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"Peruaçu", da poeta e escritora Joema Carvalho

27/07/2021 às 09h39
Por: Mhario Lincoln
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Peruaçu

Joema Carvalho 

A montanha de rochas pré-históricas seguia em paralelo com a rodovia. Dinossauros ocupavam o entorno. Eram indiferentes a nossa presença. O tempo caminhava através do balanço da calda daqueles gigantes e nos empurra para frente.

Paramos. Descemos do carro e seguimos pela trilha. Estávamos tocando aquelas rochas paralelas a nós. Àqueles animais gigantes estavam pertos. Filhotes de coral, pela trilha, brindavam o momento como algo inesperado. Eram um contraste laranja, no meio do solo e das rochas escuras e o verde da vegetação densa. Recém-nascidos, já vinham com autonomia para continuar sua história sem a proteção materna, ao contrário de nós. Os seus pais eram corais.

As frutas dali nos brindavam junto da paisagem antiga. Um sabor deslumbrante de vida. A trilha exigia concentração. Longa, estreita, nos levou primeiro para o cânion. Dinossauros alados faziam rasantes, como os condores nos Andes. O formato pontiagudo daquelas rochas, tinham algo de gótico. O sagrado não precisava de templo. Estava ali, em puro Gênese. Aquele vazio preenchia meus poros de abundância.

A trilha exigia o nosso centro. Se fôssemos para o passado ou futuro, o risco marcaria a história. Peçonhentos, ferroadas, muitas lascas de rochas soltas e desnível entre elas, que tínhamos que transpor. O medo poderia ser perdido ali, seria uma oportunidade.

O tempo variava com o momento. Ora passava rápido, ora demorava. Cada qual sabe do seu. Quanto mais se realiza, mais eles nos propicia o seu recurso.

O presente e a sua relatividade e incerteza tinha que ser mantido. O corpo alinhado com a intuição. Ingrediente para se caminhar na harmonia junto do desconhecido.

Dentro daquelas rochas, a marcação dele se fazia de acordo com as mudanças climáticas. Eras secas marcadas em camadas mais escuras se alternavam com as de tons mais claros. Época chuvosa, períodos quentes, eras glaciais, frias. Quanto maior a concentração de carbono, menor a biodiversidade, assim se fez no início da formação da crosta e assim, tende o nosso retorno, trilobita.

Hoje, a variação climática questiona o conceito de posse e matéria. A perda do controle daquilo que julgávamos certo, nossa eternidade enquanto espécie. No meio de lixo, a carcaça sedimentada por compressão e pressão de nossa essência. Adaptados ao desiquilíbrio, a vida se mantém graças a drogas legalizadas, disponíveis em farmácias. Morremos aos poucos em decorrência da depreciação genética, como os dinossauros. O Big Band, talvez um basta.

As águas verdes cristalinas que vinham de dentro daquelas cavernas refletiam nossa sombra. Entre rochas testemunhas não tínhamos como escapar de nossas ações. Tudo retornava em igual proporção no emaranhado do plantio e colheita certa.

Voltamos ainda mais no tempo. Dentro de uma das cavernas, minha proporção era 100 vezes inferior. Na outra, mais desgastada pela ação do tempo, 200 vezes. Foi impressionante aquela imensidão. Onde estávamos dizia sobre a nossa significância. O vento conduzia o caminho. De passagem chegamos e retornamos. No buraco negro, pós galácticos que buscam poesia.

*Joema Carvalho foi indicada para a Academia Poética Brasileira

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