Editoria-Geral da Plataforma Nacional do Facetubes
A banalidade da violência começa quando uma morte já não interrompe a rotina da redação, apenas a alimenta.
Primeiro, cabe uma explicação para não haver quaisquer que sejam mal-entendidos: Hannah Arendt formulou a expressão “banalidade do mal” ao analisar o julgamento de Adolf Eichmann, funcionário nazista responsável pela organização burocrática da deportação de milhões de pessoas. A filósofa não afirmou que o mal fosse pequeno, comum ou insignificante.
Sua tese apontava para algo mais perturbador: crimes monstruosos podem ser executados por pessoas aparentemente normais quando elas renunciam ao pensamento crítico, ao julgamento moral e à responsabilidade individual. Eichmann representava, para Arendt, o homem que cumpria procedimentos, repetia fórmulas e obedecia à engrenagem sem refletir seriamente sobre as consequências humanas de seus atos.
Transportar esse conceito para a mídia de hoje em dia, exige prudência. Uma redação jornalística não pode ser comparada diretamente à máquina nazista observada por Arendt. Entretanto, a ideia ajuda a compreender como a violência pode ser normalizada por rotinas profissionais aparentemente neutras: selecionar o crime mais chocante, buscar imagens mais fortes, repetir cenas, explorar o desespero familiar, ouvir quase exclusivamente a polícia e seguir para a próxima tragédia. O sofrimento deixa de ser uma ruptura moral e passa a integrar a programação diária.
Nesse processo, o mal pode ser banalizado pelo formato. Uma morte vira chamada; a chamada vira audiência; a audiência vira faturamento; e, no dia seguinte, outra vítima ocupa o mesmo lugar. O crime recebe nome, rosto, sangue e detalhes. Suas causas sociais, econômicas e institucionais, porém, quase sempre recebem poucos minutos ou poucas linhas. É a transformação da barbárie em rotina produtiva.
Uma pesquisa nacional recente oferece uma medida concreta dessa presença. O relatório brasileiro do Global Media Monitoring Project 2025 analisou, em 6 de maio de 2025, dez jornais impressos, oito emissoras de rádio, oito canais de televisão e 12 sites jornalísticos. Naquele recorte, “Crime e Violência”, sem contar separadamente a violência de gênero, representou aproximadamente 7% das notícias dos jornais impressos, 20% das notícias das rádios, 30% das televisões e 16% das notícias da internet. Na televisão, portanto, três em cada dez notícias monitoradas tratavam de crime ou violência.
O levantamento incluiu veículos de referência nacional, regionais, populares e emissoras de grande alcance. Isso demonstra que a centralidade da violência não pertence somente aos programas abertamente sensacionalistas. Ela também atravessa a chamada imprensa de prestígio, ainda que apareça com linguagens mais sóbrias. É preciso registrar, contudo, que o GMMP representa o noticiário de um dia específico, e não uma média anual definitiva.
No caso das revistas, não foi localizada uma medição nacional recente, uniforme e diretamente comparável à pesquisa de 2025. Um levantamento histórico da ANDI, realizado em 2000, analisou 50 jornais e oito revistas de circulação nacional dentro da cobertura sobre infância e adolescência. Nesse universo específico, 22,92% das 64.396 matérias tratavam de violência. O relatório não separou o percentual exclusivo das revistas, mas identificou Veja e Criativa entre as publicações que mais abordaram o assunto. Mais grave: 85,43% das matérias sobre violência eram predominantemente factuais, isto é, limitadas ao acontecimento imediato e com pouca contextualização. Portanto, esse número não pode ser apresentado como retrato atual de todas as revistas brasileiras, mas permanece revelador sobre um padrão histórico da cobertura.
Por outro lado, estudos do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania confirmaram essa tendência. Depois de analisar 5.165 textos sobre criminalidade e segurança pública, os pesquisadores observaram que 77,7% das matérias dos jornais do Rio de Janeiro e 63,8% das matérias da pesquisa no Sudeste eram essencialmente factuais. Apenas 6,1% da amostra nacional correspondia a entrevistas, editoriais, investigações ou reportagens especiais de iniciativa da própria imprensa. Políticas de segurança pública eram o foco principal em somente 3,6% a 4,2% dos textos estudados. A estrutura jornalística corria atrás do crime já ocorrido, mas raramente investigava com a mesma intensidade aquilo que poderia evitá-lo.
O problema se aprofunda nos programas chamados “policialescos”. Em apenas 30 dias de monitoramento, a ANDI analisou 28 programas de rádio e televisão exibidos em dez capitais e encontrou 1.928 narrativas contendo violações de direitos. Nessas narrativas foram identificadas 4.500 violações, além de milhares de infrações a leis, acordos internacionais e normas de autorregulação jornalística. Não se tratava somente de informar sobre crimes, mas de expor pessoas, antecipar condenações, invadir a privacidade, incentivar discursos punitivos e, em certos casos, transformar a humilhação em entretenimento.
A repetição produz uma inversão perigosa. A violência deveria provocar indignação, investigação e cobrança institucional. Quando é apresentada diariamente como espetáculo, ela pode gerar familiaridade, medo permanente e certa anestesia moral. Um estudo publicado pela revista científica Opinião Pública, baseado em moradores do Distrito Federal, concluiu que a influência da mídia sobre o medo do crime varia conforme o veículo, o conteúdo apresentado e as características do público. A imprensa não cria sozinha a insegurança, mas participa da maneira como a sociedade percebe, dimensiona e reage a ela
A cobertura excessivamente policial também interfere na política. Uma população mantida sob sensação contínua de ameaça tende a aceitar respostas imediatistas, endurecimento penal sem planejamento, abusos policiais e discursos de eliminação do suposto inimigo. Quando o jornalismo apresenta apenas o criminoso, a vítima, a arma e a prisão, desaparecem da narrativa a evasão escolar, o mercado ilegal de armas, a desigualdade urbana, a ausência do Estado, a corrupção institucional, o sistema prisional e as políticas comprovadamente capazes de reduzir homicídios.
Informar sobre a violência é obrigação do jornalismo. Ocultá-la seria igualmente irresponsável. O limite ético está entre revelar e explorar, esclarecer e excitar, fiscalizar e condenar antecipadamente. Uma reportagem responsável identifica vítimas sem destruí-las novamente, confronta versões policiais, acompanha processos, apresenta dados, investiga causas, verifica políticas públicas e oferece à sociedade elementos para compreender o problema.
Assim, a banalidade da violência começa quando uma morte já não interrompe a rotina da redação, apenas a alimenta. Começa quando o ser humano se transforma em imagem, estatística, audiência ou intervalo comercial. Contra essa engrenagem, a lição possível de Hannah Arendt permanece atual: pensar é uma responsabilidade moral. Para o jornalista, pensar significa recusar o automatismo da crueldade e lembrar que, atrás de cada manchete, existe uma vida que não pode ser reduzida a espetáculo.
**Fontes consultadas:** Stanford Encyclopedia of Philosophy; Internet Encyclopedia of Philosophy; Global Media Monitoring Project — Relatório Nacional Brasil 2025; ANDI — Comunicação e Direitos; Centro de Estudos de Segurança e Cidadania; Ministério da Justiça; Intercom — Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação; revista científica *Opinião Pública*.
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