À lenha
Joema Carvalho
Dedicado à minha avó Alzira
Para as festas de fim de ano, 15 a 20 frangos, criados ali, tinham o pescoço destroncado no joelho das mulheres e depenados com água fervente. Os homens matavam, limpavam e cortavam três leitoas. Todos temperados na véspera. No dia, eram recheados e assados em mim. Eu aquecia aos poucos. Minha brasa assentava por 15 a 20 minutos. Deixava resíduos que eram varridos com uma vassoura de mato. As carnes permaneciam por duas ou três horas. Já o pão precisava de menor quantidade de lenha e tempo, em uma hora estava pronto. “Aqueles assados eram a coisa mais linda”, dizia quem cozinhava.
O período de festas era intenso. Preparadas com antecedência de um mês. À mesa, ao lado das coxinhas, frango à passarinho e o tradicional mamão verde, espetado com palitos de azeitona, queijo e salame. O pastel em flor, uma rosa de massa cortada com forma de latão em “pétalas” sobrepostas e intercaladas, cujo miolo unido por clara. Um bastão pontiagudo segurava a “flor” na frigideira durante a fritura, recheada depois com maionese.
Durante a primavera, o milho era plantado. O verão passava. As folhas das árvores começavam a cair, anunciando o frio. A chuva ficava pouca. Ventava mais no período da colheita.
Eu observava o trabalho que se iniciava de madrugada. Os homens cortavam as pontas dos milhos. As crianças tiravam as suas cascas e cabelos. Algumas espigas traziam lagartas próximas às pontas. Deixavam uma gosma marrom melada que quando tocada, trazia uma sensação ruim nas mãos delas. A matrona assumia o seu posto. Sentada em uma cadeira, ralava o milho em uma panela de ferro grande. Contava que, quando pequena, a boneca era feita com o sabugo, cabelos e palhas de milho quando morava em um sítio no interior de São Paulo.
Eu aquecia este caldo que era misturado com leite, açúcar e uma pitada de sal. Mexiam com uma colher de pau. No fim da tarde, cosiam-se os saquinhos na máquina de costura. À noite, as pamonhas quentes eram colocadas dentro deles, amarrados com o cordãozinho fino, feito da própria palha. Parte fervia na panela deixada sobre mim, por mais tempo. Virava curau, armazenado em uma vasilha de vidro dentro da geladeira. Do bagaço se fazia bolo. Nada era perdido.
Outra época. A carne é assada no fogão a gás ou na churrasqueira. Não tem mais milho. As festas são de aluguel. Como objeto decorativo, aprendi a ser o canto de um tempo que ainda me resta.

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