Dino de Alcântara
Quando em meados da década de 60 do Século XIX, Dom Luiz da Conceição, entrava na Catedral de São Luís, hoje Igreja da Sé, encontrou, sentada na fileira da frente, a esposa do comerciante Manoel Potilha, um dos mais ricos do Maranhão, dirigiu-se a ela, após fazer um breve sinal da cruz.
Dona Eunice era conhecida como a Helena de São Luís, tão bonita que era. Dizia-se à boca miúda e, às vezes, às gargalhadas nas quitandas da ilha, que a qualquer momento poderia chegar, talvez vindo da Troia maranhense, um Páris para raptar essa deusa do Maranhão.
Não se sabe se foi pensando na coragem do príncipe Páris que o Bispo Luiz da Conceição cumprimentou aquela mulher, assim que deu com ela na fileira da frente da igreja.
Após os cumprimentos e uma benção formal, Dona Eunice pediu uma audiência com a sua Reverendíssima.
Agora ali, na sala de audiência do Bispo, aquela deusa tirava o chapéu e mostrava mais o rosto, o cabelo solto, os olhos meio esverdeados, brilhantes como uma estrela. Tinha já passado dos 30, quase chegando aos 40, mas poucos lhe davam essa idade.
E ela, depois de tratar de assuntos formais, como dízimos, ladainhas, presépios, etc., tocou num assunto delicado. Queria saber se desejar um homem, sendo ela casada, era pecado.
Ao que o Bispo, com os olhos presos ao olhar da Helena maranhense, soltou esta frase, que entraria para os anais da vida maranhense.
– Olha, Dona Eunice, mesmo parecendo um pecado, olhar e desejar alguém não é pecado muito grave, não...
E, lembrando-se de um sermão que ouvira da boca do Bispo, há tempos, quando este pregava na mesma igreja em que estavam agora, com a curiosidade que a vida lhe deu, inquiriu o religioso:
– E desde quando o senhor Bispo tem essa opinião?
Dom Luiz, sem hesitar, olhando mais profundamente os olhos daquela deusa, disparou:
– Há menos de meia hora!
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