Plataforma Nacional do Facetubes — Editoria de Literatura e Arte c/ Mhario Lincoln
“Espelho”, de Ozileia Damacena Simão: a imagem como escolha de reconhecimento
O poema “Espelho” trata do conflito entre a imagem projetada pelo espelho e a resistência interna da mulher que se observa. O reflexo afirma uma identidade que o pensamento ainda questiona. Nesse confronto, o espelho deixa de ser apenas um objeto e passa a representar a decisão de reconhecer o próprio valor.
A voz poética não ignora suas dúvidas. Ela admite a cobrança pela perfeição, o ritmo lento de algumas conquistas e a influência das opiniões que circulam ao redor. O movimento do poema ocorre quando essa mulher decide não aceitar como verdade tudo o que vê ou escuta. A autoestima surge como exercício de continuidade, não como ausência de insegurança.
“O espelho diz que sou a mais bela mulher,
Embora o cérebro teimoso queira me contrariar.”
Ao final, a mulher escolhe permanecer diante da imagem que deseja construir para si. O espelho devolve uma figura que já existia, mas ainda precisava ser aceita por quem a contemplava.
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“Receita de barro”, de Graça Olliver: o trabalho do pássaro convertido em narrativa
Em “Receita de barro”, Graça Olliver acompanha a construção de uma morada feita com barro, palha e musgo. A cena parte da observação de um pássaro — identificado pelos gestos, pelo bico e pelo formato da casa — que recolhe materiais, mede espaços e repete movimentos até concluir sua obra.
O poema aproxima o trabalho do joão-de-barro das práticas humanas. Construir torna-se receita, arquitetura, aprendizado e ritual. A repetição de expressões como “ia e vinha” e “rola daqui, gira dali” reproduz o ritmo da tarefa e permite que o leitor acompanhe cada etapa da construção.
“Sem planta, erguia na planta paredes de conhecimento.”
A casa de barro também desperta lembranças. A observadora recorda uma casa de taipa e percebe que, embora os formatos sejam diferentes, existe uma origem comum: barro, esforço, abrigo e proteção. O pássaro e o ser humano aparecem ligados pelo ato de construir um lugar para permanecer. O encerramento retoma os “bolinhos de barro” mencionados no início. A expressão transforma o ninho em alimento da imaginação e conclui o percurso entre realidade, memória e brincadeira.
“E eu que falava de bolinhos de barro...
Agora escuto risadas ritmadas, com asas a bater como aplausos diante da beleza de construir.”
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“Exaltação da Natureza”, de Alcina Maria Silva Azevedo: corpo, flores e integração
“Exaltação da Natureza” apresenta uma mulher nua deitada sob uma árvore florida. As pétalas caem sobre seu corpo e formam uma veste. A natureza não funciona apenas como cenário: participa da cena, cobre a nudez, espalha perfume e reage à presença humana.
“Foram caindo e,
cobriram sua nudez,
com uma veste perfumada.”
A personificação das flores organiza o poema. Elas gemem, sentem ciúme e exalam perfume. Esses movimentos aproximam o corpo feminino da árvore, como se ambos pertencessem ao mesmo ciclo. A nudez não aparece como exposição, mas como retorno a uma condição anterior às convenções sociais.
“E a natureza se exaltava.
Exalando o perfume
das flores enciumadas.”
O poema constrói uma relação entre mulher e ambiente sem separar uma presença da outra. As pétalas que adornam o corpo também afirmam a natureza como força que acolhe, envolve e transforma.
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