e um. Quem sabe, com 2021 estaremos ganhando um belo futuro. De presente.
Vamos ter esperança. De quê? Em quê? Ora... Na gente mesmo.
Vamos dar uma geral na vida. Uma geral no trabalho. Uma geral no País. Em nosso estado. Em nossa cidade. Bem que precisa.
Precisamos.
Pois todo ano novo
é sempre um novo ano,
de sonhos fartos
e visões nuas
que embalam
su-a-ve-men-te
os viventes
destas ruas.
Há lágrimas nos olhos.
Há um aperto no coração.
Há um nó na garganta.
Há uma dor no peito,
um frio no lombo,
suor nas mãos...
Mas há sorrisos também. E disposição para continuar vivo.
É assim mesmo –– perfeição é coisa de Deus; não ficou para o homem. Então, vamos lá!
Pelas palavras do Poeta, temos a certeza de que
“o último dia do ano
não é o último dia do tempo.
O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Novas coxas e ventres se abrirão
e nos comunicarão o calor da vida”.
Perdemos 2020. Mas não perdemos a vida nem a vontade de viver.
Ganhamos 2020, porque ultrapassamos sua própria marca, transpusemos suas barreiras. Chegamos ao seu fim sem nos finarmos.
Em 2020 tanta esperança nos foi frustrada, tanta coisa nos foi tirada...
Mas nada, nada neste mundo de meu Deus, impedirá que a vida sobreviva, que a esperança continue.
Por tudo isso, e por isso tudo, feliz, mas feliz mesmo, FELIZ ANO NOVO!
EDMILSON SANCHES.
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