PRISMA
Joema Carvalho
O pai falecera antes dela nascer. Um acidente de carro tirou a vida de quem talvez lhe desse base. A vida iniciou a partir de uma desestrutura. Um processo todo a ser delineado.
A mãe logo tratou de arrumar um homem que cuidasse delas. Casou-se, novamente, antes de parir. Pagava um preço por isto.
O novo marido de sua mãe a assumiu como pai. Era um ermitão embotado. Negou suas relações sociais, não tinha amigos. Seu mundo girava em torno do apartamento e do trabalho. A família, um espelho que refletia o seu mundo, feito de vínculos e doenças. Dependência que expunha as suas feridas.
Em um primeiro momento o seu vínculo maior era o novo marido de sua mãe, de quem não herdara o sangue. Montavam quebra cabeças juntos. Adorava os jogos de tabuleiro e cartas.
Depois de um acidente de barco, o novo marido de sua mãe transformou-se. Perdera o cargo, dinheiro e a mobilidade das pernas. Um segundo pai sem vida. Fora reduzido a um empregado, a um “faz tudo para o patrão”. Apesar de receber um salário razoável, era inferior ao anterior. Competia com a esposa. Ganhava os bons e velhos celulares que o chefe descartava. Recebia-os com um sorriso amarelo de inveja e falsidade. Esculpia a sua ruína emocional e espiritual.
O casal seguia junto após este ocorrido. Uma relação linda nas postagens das redes sociais. O casamento de interesse se mantinha mais tenso. A sua mãe falava em se separar. Ela desejava e aguardava o fim daquela guerra fria.
Tornou-se uma gata borralheira para a sua família. Era de sua responsabilidade limpar o chão, o teto, a pia, a roupa e fazer a comida. Manter a casa em ordem. O conceito de parceria, cumplicidade, companheirismo, aprendeu por conta própria. Era responsável com os deveres da escola. Tinha que manter tudo em equilíbrio, ao contrário do seu exterior.
A partir de então a mãe e o novo marido a tratavam mal quando perdiam o controle emocional o que era cada vez mais constante. Aos olhos destes “strangers things” era a imagem e a semelhança de suas desgraças. Não sabiam lidar com os seus desequilíbrios. Precisavam de um culpado. Era ela que estava mais próxima e vulnerável. Sua mãe dizia com frequência que fora um erro tê-la. Sentia aquelas agressões no corpo e na alma, facadas que impingiam na sua carne.
Possuía cumplicidade com a sua avó. Aprendera com ela os ciclos da mulher. Esta idosa era mais jovem do que a mãe e o novo marido dela, juntos. Quando a situação do casamento deles se tornou insuportável, ficou alguns dias na casa dela. Não aguentava mais, queria sair de casa.
Um pouco antes do acidente, começou a namorar. O jeito autêntico dela encantou o namorado, acostumado com jovens tradicionais. Tentaram se encontrar um ano antes, mas os pais não permitiram. Apenas uma amiga a visitava. Impediram-na de viver de forma natural e saudável.
O namorado conquistou o impossível, o respeito do seus pais. Sua felicidade era estar com ele, aprendeu o significado de carinho e amor. Curava as suas dores.
Passado alguns anos, saiu de casa. Seu pai já havia falecido de problema no coração. Seu namorado fora um portal para outro padrão de vida.
À noite, em seus poucos momentos de folga, sentia saudade da vida que desejara e tentara recriar. Interagia com amigas, estava com outro namorado e viajava sempre que possível. Adotara o prazer como forma de vida. Ainda havia um oco dentro dela.
Agora, como enfermeira, a cada bebê de que cuidava na incubadora, era uma forma de mimar a criança que habitava nela, ausente de afeto, distante do calor materno. A cada ferida aberta que cicatrizava, uma forma de retirar facas do seu corpo. A cada morte, uma batalha perdida. Retorno ao ponto de partida.
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Livro da autora (foto abaixo): https://joemacarvalholiteratura.blogspot.com/

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