Editoria da Plataforma Nacional do Facetubes c/ Mhario Lincoln, editor-sênior.
A poeta Socorro Guterres escolheu a literatura de cordel para contar uma história que começa com a privação da liberdade e termina com a reivindicação da igualdade humana. Em A Peleja Ancestral na Construção Nacional, a autora reúne 16 estrofes de seis versos, organizadas em uma narrativa que acompanha o tráfico de africanos escravizados, o trabalho compulsório, a violência contra as mulheres negras, a resistência de Zumbi e Dandara e a participação afro-brasileira na construção cultural do país. O título estabelece o eixo interpretativo da obra: a formação nacional é apresentada como resultado de uma luta histórica, na qual a população negra não figura apenas como vítima da escravidão, sendo também sujeito de resistência, criação e transformação social.
A composição utiliza a sextilha, uma das modalidades tradicionais da literatura de cordel, geralmente associada à redondilha maior, com sete sílabas poéticas, e à rima nos versos pares. Socorro preserva o princípio narrativo dessa tradição, empregando vocabulário acessível e passagens destinadas à leitura em voz alta. Sua linha temática dialoga com a dimensão educativa e social do cordel brasileiro.
PRIMEIRO RECORTE — A VIOLÊNCIA DA ESCRAVIDÃO
O tempo da servidão
Muito lamento legou
Desde o tráfico negreiro
Que no Brasil degredou
Milhares de escravizados
Onde a dor se efetivou.
A primeira passagem selecionada concentra a origem do conflito. A poeta situa a escravidão como uma ruptura na vida de populações africanas trazidas compulsoriamente ao Brasil. Nas estrofes seguintes, aparecem as minas, as lavouras, a criação de gado e o corpo submetido ao açoite. A violência sexual contra mulheres escravizadas também integra essa reconstrução. O emprego de expressões como “tempo da servidão” e “lamento” aproxima o relato histórico da experiência humana. O cordel assume, nesse trecho, a função de testemunho poético de uma violência documentada pela historiografia brasileira. A palavra “degredou” sintetiza, na linguagem da autora, a perda da terra, da liberdade e dos vínculos sociais.
SEGUNDO RECORTE — A RESISTÊNCIA DOS QUILOMBOS
Era o valente Zumbi
Homem de brio e coragem
Do Quilombo de Palmares
Que rompeu tal vassalagem
E tendo ao lado Dandara
Vestiu brava roupagem.
Aqui ocorre a mudança mais importante da narrativa: o sofrimento coletivo encontra uma resposta organizada. Zumbi e Dandara surgem como representantes da resistência negra, deslocando o centro da história dos senhores escravistas para aqueles que enfrentaram o sistema. A referência ao Quilombo dos Palmares situa a luta pela liberdade num espaço histórico de organização comunitária e enfrentamento ao poder colonial. A Fundação Cultural Palmares reconhece Zumbi como uma das principais referências dessa resistência. A autora associa sua memória ao 20 de novembro, data transformada em feriado nacional pela Lei nº 14.759, de 21 de dezembro de 2023. No plano literário, essa passagem representa a passagem da submissão imposta à afirmação da própria existência.
TERCEIRO RECORTE ESCOLHIDO — A CONTRIBUIÇÃO À IDENTIDADE BRASILEIRA
Na literária palavra
Da perfeita narração
Temos nomes memoráveis:
Firmina, Auta, Conceição,
Machado e Luiz Gama,
Modelos de atuação.
A terceira estrofe escolhida apresenta uma mudança de perspectiva: a história deixa o território da exploração econômica e alcança a produção intelectual. Maria Firmina dos Reis, Auta de Souza, Conceição Evaristo, Machado de Assis e Luiz Gama são reunidos como referências de uma presença negra que participou da formação da literatura brasileira. A enumeração funciona como instrumento de reconhecimento cultural. Nas estrofes seguintes, Socorro estende esse inventário à gastronomia, à música, à capoeira e a outras manifestações de origem ou influência africana. A composição demonstra que a contribuição negra à nacionalidade não se limita ao trabalho realizado durante a escravidão. Ela alcança a linguagem, a criação artística, os costumes e a memória social. A obra também abre espaço para uma observação crítica: essa contribuição precisa ser compreendida sem reduzir a identidade afro-brasileira à ideia de miscigenação, considerando as desigualdades e os conflitos que atravessaram sua formação.
QUARTO RECORTE — A IGUALDADE COMO DESTINO SOCIAL
Em toda sociedade
De equânime construção
É preciso simetria
Para total união
Dos homens em igualdade,
Como irmãos sem distinção.
A última seleção reúne a finalidade ética do poema. Depois de percorrer a escravidão, a resistência e o legado cultural africano, a autora apresenta a igualdade como exigência para a vida coletiva. O encerramento do cordel inclui uma dedicatória à abolicionista Nísia Floresta e uma condenação ao racismo, relacionando o passado à responsabilidade social do presente. A análise das quatro estrofes permite reconhecer o percurso da obra: a liberdade retirada, a resistência construída, a contribuição cultural consolidada e a igualdade ainda reivindicada.
Na tradição do cordel, essa organização aproxima o texto da poesia de intervenção social, na qual a narrativa também procura formar consciência. Socorro Guterres - destarte - utiliza a memória histórica como matéria literária e faz da peleja ancestral uma interpretação da própria construção do Brasil. Excelente intervenção cordelista.
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