Plataforma Nacional do Facetubes — Editoria de Literatura e Arte c/ Mhario Lincoln
“Espelho”, de Ozileia Damacena Simão: a imagem como escolha de reconhecimento
O poema “Espelho” trata do conflito entre a imagem projetada pelo espelho e a resistência interna da mulher que se observa. O reflexo afirma uma identidade que o pensamento ainda questiona. Nesse confronto, o espelho deixa de ser apenas um objeto e passa a representar a decisão de reconhecer o próprio valor.
A voz poética não ignora suas dúvidas. Ela admite a cobrança pela perfeição, o ritmo lento de algumas conquistas e a influência das opiniões que circulam ao redor. O movimento do poema ocorre quando essa mulher decide não aceitar como verdade tudo o que vê ou escuta. A autoestima surge como exercício de continuidade, não como ausência de insegurança.
“O espelho diz que sou a mais bela mulher,
Embora o cérebro teimoso queira me contrariar.”
Ao final, a mulher escolhe permanecer diante da imagem que deseja construir para si. O espelho devolve uma figura que já existia, mas ainda precisava ser aceita por quem a contemplava.
O ORIGINAL DO POEMA:
ESPELHO (Ozileia Damacena Simão).
Eu não irei brigar comigo mesmo e me nivelar,
E sim aceitar o que me proponho a ver,
O espelho diz que sou a mais bela mulher,
Embora o cérebro teimoso queira me contrariar.
Vejo uma mulher exuberante e inteligente,
Tentando e buscando a perfeição,
Mas às vezes no caminho devagar,
Mesmo sem ter a verdadeira razão!
Eu prometi a mim mesmo tentar,
E ir em busca do melhor pra mim,
Com tantas medidas sem desanimar,
É importante a autoestima do sim.
Não entendo por que tenho que acreditar,
Em tudo que vejo ou escuto aqui e ali,
O que posso fazer é continuar vendo,
A linda mulher que o espelho mostra aqui.
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“Receita de barro”, de Graça Olliver: o trabalho do pássaro convertido em narrativa
Em “Receita de barro”, Graça Olliver acompanha a construção de uma morada feita com barro, palha e musgo. A cena parte da observação de um pássaro — identificado pelos gestos, pelo bico e pelo formato da casa — que recolhe materiais, mede espaços e repete movimentos até concluir sua obra.
O poema aproxima o trabalho do joão-de-barro das práticas humanas. Construir torna-se receita, arquitetura, aprendizado e ritual. A repetição de expressões como “ia e vinha” e “rola daqui, gira dali” reproduz o ritmo da tarefa e permite que o leitor acompanhe cada etapa da construção.
“Sem planta, erguia na planta paredes de conhecimento.”
A casa de barro também desperta lembranças. A observadora recorda uma casa de taipa e percebe que, embora os formatos sejam diferentes, existe uma origem comum: barro, esforço, abrigo e proteção. O pássaro e o ser humano aparecem ligados pelo ato de construir um lugar para permanecer. O encerramento retoma os “bolinhos de barro” mencionados no início. A expressão transforma o ninho em alimento da imaginação e conclui o percurso entre realidade, memória e brincadeira.
“E eu que falava de bolinhos de barro...
Agora escuto risadas ritmadas, com asas a bater como aplausos diante da beleza de construir.”
O POEMA ORIGINAL
Receita de barro
A manhã, e o sol já começa a abraçar as nuvens.
Aquele olhar já começa a desvendar os encantos que ornam cada amanhecer.
Sempre há novidades para surpreender essas janelas que miram em aquarelas.
Bolinhas de barro. Que surpresa mais gostosa! Gostosa como pés descalços a correr.
Ali estava ele. Ia e vinha, ia e vinha, como quem brinca de dançar.
Bico ou mãos de artista? Destreza, capricho.
Sem planta, erguia na planta paredes de conhecimento.
Barro amassado, palha, musgo...
Rola daqui, gira dali. Lembrei até de receita!
Que arquitetação! Detalhes...
Olho para um lado, depois para o outro. Gestual ou ritual?
Dias, um após o outro, sem pressa. Atenção. Devoção.
Hora da porta. Movimentos de cabeça.
Olhou com o olhar de quem busca uma direção.
Já ouvi alguém dizer que a porta anuncia a estação.
Para onde sopram os ventos?
Para onde caminham as chuvas?
Meu pensamento se soltou.
Por um breve instante, avistei uma casa de taipa.
Mas aqui o formato é outro.
E ali, aos poucos, via nascer, entre galhos e folhas que cintilam, um palácio com cara de forno.
E eu que falava de bolinhos de barro...
Agora escuto risadas ritmadas,
com asas a bater como aplausos diante da beleza de construir.
Hora de entrar.
Quem sabe tem bolinhos de barro para mim?
Graça Olliver
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“Exaltação da Natureza”, de Alcina Maria Silva Azevedo: corpo, flores e integração
“Exaltação da Natureza” apresenta uma mulher nua deitada sob uma árvore florida. As pétalas caem sobre seu corpo e formam uma veste. A natureza não funciona apenas como cenário: participa da cena, cobre a nudez, espalha perfume e reage à presença humana.
“Foram caindo e,
cobriram sua nudez,
com uma veste perfumada.”
A personificação das flores organiza o poema. Elas gemem, sentem ciúme e exalam perfume. Esses movimentos aproximam o corpo feminino da árvore, como se ambos pertencessem ao mesmo ciclo. A nudez não aparece como exposição, mas como retorno a uma condição anterior às convenções sociais.
“E a natureza se exaltava.
Exalando o perfume
das flores enciumadas.”
O poema constrói uma relação entre mulher e ambiente sem separar uma presença da outra. As pétalas que adornam o corpo também afirmam a natureza como força que acolhe, envolve e transforma.
O ORIGINAL
EXALTAÇÃO DA NATUREZA.
Ela se deitou em baixo da arvore florida
Estava núa.
As pétalas das flores, gemiam com a beleza dela.
Foram caindo e,
cobriram sua nudez,
com uma veste perfumada,
adornando sua tez.
E a natureza se exaltava.
Exalando o perfume
das flores enciumadas.
Alcina Maria Silva Azevedo.
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