SENTENÇA
Colunista convidada: Joema Carvalho.
- Sim, ele cuida bem de mim. Ele é bonzinho
Quando ela concluía, ele a beijava na boca.
Repetiam a mesma sequência várias vezes, cada um com a sua idiossincrasia.
Ela recomendava que não era para escutar o que diziam:
- Tudo mentira. Tudo invejoso.
Repetia, repetia, repetia, balançando o tronco feito pêndulo de relógio antigo.
Defendia o seu amado. Bastava estar aberto, para o amor acontecer.
Recentemente, a havia trocado por outra mulher mais nova, recém chegado a casa de repouso. Ela não lembrava de mais nada. Ficará doente. Precisou passar dias com as filhas. Advogadas que trabalhavam e não tinham como cuidar da mãe em casa. Lembrava apenas que o amava. O filtro tornou-se restritivo a dor. Voltou com unha pintada e cabelo arrumado.
Ele saia para passear com a filha quando ela estava na cidade. Levava-o para tomar sorvete e no parque. Não conseguia se abaixar para entrar no carro. Precisava da ajuda dos enfermeiros. Seu corpo era inteiro enrijecido. Como sempre fora, agora visível. Transgredia o tempo. Estar com a mãe morta a anos ou com as filhas ali presentes, um mesmo espaço e sentido. A tenra idade de um espírito que se encontrava em um corpo em final de ciclo. Em pouco tempo definhou.
Ele reconhecia as filhas com um sorriso e pelo nome delas. As imagens de um livro de fotografias de um tempo em que fora útil. Roía os lençóis, a roupa e a gaze que o amarrava a cama. Feito um rato.
Não havia mais passado e presente. Era o seu último instante. Uma despedida lenta, como tantos outros no paliativo. Estórias distintas. Caminhos que se cruzaram em uma mesma sentença. Nós mesmos, uma das partes.
(Abaixo, foto da autora):

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